Se os windbanners fossem retirados das calçadas, talvez restasse pouco para provar que existe uma eleição em curso. A campanha está oficialmente nas ruas e quase chegando ao seu fim, mas o eleitor parece ter ficado do lado de fora, porque já não reconhece, no ritual eleitoral, uma resposta convincente para aquilo que o aflige.
Os candidatos publicam. As equipes compartilham. Os apoiadores comentam efusivamente. As redes sociais dos políticos parecem agitadas, cheias de vídeos, frases, cortes, jingles, ataques e promessas. Mas a maior parte desse movimento acontece dentro de círculos já convencidos, entre os poucos que ainda acompanham a política com interesse suficiente para transformar qualquer publicação em demonstração de força. Fora dessas bolhas, há silêncio.
O eleitor não está apenas de mau humor ou irritado com uma conjuntura, um governo ou uma candidatura. Está cansado da política e dos políticos. Cansado das promessas que retornam a cada eleição com outra embalagem; dos escândalos que se sucedem sem produzir consequência proporcional; das disputas que trocam os personagens, mas conservam o mesmo enredo; da distância entre o que se anuncia e o que se entrega. O eleitor não desapareceu. Ele apenas retirou sua disposição de participar do espetáculo.
Os carros que circulam pelas ruas e avenidas nesta eleição revelam muito. Em outros ciclos, a proximidade da votação transformava veículos particulares em pequenas vitrines partidárias. Adesivos, bandeiras e números circulavam pelas cidades como sinais de pertencimento. Hoje, quase ninguém — ou muito pouca gente — deseja colar a própria imagem à de um político.
O adesivo, que já foi manifestação pública de preferência, tornou-se para muitos uma exposição incômoda. As pessoas não querem necessariamente esconder o voto; querem evitar o desgaste de ter de justificar por que ainda acreditam em alguém.
Esse afastamento é resultado de uma transformação mais profunda, que a política ainda não conseguiu compreender inteiramente: a sociedade mudou de velocidade, mas as instituições continuam funcionando sob uma gramática antiga. A inteligência artificial, as redes sociais, a biotecnologia, a computação quântica e outras tecnologias avançam em ritmo exponencial.
As estruturas políticas, jurídicas e administrativas, por sua vez, continuam organizadas segundo modelos herdados dos séculos XVIII, XIX e início do século XX. Cresce um abismo, e é nesse intervalo que nasce parte importante do cansaço contemporâneo.
O cidadão recebe informação em tempo real, assiste a crises se formarem diante dos olhos, acompanha guerras, escândalos entre o Supremo e os políticos, decisões econômicas e conflitos antes que as instituições consigam sequer formular uma resposta. A notícia chega instantaneamente, mas a solução chega tarde.
O resultado é uma sociedade que vive em permanente estado de alerta, submetida a uma sucessão de urgências que não encontram canais proporcionais de resposta. A política chega sempre atrasada à dor que pretende representar.
Esse descompasso não produz somente impaciência. Produz desorganização social, conflitos distributivos e crise de legitimidade. Quando as regras antigas já não explicam a realidade, quando as instituições parecem incapazes de mediar os conflitos novos e quando os discursos tradicionais deixam de oferecer direção, o cidadão começa a procurar respostas fora do repertório convencional. É assim que a ruptura se torna sedutora.
O eleitor não precisa ter se tornado ideologicamente radical para se encantar com discursos radicais. Basta que tenha perdido a confiança nas soluções graduais. A social-democracia prometeu proteção, o neoliberalismo prometeu eficiência, diferentes modelos de governo prometeram estabilidade, prosperidade e modernização.
Para parcelas inteiras da sociedade, no entanto, a promessa reformista perdeu valor porque não conseguiu acompanhar a velocidade da deterioração cotidiana. É nesse terreno que populismos e autoritarismos prosperam: não apenas pela força de seus líderes, mas pelo vazio deixado por instituições que já não conseguem traduzir a experiência concreta da sociedade.
O velho pêndulo entre direita e esquerda continua existindo. Mas ele já não explica sozinho o movimento das urnas. A alternância tornou-se também emocional. O eleitor pode votar em um campo ideológico ou no campo contrário, mas carrega consigo a mesma fadiga, a mesma desconfiança e o mesmo desejo de interromper aquilo que considera insuportável.
O voto, nesse ambiente, deixa de ser escolha e passa a ser reação a tudo que aí está. Enquanto a política continua imaginando que disputa projetos de futuro, o eleitor está tentando apenas sobreviver ao presente.
O problema é que as campanhas ainda confundem presença com repetição. Publicar mais não significa ser mais compreendido. Produzir mais vídeos não significa construir mais confiança. O alcance de uma mensagem não revela, por si só, sua capacidade de convencer. O barulho digital pode ser intenso e, ainda assim, não atravessar a fronteira da própria bolha.
A rede social é uma ferramenta indispensável, mas não é soberana. Ela não é a sociedade em miniatura. É uma camada da sociedade, um ambiente de disputa, uma superfície onde alguns sentimentos aparecem com enorme intensidade e outros permanecem invisíveis. O silêncio das ruas, portanto, também é informação. A comunicação política deveria funcionar como uma espécie de película neural e cognitiva que reveste o corpo do poder.
A menos de duas semanas do domingo de eleição, as campanhas ainda não conseguiram oferecer ao eleitor respostas para um país pressionado pelo preço dos alimentos, pela fragilidade econômica e por salários insuficientes. A taxa de desemprego pode estar baixa — e isso precisa ser reconhecido —, mas o emprego não encerra a discussão quando a renda não acompanha o custo de viver. O problema está no carrinho do supermercado, na conta de luz, no aluguel, no transporte, no remédio e no salário que acaba muito antes do fim do mês.
O cidadão não quer apenas saber se o país melhorou em algum indicador. Quer saber se a melhora chegou à sua casa. Alguns candidatos arriscam tratar desses temas. Mas reconhecer uma ferida não é oferecer tratamento. Dizer que os alimentos estão caros não explica como reduzir seus preços. Afirmar que o trabalhador precisa ganhar mais não constitui uma política salarial. Repetir que a economia deve crescer não esclarece que crescimento será esse, quem o financiará, quais setores serão estimulados ou como seus resultados alcançarão a maioria.
A propaganda eleitoral ainda apresenta candidatos, mas não apresenta, com clareza suficiente, caminhos. E esse é o ponto em que a tecnologia poderia alterar radicalmente a qualidade das campanhas — desde que fosse usada para compreender, não apenas para produzir mais depressa.
A inteligência artificial permite acelerar diagnósticos, cruzar pesquisas, dados públicos e informações territoriais, identificar padrões de ataques coordenados, antecipar tendências, perceber erupções espontâneas nas redes e testar diferentes caminhos criativos. Pode ajudar a entregar a mensagem certa, no canal certo, para o público certo e no momento certo. Pode regionalizar uma campanha, compreender que o problema de uma cidade não é necessariamente o mesmo de outra e reconhecer que diferentes grupos carregam vulnerabilidades, expectativas e desejos distintos. Pode, inclusive, transformar dez possibilidades em uma primeira rodada de criação. Mas nenhuma máquina produz propósito por conta própria.
Uma arquitetura contemporânea de comunicação eleitoral deveria reunir, de maneira integrada, diagnóstico estratégico, inteligência digital, pesquisa, criação, audiovisual e distribuição. Cada novo instrumento tecnológico abre um novo portão de persuasão.
Quem dominar esses portões dominará parcelas importantes da atenção coletiva. A questão é saber se esse domínio será usado apenas para conservar o velho sistema com ferramentas novas ou para construir uma democracia capaz de conversar com a sociedade que surgiu depois dele.
O eleitor cansou porque a política continua falando como se o mundo não tivesse mudado. Cansou de mensagens gerais para problemas particulares. Cansou de candidatos que apresentam sua biografia, sua disposição e suas virtudes sem explicar como pretendem enfrentar o preço da vida. Cansou de campanhas que utilizam tecnologia de ponta para reproduzir velhos reflexos, velhos slogans e velhas promessas.
Ainda há tempo para uma mudança de rota. E não falo em fabricar uma candidatura nova, mas em abandonar a obrigação de parecer animado diante de uma sociedade exausta. A campanha que quiser reencontrar o eleitor precisa parar de conversar apenas com quem já está convencido, ouvir o silêncio, reconhecer a crise e oferecer uma direção plausível.
Em tempos de desconfiança, esperança não é um sorriso de estúdio. É a percepção de que alguém compreendeu a dificuldade e sabe por onde começar.
O eleitor não desapareceu. Está no supermercado, no ônibus, no trabalho, na fila, no fim do mês. Está ouvindo menos porque já ouviu demais. Está falando pouco porque muitas promessas lhe disseram quase tudo — e entregaram quase nada. A política ainda não perdeu o eleitor e continua falando para dentro de si mesma e de bolhas “polianas” que aplaudem e vaiam qualquer nova publicação.
Quando a política perde a capacidade de produzir esperança, o silêncio das ruas passa a ser uma mensagem. No domingo 4 de outubro, ela poderá ser a mais eloquente de todas.