O Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência, celebrado em 11 de fevereiro, foi instituído pela Organização das Nações Unidas, em 2015, como um marco político e simbólico para dar visibilidade às contribuições femininas na ciência e denunciar as desigualdades de gênero que ainda estruturam esse espaço.
Essa preocupação não é isolada: a promoção da equidade de gênero na ciência integra a Agenda 2030 da ONU, que, por meio dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, reconhece a igualdade entre homens e mulheres como condição indispensável ao desenvolvimento sustentável. O ODS 5, em diálogo com o ODS 4 (educação de qualidade) e o ODS 9 (inovação e infraestrutura), afirma que não há avanço científico, tecnológico ou social sem a inclusão plena de mulheres e meninas na produção do conhecimento.
De igual forma as mulheres brasileiras conquistaram progressos importantes na ciência nas últimas décadas, como demonstram trajetórias amplamente reconhecidas, a exemplo da biomédica Jaqueline Goes de Jesus e da médica Ester Sabino, que lideraram o sequenciamento do genoma do coronavírus no início da pandemia, ou da epidemiologista Celina Turchi, cujo trabalho foi decisivo para estabelecer a relação entre o vírus Zika e a microcefalia.
Ainda assim, a desigualdade de gênero persiste: embora as mulheres representem cerca de 43,7% das pesquisadoras no país, sua presença diminui à medida que se avança nas carreiras e nas posições de maior prestígio e poder decisório.
É importante observar que no campo da formação científica, as mulheres já são maioria entre pós-graduandas e doutorandas, respondendo por aproximadamente 55% das estudantes de mestrado e doutorado em áreas científicas. Pesquisadoras como a química Ana Flávia Nogueira, referência internacional em energia solar, e a astrofísica Marcelle Soares-Santos, com atuação destacada em grandes colaborações internacionais, evidenciam a excelência da produção científica feminina no país.
No entanto, esse protagonismo não se converte, na mesma proporção, em liderança institucional: em 2023, apenas 45,6% dos cargos de chefia em grupos de pesquisa eram ocupados por mulheres, com índices ainda menores em áreas científicas e tecnológicas historicamente masculinizadas.
Essa desigualdade começa muito antes da universidade. Incentivar meninas desde a infância a se reconhecerem como produtoras de ciência é decisivo para alterar esse cenário. Brinquedos, jogos e estímulos culturais seguem reproduzindo estereótipos de gênero: enquanto meninos são estimulados a explorar, construir e experimentar, meninas são frequentemente direcionadas ao cuidado e à passividade. Essa divisão simbólica limita precocemente o interesse, a autoconfiança e a imaginação científica das meninas.
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Além disso, dados nacionais e internacionais apontam para o chamado “efeito tesoura”: embora a entrada de mulheres na ciência cresça, sua permanência e progressão diminuem ao longo do tempo, em razão de desigualdades estruturais como a divisão desigual do trabalho reprodutivo, a discriminação no acesso a financiamento e redes de colaboração e a menor visibilidade na publicação e na liderança acadêmica.
Portanto, reconhecer essa desigualdade é passo fundamental para a formulação de políticas públicas comprometidas com a equidade de oportunidades, desde a educação básica aos mais altos escalões da pesquisa e da inovação.
Neste 11 de fevereiro de 2026, desejamos que às meninas brasileiras e de todo o mundo seja permitido desejar e realizar o sonho de serem cientistas, afinal, ciência de qualidade é aquela que mobiliza todo o talento disponível — e não apenas o de metade da população.
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