Já se disse inicialmente que a Covid-19 era um vírus democrático, atingia todas as classes sociais e todos os territórios, mas os números nos mostram que não é nada disso. Não há ilusões que escondam essa verdade, nem pandemia que mude essa realidade.
A doença aparentemente trazida pelos ricos que viajavam ao exterior saiu de suas poltronas nos aviões, de suas casas, seus condomínios, andou pelas cidades e chegou até as favelas e periferias, onde a pobreza sempre reserva o pior lugar neste assento da vida. E se a vida é em um país desigual, não é só o pior lugar que é reservado, às vezes é lugar nenhum.
As periferias no Brasil são classificadas pelo IBGE como aglomerados subnormais. No último Censo, em 2010, o Brasil já possuía 6.329 aglomerados subnormais com um adensamento imenso de 11,4 milhões de pessoas, os quais, na sua maioria, sustentam-se com empregos informais, alçados à categoria de empreendedores individuais, trabalho com carteira assinada é um luxo pertencente a poucos.
A pandemia só escancara ainda mais essa desigualdade urbana. Essas duas cidades dentro da mesma cidade. Não é só o coronavírus, o índice de tuberculose em favelas do Brasil é altíssimo, pois o ambiente é sem luz, insalubre, propício à proliferação da bactéria. A segregação urbana faz parte da nossa história, o término da escravidão sem nenhuma reparação e auxílio aos ex-escravos é um dos principais componentes da formação desse desenho urbano que revela essas duas cidades.
Dados revelam que 48% da população brasileira vive em locais sem saneamento, quase 35 milhões de brasileiros não têm acesso a água tratada; só no ES em 3.600 domicílios moram 6 ou mais pessoas, 1.667 famílias vivem em situação de adensamento efetivo: álcool em gel, máscara, 2 metros de distância, isolamento, home office, que mundo é esse?
Esse é o mundo do lado de lá, porque do lado de cá, os hospitais públicos em muitos Estados estão com mais de 90% de sua capacidade, hospitais esses que atendem 75% da população brasileira que não tem plano privado de saúde; o número de mortes nas periferias é bem maior.
O fim da quarentena opõe essas duas cidades: a que gostaria de se proteger, mas não consegue, porque não pode; e a que pode se proteger. Se queremos sair dessa crise melhores, temos que olhar para nossas cidades. E agora que a pandemia escancarou a nossa desigualdade urbana, temos que lutar por uma cidade igual para todos!
*A autora é professora da FDV e integrante do BR/Cidades