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Aumento da área de florestas plantadas tem potencial de ampliar o PIB

Com recursos do mercado de carbono, setores competitivos podem se fortalecer, expandir e gerar ainda mais reduções, criando um ciclo virtuoso

Publicado em 03/11/2019 às 04h00
Atualizado em 03/11/2019 às 04h02
A árvore usa a radiação solar como fonte de energia e água e nutrientes do solo para crescer. Crédito: Pixabay
A árvore usa a radiação solar como fonte de energia e água e nutrientes do solo para crescer. Crédito: Pixabay

Com tantas rotas de desenvolvimento na bioeconomia em andamento, inclusive por empresas privadas brasileiras, o crescimento de produtos de base florestal se consolida como caminho fundamental para o desafio do clima. As árvores cultivadas promovem o sequestro de gases de efeito estufa e estocam carbono abaixo e acima do solo e ajudam na redução de emissões pelo uso da madeira como fonte renovável. Além disso, o aumento da área de florestas plantadas tem potencial de ampliar o Produto Interno Bruto (PIB).

A árvore usa a radiação solar como fonte de energia e água e nutrientes do solo para crescer. Nesse processo, remove carbono da atmosfera. Cerca de 50% da sua composição química é carbono sequestrado. Num ciclo de 6 anos, um hectare de árvores plantadas de eucaliptos adequadamente manejado, sequestra e estoca em média 200 toneladas de CO2 equivalente (tCO2eq). Além disso, nas áreas de matas naturais conservadas pelo setor, cada hectare tem potencial de até 350 tCO2eq.

O setor de florestas plantadas é altamente eficiente na absorção de carbono e mitigação do efeito estufa, por terem crescimento acelerado e ciclo curto de crescimento, isto é são colhidas aos 6 ou 7 anos e substituídas por novas árvores.

Comparando com os países frios, onde a taxa de crescimento é da ordem de 5 a 6 m3/ha/ano, o Brasil tem média de 36 m3/ha/ano. Assim, a taxa bruta de sequestro de carbono é da ordem de 5 tCO2eq por hectare por ano nos locais mais frios, enquanto no Brasil é de até 40 tCO2eq/ha/ano.

Um projeto de florestas plantadas, dentro do Código Florestal que prevê a destinação de áreas para preservação, terá sequestro vindo da própria planta cultivada e também da área preservada. Em média, o setor tem mais de 40% das áreas conservadas com florestas naturais, muitas vezes acima do exigido na legislação brasileira. Em 2018, o estoque de CO2 equivalente (CO2eq) do segmento somou 4,2 bilhões de toneladas.

O Brasil tem hoje cerca de 7,8 milhões de hectares de árvores plantadas. Um aumento de menos de 10% dessa área poderia gerar um sequestro líquido de mais de 100 milhões tCO2eq, valor semelhante a soma de todas as emissões de processos industriais no Brasil em um ano. Com um programa de duplicação dessa área, envolvendo pequenos fazendeiros e proprietários de terras, as florestas plantadas poderiam contribuir ainda mais para a redução dos efeitos do aquecimento global e gerar riqueza compartilhada.

Paulo Hartung e Carlos Aguiar

Autores do artigo

"Hoje, o licenciamento para cultivar árvore no Brasil é burocrático. Há leis e regulamentações federais e estaduais que dificultam a evolução desse setor. Temos que trabalhar pela desburocratização do processo"

Não é fácil plantar 7,8 milhões de hectares, pois os existentes levaram mais de 50 anos para serem formados. Porém, com a necessidade de redução do aquecimento do planeta, cada Estado brasileiro com o mínimo de vocação para a produção de árvores deveria considerar em seus planejamentos estratégicos o plantio em larga escala. Áreas de até 20 mil hectares em regiões degradadas poderiam receber plantações de árvores capazes de produzir biomassa para uma fábrica de biocombustível, uma grande serraria, uma siderúrgica, um polo exportador de madeira ou cavacos. Isso desde que haja um licenciamento simples.

Hoje, o licenciamento para cultivar árvore no Brasil é burocrático. Há leis e regulamentações federais e estaduais que dificultam a evolução desse setor. Temos que trabalhar pela desburocratização do processo, sempre seguindo as regras do Código Florestal brasileiro, um dos melhores do mundo. Há uma proposta no Congresso nesse sentido do deputado Kim Kataguiri (DEM-SP), relator do projeto PL 3729/2004.

Além disso, no âmbito federal seria muito importante avançar com mecanismos de precificação do carbono, via mercados, como mecanismo de estímulo ao investimento verde, seja em nível nacional ou internacional. Nada que tenha de drenar os cofres públicos, pelo contrário, regulamentações claras e segurança jurídica podem incentivar os compromissos de redução de emissões e fortalecer essa economia.

Com recursos do mercado de carbono, setores competitivos podem se fortalecer, expandir e gerar ainda mais reduções, criando um ciclo virtuoso. Tudo isso cria um ambiente propício para a transição para a bioeconomia e aumenta a chance de se conter o aquecimento global.

Carlos Aguiar foi presidente da Aracruz e da Fibria, articulou a criação da Ibá e atua na Royal Swedish Academy of Engineering Sciences (Suécia)

Paulo Hartung é  economista, presidente-executivo Ibá, membro do conselho do Todos Pela Educação, ex-governador do Estado do Espírito Santo (2003-2010/2015-2018)

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