O Espírito Santo se consolida a cada dia como “a menina dos olhos” para o resto do país. Sua boa gestão fiscal, o equilíbrio entre as instituições - ainda que em determinado momento existam derrapadas entre alguns integrantes de Poderes capixabas, como já abordei neste espaço -, a segurança jurídica e o bom ambiente de negócios formam um combo que dão credibilidade para o Estado que, por méritos próprios, virou “case” de sucesso e é citado recorrentemente como exemplo por especialistas, políticos e lideranças Brasil afora.
Estar bem na fita, entretanto, não significa que não tenhamos problemas e que estamos imunes a fatores econômicos e políticos. Mas enfrentar qualquer tipo de turbulência quando se tem uma gestão organizada tende a minimizar o tamanho do fardo. Digo isso porque, mesmo com todo o brilho que cerca o Estado, 2019 pode ser um ano em que o Espírito Santo vai colher resultados, do ponto de vista do crescimento da economia, piores do que os do Brasil. O que não é muito agradável considerando que o país tem uma projeção de alta do PIB de tímidos 0,8% a 0,9%.
Por aqui, sequer teremos crescimento. Pelo menos é o que projeta a Tendências Consultoria, empresa do economista e ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega. De acordo com ele, que esteve na última semana em Pedra Azul para o Encontro de Lideranças de A Gazeta, o PIB capixaba deve retrair 0,3%.
Se esse número se confirmar, vamos ter um quadro bem diferente do apresentado nos últimos dois anos, quando a economia local avançou mais do que o dobro da nacional. Em 2017, o PIB do ES cresceu 2,7% e, em 2018, 2,4%, segundo o Instituto Jones dos Santos Neves, contra alta de 1,1% do PIB brasileiro em cada um desses anos. Maílson conversou com a coluna e explicou que o baixo desempenho do Estado será consequência dos números ruins da indústria extrativa.
“São duas causas. A primeira vem do setor da mineração, que não vai bem e aí influencia exportações, logística, diminui o volume transportado. E, como a economia aqui é menos diversificada do que a de Minas Gerais, o Estado sofre proporcionalmente mais o efeito dos desastres ambientais (de Brumadinho) e suas consequências na extração e na exportação do minério do que Minas Gerais. Minas também está sofrendo, mas lá até agosto a indústria caiu 5% e aqui no ES caiu quase 13%. O segundo fator é a exploração de óleo e gás, que vem diminuindo nos últimos três anos e já teve uma queda de quase 18%”, observou o economista ao citar que, para 2020, ele calcula uma alta de 1% para o PIB do Estado e de 1,8% para o do Brasil.
Mas a visão de Maílson é que mesmo com essas projeções de fraco crescimento e até retração, “no mais, o Espírito Santo continua muito bem”.
Para ele, o que distingue o Estado é justamente o combo que citei no início deste texto, somado a iniciativas que vêm sendo preparadas pelo governador Renato Casagrande (PSB) - como a criação do Fundo Soberano, que poderá contribuir para a diversificação da economia - e a forma como as lideranças políticas capixabas foram capazes nos últimos 16 anos - com a alternância de poder entre Paulo Hartung e Casagrande - de somar resultados.
"O ES tem uma característica que infelizmente não está presente em todos os Estados, que é uma certa continuidade administrativa. Ou seja, mudanças de governo e de partido não significam o abandono do que estava andando. Claro que você verá diferenças de estilo, de ênfase, mas nunca de conteúdo básico, e olha que estamos falando de adversários políticos que competiram acirradamente"
O diagnóstico do paraibano quanto ao ambiente do Estado e à participação das forças políticas é assertivo. Mas se mudarmos o foco para o PIB, bom mesmo seria se Maílson errasse seu prognóstico.