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Crítico de cinema e colunista de cultura de A Gazeta

Criador de "Cidade Invisível" fala sobre o poder do nosso folclore

Criador da série "Cidade Invisível", sucesso na Netflix, Carlos Saldanha fala à coluna sobre inspirações, folclore brasileiro e sobre seu primeiro live-action

Vitória
Publicado em 15/02/2021 às 22h20
Atualizado em 15/02/2021 às 22h20
Série 'Cidade Invisível', criada pelo brasileiro Carlos Saldanha para a Netflix. Crédito: Alisson Louback/Netflix;
Série "Cidade Invisível", criada pelo brasileiro Carlos Saldanha para a Netflix. Crédito: Alisson Louback/Netflix;

Carlos Saldanha é um daqueles casos de brasileiros que a gente só sabe que existe porque fez sucesso internacional. Nascido no Rio de Janeiro, se mudou para Nova York há quase trinta anos para estudar e por lá começou sua carreira. A primeira vez que se ouviu falar no nome de Saldanha por aqui foi quando codirigiu o sucesso "A Era do Gelo" (2002). Sua trajetória continuou nas sequências da animação e também em outros filmes como "Robôs" (2005), os dois "Rio" (2011 e 2014) e "O Touro Ferdinando" (2017), que lhe rendeu uma indicação ao Oscar.

Um dos grandes nomes da animação mundial, Saldanha queria ampliar seus horizontes e contar histórias de outra maneira. "Meus filhos cresceram com minhas animações e agora não são mais tão consumidores delas, então quis fazer algo que meus filhos mais velhos pudessem ver", disse o cineasta, em entrevista por chamada de vídeo à coluna para divulgar "Cidade Invisível", série lançada pela Netflix.

De fato, "Cidade Invisível" é bem mais adulta que as animações prévias de Saldanha, mas não menos "encantada". A série acompanha Eric (Marco Pigossi), um policial ambiental que se vê no meio de uma trama envolvendo seres fantásticos do folclore brasileiro. Com uma pegada bem similar à do livro "Deuses Americanos", de Neil Gaiman, "Cidade Invisível" promove um encantamento na audiência - vamos descobrindo esse universo invisível junto com o protagonista e dividindo com ele um encanto diante de tudo aquilo.

Na entrevista abaixo, Carlos Saldanha fala sobre como foi seu processo criativo, uma vez que "Cidade Invisível" não é apenas sua primeira série, mas também seu primeiro grande trabalho em live-action - antes, havia apenas dirigido o segmento "Pas de Deux" para a antologia "Rio, Eu te Amo". "Uma vez filmado, tá filmado. Na animação eu podia voltar atrás, refazer, mas aqui não", brincou o cineasta. Saldanha ainda fala sobre as possibilidades que a premissa oferece de ampliação do universo. "O folclore brasileiro é riquíssimo, em cada região a história é contada de forma diferente. São vários sacis, vários curupiras". Confira a entrevista.

Como essa história chegou até você?

A ideia veio da minha cabeça de querer trazer uma brasilidade de uma forma contemporânea. Eu sempre gostei de folclore, de histórias e de cultura brasileira no geral. Meu sonho era fazer uma animação do Rio de Janeiro e eu consegui fazer. Dessa vez eu quis fazer uma coisa diferente trazendo essa coisa do folclore, desse elemento que tá no imaginário de todos, vive na realidade de muitos. Como trazer uma roupagem nova? A gente cresce ouvido "Sítio do Pica-pau Amarelo", Monteiro Lobato, você lê e é uma interpretação, uma roupagem pra esse tipo de história, mas qual seria a minha interpretação pra esse tipo de história? Foi aí que eu tive essa ideia de fazer, foi aí que eu comecei a trabalhar com as ideias e criar os personagens tentando trazer aquela grande pergunta: e se eles estivessem entre nós? E se eles estão aqui, na sua cara, e são invisíveis? Às vezes você anda na rua e vê pessoas completamente diferentes, com uma mágica, um encanto, uma personalidade... E se essa pessoa fosse uma entidade, como seria essa história? Aí comecei a bolar as ideias. A ideia veio antes da série. Desenvolvi essa ideia por uns dois anos, fui criando personagens, montando... Nunca tinha feito uma série antes. Eu tinha ideia do contexto geral que eu queria, mas não sabia exatamente as coisas específicas. Achava que a gente tinha um trunfo na mão, uma ideia nova com uma roupagem mais moderna, contemporânea, usando o Rio de Janeiro como um elemento, uma coisa urbana. E se eles existissem e se eles estivessem entre nós? Eu sabia que tinha um conceito forte. Quando contei essa história pra Netflix, eles se interessaram muito. Esse foi o início do desenvolvimento. Depois que eles decidiram fazer a série, passei mais de um ano transformando tudo, mudou muito desde o início. A gente teve uma equipe incrível, que foi a Mirna Nogueira (escritora chefe), que foi crucial no desvendar dessa história junto com uma equipe incrível de colaboradores, escritores e tal. A Netflix comprou a ideia, confiou na minha visão, então a gente teve que entregar. Eu tava nos EUA, montei uma equipe no Brasil e começamos tudo do zero pra criar esse mundo.

Você tem muita experiência em animação. Como foi trabalhar no live-action?

Foi uma coisa única! Eu já tava querendo tentar há muito tempo. Eu até fiz um curta praquele filme "Rio, Eu Te Amo! há um tempo atrás e peguei um gostinho. E se eu fizesse uma coisa maior? Fiquei buscando essa forma de fazer um filme, mas quando teve a oportunidade de fazer a série eu agarrei com unhas e dentes. Eu sempre gosto de aprendizados. Mesmo fazendo filmes de animação, eu quero que cada um seja diferente do outro, quero aprender com cada um deles. Quando apareceu essa ideia na minha cabeça, o desafio foi de correr atrás disso, ver se eu conseguia executar isso. Foi interessante porque o processo criativo é muito parecido. Eu vou por todos os processos, criar personagens, criar histórias, roteirizar, criar diálogos... É um processo longo, demorado, como é na animação e em qualquer obra pra cinema, mas essa parte é muito igual. O que muda é quando você tá lá pra filmar. Quando faço filme de animação, eu também crio personagens, crio cenários, eu uso câmeras, iluminação... São os mesmos termos, mas é tudo virtual, tudo no computador, mas dessa vez não. Eu tive que ir pra locações, ver o ator na cena, você tá no meio do contexto do lugar em que você tá filmando, é muito legal. É uma experiência, uma atividade muito sensorial que eu não tinha com a animação, e isso pra mim foi incrível - estar na floresta e sentir o cheiro da mata, o cheiro da chuva, ver os personagens com frio e sentir na pele a cena. Quando você vê o personagem se transformando na cena, é uma coisa incrível. Na animação você cria, você grava as fotos e depois anima o personagem, você decide, mas no live action não; o seu projeto tá nas mãos desses atores, desses talentos incríveis, e eles entregam, definem. É uma coisa de evolução de colaboração. Os diretores, Luis Carone e Julia Jordão, trazem uma sensibilidade, uma ideia... Foi muito legal, uma coisa única. No final da filmagem um saí chorando, porque foi muito bom.

Série "Cidade Invisível", criada pelo brasileiro Carlos Saldanha para a Netflix. Crédito: Alisson Louback/Netflix;

Enquanto diretor, qual foi a grande novidade que você levou pra série e qual o maior risco que você correu na produção?

O que eu trouxe pra série foi a minha experiência de vários anos contando histórias, contando camadas de histórias. Quando a gente faz animação, a gente cria um personagem que tem várias camadas. Às vezes ele tá bonitinho, dançando ali na tela, mas na verdade ele tá contando uma coisa mais série ou fazendo uma piada que os adultos vão pegar e as crianças não. Eu quis trazer um pouco dessa irreverência, dessa ideia de personagem, de camadas que a gente pudesse inserir numa série que não é tão pra crianças. Foi o grande desafio e até o grande chamado pra mim. Eu quis fazer uma série que meus filhos mais velhos pudessem ver. Eles cresceram com meus filmes de animação e agora não são tão mais esses consumidores, então fiquei pensando: e se eu fizesse uma série que eles curtissem, e se eu trouxesse pra eles, por exemplo, um pouco da brasilidade que não seja baseado no jardim da infância, na história do Monteiro Lobato? Como a gente pode trazer uma roupagem diferente? Eu estava sempre checando essa construção, queria mostrar o folclore real no sentido de que ele está entre nós. Uma coisa que estava na minha infância, nos meus medos, nos meus anseios... Não tenho muitos arrependimentos. Uma coisa difícil pra mim foi que uma vez filmado, tá filmado. Na animação eu posso voltar atrás, mudar um pouco, refazer, mas na filmagem não. Tem aquele horário, aquela hora, o Sol tá caindo e você tem que filmar naquela hora porque o ator tá pronto, tem que ter luz, choveu. E aí, como faz? Isso faz com que você tenha que ter uma resposta bem mais rápida. Ao mesmo tempo que foi muito interessante, instigante e desafiador, também foi libertador por ser um momento de criação muito único.

Quando a Netflix lançou o trailer, a reação das redes foi muito positiva, uma versão adulta de personagens que conhecemos quando crianças. Como você lidou com a expectativa do lançamento?

É muito interessante porque, quando eu faço meus projetos, eu procuro não gerar expectativas (risos), eu procuro fazer o melhor que posso fazer pra contar a melhor história dentro do que eu tenho na minha frente. Parte da criação é o processo, quando você entra de coração no projeto, quando as coisas começam a funcionar, você cria uma conexão com as pessoas, os atores, os diretores, a equipe, a jornada tem duas funções: transformar o projeto no melhor que possa ser, porque tá todo mundo unido, tem uma união emocional. Essa energia positiva fez com que o processo de criação fosse muito gratificante. E no final a gente tem que acreditar que o que estamos fazendo é único. Não sei se, por ser tão diferente, não conseguia ver as expectativas, mas no meu coração eu quis fazer justamente uma coisa que eu gostasse de ver, de ter uma interpretação. A gente consome tanta coisa de fora... Tem "Deuses Americanos", tem "Thor", lendas gregas, "Vikings", coisas que não têm nada a ver com a gente. A gente consome isso achando o máximo. Por que não achar o máximo o que nós temos? Temos uma coisa tão rica! Se você conta uma história do nosso folclore pra uma pessoa de fora, ela fica "caraca, isso é muito louco!", e isso é muito Brasil. É indígena com africano, com europeu, uma mistura. Quando você vai mais a fundo estudando isso, eu falei muito com a Januaria CristinaAlves, que escreveu o livro "Abecedário dos Personagens do Folclore", e foi incrível. Eu achava que era uma coisa, mas não era. Você conversa com uma pessoa no Maranhão, a história é diferente de uma pessoa do Rio Grande do Sul, do Mato Grosso. O Brasil é tão plural que a mesma história é contada em diversas versões diferentes. Eu fiquei tão animado com isso que eu tinha que botar isso. Se a pessoa não assistir a essa série, espero que traga a curiosidade de ir mais a fundo numa coisa que a gente tem e é tão rica, que é a nossa história, o nosso folclore. Espero que quem esteja assistindo corra atrás de entender um pouco mais. Claro que minha série é uma ficção, uma releitura, mas se a pessoa se interessar em saber um pouco mais, é um mundo invisível totalmente real, é incrível.

Carlos Saldanha

Cineasta, criador de "Cidade Invisível"

" A gente consome tanta coisa de fora... Tem "Deuses Americanos", tem "Thor", lendas gregas, "Vikings", coisas que não têm nada a ver com a gente. A gente consome isso achando o máximo. Por que não achar o máximo o que nós temos? Temos uma coisa tão rica! Se você conta uma história do nosso folclore pra uma pessoa de fora, ela fica "caraca, isso é muito louco!", e isso é muito Brasil. É indígena com africano, com europeu, uma mistura."

Essas histórias têm tudo a ver como a forma como o Brasil se formou, os povos. Queria saber quão significativo é rememorar essas histórias ancestrais no Brasil de agora.

A gente, como país e cultura, só consegue ser forte se olharmos um pouco mais pra dentro; entender o que vem de fora, mas entender o que nós temos de precioso aqui. A gente tem a tendência de valorizar as coisas de fora mais do que o que a gente tem. Às vezes esquecemos da nossa própria riqueza. Eu, morando fora há muito tempo, tenho uma visão quase estrangeira nisso. Eu tenho essa vontade de mudar essa percepção. Qual a linguagem que poderia acessar essa nova geração? A geração dos meus filhos mais velhos, meus sobrinhos... Essas histórias vão se perdendo. O folclore são histórias contadas de boca a boca. Se você passa de contá-las, elas morrem, se perdem. Acho que eu tive a vontade de reacender essa chama. A última coisa que qualquer pessoa se lembra de folclore é "Sítio do Pica-pau Amarelo", isso é de quando eu era criança e eu tô com 52 anos! Como eu trago de novo, pra uma nova geração, uma nova roupagem? Essa foi a minha inspiração, minha vontade de tentar contar essa história. A gente tem influências de todos os cantos e nosso folclore é plural como o brasileiro, tem de tudo um pouco. É muito louco! Isso é o que eu acho tão interessante. Pra criatividade, é um santuário de ideias.

Você citou o "Deuses Americanos", que é uma série que tem ampliado muito o livro do Neil Gaiman. "Cidade Invisível" também oferece muita possibilidade de ampliação. Queria saber quão grande pode ser esse universo?

É um universo incrível! São mais de 300 histórias e elas têm várias interpretações da mesma história - são vários sacis, vários surupiras, vários botos... Na verdade, a gente tá contando a história de um personagem dentro desse contexto, mas são várias interpretações. São milhares de outras ideias, outras entidades que a gente tentou botar, mas no final não tinha espaço. No final a gente resolveu esperar para contar mais histórias. Todas essas histórias de folclore são baseados em relatos, em histórias, mas tudo tem uma questão ambiental, uma questão emocional... Você usa as entidades como elemento para tentar se autoconhecer, se tolher. É como dizer pra criança pequena que "A Cuca vem pegar", você tá botando aquele medinho na criança, mas quem é a Cuca? Você trabalha com o medo. Eu quis ir mais a fundo e tem muito mais espaço para você continuar contando essas histórias. A gente conta só um pouquinho de como os personagens surgiram, mas tinha muito mais coisa pra contar que não coube. Esse tipo de coisa, se formos evoluindo pra novas temporadas, teremos muitas histórias para contar.

Você vem do cinema. Como você avalia o poder das plataformas de streaming?

Foi uma transformação você ter essas opções com qualidade e conteúdo. Você poder fazer um projeto que não se limite a uma só plataforma, algo que você possa assistir no telefone, na televisão, no iPad, no computador, no Brasil, na Alemanha, na Rússia... São 190 países, é gigante. Abriu um leque, uma oportunidade muito grande pro público de conteúdo, de histórias, de séries, é um formato incrível. Tem gente que fala "é coisa para a televisão", mas não é. O produto que sai é de igual pra igual com cinema, tem uma qualidade de cinema tanto que várias pessoas acabam migrando pra essas plataformas que te dão várias liberdades e várias flexibilidades criativas que o cinema não dá tanto.

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