
Antônio Carlos de Medeiros*
Voltamos ao Príncipe, de Maquiavel. Aos conceitos de “virtú” (capacidade política) e de “fortuna” (circunstâncias). Com seis meses, o presidente Bolsonaro atua num zigue-zague entre a virtú e a fortuna. O problema é que a virtú não se conecta com a fortuna. Quando isto ocorre, ou o governo termina mais cedo, ou termina mal de popularidade.
Agora, ele antecipou a sucessão presidencial de 2022 e quer mostrar que não é “tutelável”. Poderá aprofundar os paradoxos do seu governo, entre a agenda liberalizante iluminista de Paulo Guedes e a agenda ideológica de costumes contrailuminista de Olavo de Carvalho e Steve Bannon, ex-estrategista de Trump.
Com a fala da reeleição, ele quer ganhar mais força pela expectativa de poder. Mas remexe num tabuleiro político com formato de labirinto. Divide e (des)governa. E a pauta ideológica e simbólica do bolsonarismo de raiz, um varejo de bazar, não é suficiente para sustentar o governo. Estas pautas estão intensificando a judicialização da política e gerando conflitos com o Legislativo e com o STF. Além disto, a Parada LGBT colocou 3 milhões de pessoas nas ruas de São Paulo e desafiou Bolsonaro.
Do lado das circunstâncias (a fortuna), o Brasil sangra. O ambiente de insegurança e instabilidade política trava a capacidade do país crescer. A previsão do PIB caiu para 0,87%. Recessão e ponto morto. 25 milhões de pessoas estão ou desempregadas ou como precariado. Não dá mais. É crescer ou crescer. A sustentação popular do governo vai depender disso. Voltamos à máxima: “é a economia, estúpido”.
O “zeitgeist” (espírito de época) mudou e está solto. A sensação de mal-estar pode explodir num “basta!”. É preciso apontar uma saída e começar a entregar. Guedes anunciou agora o novo mercado de gás. É pouco para recuperar a bússola. Tem que tirar a agenda da gaveta e despertar o espírito animal do empresariado. Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre se aliam para protagonismo pelo crescimento. Também é pouco.
Tem que construir consenso com as forças da sociedade para destravar a economia e a capacidade produtiva. Os governadores buscam protagonismo, mas ainda não geram tração. O empresariado está na muda. Não temos uma coalizão de poder e governabilidade com raiz na sociedade. Os governos – federal, estaduais e municipais – estão quebrados e com baixa capacidade de investir. Precisam criar confiança para induzir investimentos privados. Mas com este clima atual, a confiança não vem.
O presidente precisa falar para além dos seus 34% do eleitorado. 34% não garante maioria para governar e entregar. Sem maioria de governo, o Congresso emperra e a instabilidade pode virar ruptura. A virtú precisa entrar em sintonia com a fortuna. O novo zeitgeist pode levar, mais ainda, o dragão das manifestações às ruas. Já vimos este filme em 2013, 2015 e 2016. Reprise?
*O autor é pós-doutor em Ciência Política pela The London School of Economics and Political Science