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Luiz Cláudio Allemand

Artigo de Opinião

É advogado em Vitória/ES, mestre em Direito Tributário, LLM pela Steinbeis University Berlim e diretor jurídico da Fiesp
Luiz Cláudio Allemand

O risco não calculado, a governança e a tecnologia no mercado financeiro

Para o investidor moderno, a análise de um ativo deve ir muito além dos gráficos de rentabilidade passada ou das projeções de lucros futuros
Luiz Cláudio Allemand
É advogado em Vitória/ES, mestre em Direito Tributário, LLM pela Steinbeis University Berlim e diretor jurídico da Fiesp

Publicado em 19 de Agosto de 2026 às 10:00

Publicado em 

19 ago 2026 às 10:00

Sob a ótica do investidor, o ecossistema financeiro é governado por uma dualidade central: o risco aceito voluntariamente e o risco suportado por falhas institucionais. No primeiro grupo, está o risco normal de mercado. Esse é o terreno conhecido da volatilidade macroeconômica, das oscilações de preços causadas por inflação, decisões de juros, tensões geopolíticas ou mudanças nos ciclos de crescimento global. 


O investidor consciente entra nesse cenário sabendo que flutuações patrimoniais fazem parte do jogo. Para gerenciar esse risco sistêmico inevitável, ele utiliza ferramentas estatísticas e estratégias de diversificação, balanceando sua carteira entre renda fixa, ações e fundos. O risco de mercado é quantificável, precificado e transparente. É uma variável esperada dentro da governança de qualquer portfólio de investimentos de longo prazo.


O cenário muda de forma drástica quando surge o risco não calculado. Esse não provém das forças impessoais da oferta e da demanda, mas sim dos bastidores operacionais, das falhas de conduta e da omissão na própria instituição financeira escolhida para gerir o patrimônio. Esse risco invisível manifesta-se no momento em que o gestor negligencia, contorna ou ignora deliberadamente as regras fundamentais de governança corporativa e os pilares de compliance da instituição. 

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Para o investidor, esse é o pior perigo, pois ele é imensurável e impossível de ser precificado em modelos tradicionais. Quando um gestor burla controles internos para inflar resultados, omite conflitos de interesse, maquia balanços ou descumpre normas, ele destrói o pacto de confiança que sustenta o mercado. O investidor é pego de surpresa por fraudes ou colapsos que seriam prevenidos se a governança operasse como um escudo real. 


A gravidade desse risco oculto ganha contornos profundos na era da economia digital. No mercado contemporâneo, a transformação digital reconfigurou as estruturas de poder e as assimetrias de informação. Plataformas automatizadas, algoritmos de negociação de alta frequência e sistemas de inteligência artificial democratizaram o acesso aos dados globais. 


Hoje, o conhecimento técnico, analítico e puramente matemático está inteiramente nivelado pela tecnologia disponível. Qualquer instituição possui, na ponta dos dedos, ferramentas capazes de processar milhões de dados econômicos em milissegundos. 


Se a tecnologia de ponta igualou a capacidade técnica de execução de todos os players do mercado, qual passa a ser o verdadeiro diferencial competitivo? É exatamente neste ponto de inflexão que as lições clássicas do pensador e pai da gestão moderna, Peter Drucker, tornam-se indispensáveis e visionárias. 


Drucker sempre defendeu que as organizações não são apenas entidades econômicas voltadas para o lucro, mas órgãos sociais vitais que devem servir à comunidade e operar com responsabilidade social. Ele sustentava que a liderança eficaz não se baseia em carisma superficial ou inteligência técnica superior, mas sim na integridade irrepreensível do caráter do líder. 


Sob a ótica druckeriana, a ética nos negócios não deve ser tratada como um conceito teórico, romântico ou mero adereço de relações públicas; ela representa o alicerce fundamental para a sobrevivência de qualquer organização. 


No atual ambiente digital hiperconectado, onde o conhecimento virou uma commodity de fácil acesso para todos, a integridade operacional e a postura ética de uma instituição financeira tornam-se o seu maior ativo intangível e o seu principal diferencial competitivo de mercado.

Mercado Financeiro Divulgação

Quando um gestor falha em observar as regras de compliance, ele não está cometendo apenas um erro processual ou uma falha de rotina; ele está falhando de forma catastrófica na dimensão ética que Drucker considerava o pilar inegociável de uma sociedade livre. 


No ecossistema digital, a reputação de uma instituição financeira pode ser destruída em poucos minutos por meio de uma denúncia de fraude que se espalha pelas redes sociais. Em um mercado onde a tecnologia e as taxas são praticamente idênticas, o investidor racional migrará seu capital para onde houver a maior certeza de comportamento ético estrutural. 


A governança e o compliance deixam de ser vistos como obrigações burocráticas e passam a ser compreendidos como a expressão prática e diária da ética nos negócios. São esses mecanismos de controle que garantem que a tecnologia está sendo usada para gerar valor legítimo ao cliente. 

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Para o investidor moderno, a análise de um ativo deve ir muito além dos gráficos de rentabilidade passada ou das projeções de lucros futuros. É imperativo auditar a profundidade da cultura de conformidade da instituição parceira. A tecnologia tem o poder de criar produtos sofisticados, mas apenas a ética inflexível garante que esses mesmos produtos não escondem riscos sistêmicos destrutivos para o patrimônio alheio. 


Seguir os ensinamentos de Peter Drucker significa entender que os negócios e os mercados são feitos por pessoas e para pessoas. Portanto, em um cenário nivelado pelo poder computacional dos algoritmos, o verdadeiro prêmio de risco pertencerá às instituições que transformam a governança em um compromisso moral inabalável. A ética é, e sempre será, a salvaguarda final e definitiva do investidor contra o risco não calculado.

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