No início da pandemia no Brasil, presenciamos situações quase medievais. Corridas atrás de suprimentos, filas em supermercados, estigmatização de pessoas com diagnóstico positivo. Foi um difícil momento de transição para a nova realidade que viveríamos em seguida. De lá para cá, aprendemos a não nos deixar levar por pensamentos imediatos e individualistas. Aprendemos a ser mais visionários. Enxergar além do “aqui “e do “agora”.
Essas mudanças chegaram às empresas, que também precisam ser visionárias. Mas como fazer isso? Como definiu Jim Collins, elas precisam ter valores centrais e duradouros. Valores que não se dobram a qualquer explicação externa, não “dançam conforme a música”, nem mudam conforme o mercado. Também não estão atrelados a ganhos financeiros ou oportunismos de curto prazo.
E que valores seriam esses? Por quais princípios deveríamos lutar, hoje ou daqui a 100 anos? Autenticidade. Integridade, ética e moral, sem dúvida, são alguns deles. Valores não são associados a tendências ou modelos econômicos, mas fazem parte de uma essência, de fazer o certo da forma certa, porque é o certo a se fazer.
Um amigo expert em sustentabilidade disse que já não se fixam talentos em empresas oferecendo apenas salário, benefícios e desafios. Esses atrativos tornaram-se commodities. E é verdade. Há, hoje, um contingente de indivíduos com ideologias e valores sólidos que não aceitam mais antigas formas de se relacionar e trabalhar, que Peter Drucker classificaria como casuísticas.
Expressões como “nós sempre trabalhamos desse jeito” e “é o sistema, se não aceitarmos vamos sofrer retaliações” já não funcionam mais. E nem podem.
Em toda demanda empresarial, é fundamental que os valores centrais pautem a governança. Somente com elevados padrões de transparência, conformidade legal, ética e moral será possível assegurar a retidão com os valores da organização. O que nos faz lembrar Sócrates, em diálogo com Fedro, quando pergunta: “O que é bom, Fedro? E o que não é bom? Será que alguém precisa lhe ensinar isso?”. Platão que nos perdoe, mas às vezes nos surpreende haver tanta gente precisando que se ensine o que é certo e o que não é.
*Os autores são, respectivamente, presidente do Conselho Temático de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Coemas) da Findes e fundador do Instituto Igido