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É médica cirurgiã plástica e referência no tratamento do lipedema

Lipedema: um novo marco científico no diagnóstico e no tratamento

O consenso deixa evidente que, até o momento, não se fala em cura, mas em controle da patologia, acompanhamento contínuo e estratégias que permitam às pacientes viver com mais conforto, autonomia e bem-estar

  • Patricia Lyra É médica cirurgiã plástica e referência no tratamento do lipedema
Publicado em 29/01/2026 às 10h00

Durante anos, o lipedema foi tratado com desinformação e, muitas vezes, equívocos. Pacientes peregrinaram por consultórios, ouviram diagnósticos inconsistentes e foram expostas a promessas que pouco ou nada tinham de respaldo científico. Esse cenário começa, finalmente, a mudar de forma concreta.

A publicação do Lipedema World Alliance Delphi Consensus, na revista Nature Communications, neste mês de janeiro, representa um avanço significativo e necessário para a medicina baseada em evidências aplicada a essa condição que, por muitos anos, foi subdiagnosticada e frequentemente confundida com outras doenças.

Pela primeira vez, especialistas de diferentes países, com ampla experiência clínica e científica, construíram um consenso internacional sobre a definição, o diagnóstico e o manejo do lipedema. Esse trabalho foi desenvolvido por meio da metodologia Delphi, reconhecida por sua robustez e por promover alinhamento técnico a partir de múltiplas contribuições qualificadas.

Na prática, esse consenso consolida pontos fundamentais: o lipedema é reconhecido como uma doença crônica que acomete predominantemente mulheres, caracterizada por um acúmulo anormal de tecido adiposo associado à dor e sensibilidade nos membros afetados, hematomas, inchaços e outros sintomas funcionais. O documento reforça que essa condição não deve ser confundida com obesidade ou linfedema, distinção essencial para evitar condutas inadequadas e atrasos no cuidado correto.

Outro avanço importante está na padronização dos critérios diagnósticos, o que contribui para maior precisão clínica e segurança para pacientes e profissionais. O consenso também enfatiza que o tratamento do lipedema deve ser individualizado e multimodal, tendo as medidas conservadoras como base do manejo, com foco no controle dos sintomas, na funcionalidade e na melhora da qualidade de vida das pacientes.

É igualmente relevante a clareza com que o documento aborda as expectativas terapêuticas. O consenso deixa evidente que, até o momento, não se fala em cura, mas em controle da patologia, acompanhamento contínuo e estratégias que permitam às pacientes viver com mais conforto, autonomia e bem-estar.

Lipedema
Lipedema. Crédito: Freepik

Além do impacto direto na prática clínica, esse consenso fortalece o reconhecimento médico e institucional do lipedema. Ele passa a servir como referência científica não apenas para condutas assistenciais, mas para o direcionamento de pesquisas futuras e decisões em saúde que envolvem políticas públicas, cobertura assistencial e organização do cuidado.

Mais do que um conjunto de recomendações, esse documento eleva o nível do debate médico e reforça a importância de um cuidado responsável, ético e fundamentado.

Seguimos avançando com responsabilidade, tendo a ciência como base e a ética como princípio. O lipedema merece atenção séria, e as pacientes merecem um cuidado qualificado, humano e sustentado pelo melhor conhecimento disponível.

Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta.

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