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Com o Ciodes, PM ficou refém de uma parcela da população

Alguém sabe quanto custa uma viatura da PM 24h por dia? É o táxi mais caro do mundo, mas não é somente este o problema

Publicado em 03/05/2019 às 20h19

Sala de controle do Ciodes

Henrique Geaquinto Herkenhoff*

Quando deixei a Secretaria Estadual de Segurança, uma jornalista me perguntou se eu tinha algum arrependimento da minha gestão. Até então não, mas agora vai o registro: meu apoio incondicional ao fortalecimento do Ciodes.

O. W. Wilson, o grande reformador da polícia norte-americana, pregava a atenção imediata e célere às ocorrências criminosas comunicadas pela população, utilizando as grandes maravilhas tecnológicas da época: o telefone, o rádio e o automóvel. Diminuir o tempo de resposta aumentaria exponencialmente as chances de prender o criminoso em flagrante, socorrer a vítima etc.

Conseguimos que uma viatura chegasse ao local do crime em cerca de 3 minutos, em média, mas a polícia nem sempre consegue deter o criminoso em flagrante. Na verdade, os crimes quase sempre são comunicados somente depois que a vítima se sente segura e, portanto, o criminoso já vai longe. E o socorro a feridos é tarefa de ambulâncias, não dos policiais. Resta então, apenas, conduzir as vítimas e testemunhas até a delegacia para registrar o BO. Alguém sabe quanto custa uma viatura da PM 24h por dia? 2 milhões de reais por ano, a metade paga à vista pelo orçamento da PM, a outra metade a prazo, pela folha de inativos. É o táxi mais caro do mundo, mas não é somente este o problema.

A única maneira de diminuir o tempo de resposta era colocar mais efetivo à disposição dessa central de comando, o que implicou retirar policiais do patrulhamento ostensivo, das abordagens etc. Em outras palavras, mais policiais atendendo às demandas individuais dos cidadãos e menos ao comando centralizado e planejado. Como o Ciodes acabou crescendo demais, grande parte dos PMs atualmente ficou se deslocando de um lado para o outro da Grande Vitória, ao sabor da vontade difusa da população, sem uma estratégia geral, pensada previamente: atende-se à demanda do momento, à prioridade de quem está do outro lado da linha, não a um planejamento governamental. E claro, quem reclama mais, manda mais. O resultado é que a PM passou a cumprir muito menos suas funções principais do que poderia e a ser dirigida não apenas pelo seu comandante-geral, nem pelo secretário de Segurança ou pelo governador, mas em larga medida por “ordens” caóticas de uma parcela da população, o que não tem nada de democrático, muito menos de racional.

Bem, não posso mais corrigir esse meu erro, mas outros podem. Seria impopular, mas importante.

*O autor é professor do mestrado em Segurança Pública da UVV

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