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Segurança Pública

Atuação nos morros deve ser discreta. Troca de tiros piora a situação

Muitos imaginam que o confronto aberto é a melhor estratégia, troca aberta de tiros com o oponente. Mas, ao contrário, só aumenta o problema. A atuação deve ser discreta, sutil, batendo uma vez só, e na cabeça

Publicado em 01 de Março de 2020 às 05:00

Públicado em 

01 mar 2020 às 05:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff Henrique Herkenhoff
Morro do Bonfim, em Vitória, onde houve confronto entre a PM e traficantes, na divisa com o Bairro da Penha Crédito: Arquivo AG

Depois de muitos conflitos entre criminosos rivais, a Sesp decidiu implementar uma “ocupação” do Complexo da Penha, um policiamento por saturação, como toda a população capixaba sabe, e se pergunta se será suficiente, se é a decisão acertada etc.

Não temos bola de cristal nem informações privilegiadas de inteligência, mas podemos traçar algumas ideias a partir de duas experiências anteriores: as UPPs, que começaram bem, mas deram errado e vêm sendo estudadas pela academia, e os Territórios de Paz, que deram certo pelos motivos errados e estão meio esquecidos. Temos também trabalhos de Bruno Paes Manso sobre o caráter cíclico da violência, bem como estudos de estratégia militar de contra insurgência perfeitamente aplicáveis ao caso.

Em primeiro lugar, quando a Sesp fala em ocupação “por tempo indeterminado”, devemos entender que serão necessários anos para que uma retomada da normalidade fique sedimentada e se torne irreversível. Ou seja, é muito tempo, mesmo, porque é preciso conter um ciclo retroalimentado e depois fazer com que ele saia completamente da representação mental, do imaginário, da memória das pessoas que habitam a região.

Outra lição aprendida é que não devemos nos iludir com o sucesso desse tipo de medida: como ela consome muitos recursos, não é uma solução que possa ser universalizada. É claro que todos gostaríamos de ver nossa vizinhança apinhada de policiais, mas isso só pode ser feito pontualmente, e os governantes devem resistir à tentação de assumir despesas além da capacidade dos cofres públicos.

Muitos estudos de estratégia, produzidos especialmente pelas forças armadas norte-americanas, deixam claro que o mais importante não é o volume das forças e das operações, mas a sua precisão e seletividade. Isso significa que, mais do que patrulhamento ostensivo, é preciso direcionar pessoal de inteligência e investigação criminal: não é o que a comunidade vê, mas o que ela não vê que faz toda a diferença.

Esses mesmos estudos demonstram, por outro lado, que ações sociais, mesmo que em volume relativamente pequeno, podem ajudar muito um trabalho policial bem feito, porém jamais compensariam uma atuação desastrada que, por exemplo, levasse à morte de inocentes.

Muitos imaginam que o confronto aberto é a melhor estratégia, troca aberta de tiros com o oponente, mas, ao contrário, o que os norte-americanos aprenderam a alto custo é que isso só aumenta o problema. A atuação deve ser discreta, sutil, batendo uma vez só, e na cabeça.

Henrique Herkenhoff

Henrique Herkenhoff Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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