O Brasil decidiu reformar profundamente seu sistema de tributação sobre o consumo, com a promessa de simplificação, mais transparência e redução de distorções históricas. No papel, o novo modelo parece mais racional e alinhado às melhores práticas internacionais.
No entanto, entre a aprovação da reforma e seus efeitos concretos, existe um período de transição que representa um dos maiores desafios já enfrentados pelo setor produtivo. Durante vários anos, os empreendedores brasileiros terão de conviver com dois sistemas tributários funcionando ao mesmo tempo – o antigo e o novo –, o que exigirá organização, planejamento e capacidade de adaptação em um nível raramente visto.
A mudança não ocorrerá de forma instantânea. Ao contrário, ela será gradual, com alíquotas progressivas, ajustes ao longo do tempo e um cronograma que se estende por quase uma década. Isso significa que as empresas continuarão cumprindo as regras atuais enquanto começam, simultaneamente, a aplicar as novas. Não se trata apenas de aprender uma legislação diferente, trata-se de operar duas lógicas tributárias paralelas dentro da mesma estrutura empresarial.
Na prática, isso impacta diretamente o cotidiano das empresas. Sistemas de faturamento precisarão ser adaptados para contemplar os tributos antigos e os novos. Softwares de gestão terão de ser atualizados. Contratos precisarão ser revisados para prever impactos financeiros decorrentes da transição. Equipes contábeis e fiscais precisarão ser treinadas para lidar com regras distintas que coexistirão por anos. Tudo isso representa custo adicional, aumento de complexidade e maior risco operacional.
O desafio é ainda mais sensível quando se pensa na formação de preços. Durante o período de convivência dos dois sistemas, os produtos e serviços poderão carregar componentes tributários distintos, que variarão ao longo do tempo. Empresas que trabalham com contratos de médio e longo prazo precisarão recalcular margens, revisar cláusulas econômicas e monitorar constantemente os efeitos da transição sobre sua estrutura de custos. Em setores de margem apertada, qualquer erro de cálculo pode comprometer a rentabilidade.
Há também um impacto relevante no fluxo de caixa. A nova lógica de tributação, baseada em modelos mais amplos de crédito, exigirá controle rigoroso das operações. Enquanto o sistema atual continua demandando atenção, o novo modelo começará a gerar efeitos que precisam ser corretamente registrados e acompanhados. A duplicidade temporária de obrigações aumenta a carga administrativa e exige maior disciplina financeira.
Para as grandes empresas, com equipes estruturadas e departamentos especializados, o desafio é significativo, mas administrável. Já para pequenas e médias empresas, que operam com estruturas enxutas, a transição pode representar um momento de tensão. O custo de adaptação tecnológica, a necessidade de consultorias especializadas e o treinamento de equipes impactam diretamente o orçamento. Ignorar essa realidade ou postergar decisões pode sair mais caro no futuro.
Além do aspecto operacional, existe o fator humano. Profissionais da área contábil e fiscal terão de dominar dois sistemas simultaneamente. A margem para erro aumenta. A insegurança sobre interpretações pode gerar receio e paralisia. Em um ambiente já marcado por elevada complexidade tributária, a convivência temporária de dois regimes exige atenção redobrada.
Outro ponto delicado é a comunicação com o mercado. Mudanças graduais na carga tributária podem afetar preços e condições comerciais. Explicar ao cliente que determinado ajuste decorre da transição tributária, e não de uma simples decisão empresarial, será parte do esforço de transparência. Empresas que mantiverem diálogo claro com seus consumidores e parceiros tendem a atravessar esse período com maior estabilidade nas relações comerciais.
Por outro lado, a transição também abre espaço para evolução na gestão. Empresas que aproveitarem esse momento para revisar processos internos, investir em tecnologia e integrar melhor suas áreas financeira, contábil e estratégica podem sair fortalecidas. A necessidade de controle mais rigoroso pode impulsionar melhorias que permanecerão mesmo após a consolidação do novo sistema. A reforma, nesse sentido, pode funcionar como catalisador de modernização.
A chave para atravessar esse período não está na improvisação, mas no planejamento. Mapear impactos desde já, simular cenários, revisar contratos e preparar equipes são medidas que reduzem riscos. A transição não deve ser tratada como um evento distante, mas como um processo já em curso. Quanto antes as empresas compreenderem os efeitos práticos da convivência entre os dois sistemas, maior será sua capacidade de adaptação.
É natural que uma mudança estrutural dessa magnitude gere apreensão. Reformas tributárias profundas raramente são simples. Países que passaram por processos semelhantes também enfrentaram períodos de ajuste. A diferença está na capacidade de organização das empresas e na clareza das orientações oferecidas pelo poder público.
O empresário brasileiro está habituado a operar em ambientes desafiadores. Instabilidade econômica, mudanças regulatórias e complexidade burocrática fazem parte da rotina. A transição tributária será mais um capítulo dessa história de resiliência. No entanto, diferentemente de crises pontuais, este é um processo planejado e com cronograma definido, o que permite antecipação e estratégia.
Conviver com dois sistemas tributários ao mesmo tempo é, sem dúvida, um teste de maturidade empresarial. Exigirá disciplina, investimento e visão de longo prazo. Se bem administrado, o período de transição pode não apenas ser superado, mas também servir como ponto de inflexão para uma gestão mais profissionalizada e integrada.
A promessa da reforma é a simplificação futura. Até que ela se concretize plenamente, porém, o desafio será administrar a complexidade temporária. A travessia exigirá atenção constante, mas também oferece a oportunidade de fortalecer estruturas internas e preparar as empresas para um ambiente tributário potencialmente mais estável.
O sucesso dessa jornada dependerá menos da sorte e mais da capacidade de planejamento. O futuro sistema pode ser mais simples. O caminho até ele, no entanto, exigirá das empresas brasileiras organização, prudência e estratégia.
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