No Sul do Espírito Santo, uma cidade de 29,2 mil habitantes que se desenvolveu ao redor de uma mineradora enfrenta a maior crise de sua história nos últimos quatro anos. Quando a Samarco interrompeu as atividades do Complexo de Ubu, em 2015, o município de Anchieta inteiro foi afetado e um clima de desânimo se instalou.
No último mês, uma onda de otimismo voltou a dominar a cidade, moradores e empresários. A Samarco – responsável, durante anos, pelo dinamismo econômico da região e pela formação de um grande arranjo produtivo que se desestabilizou após a tragédia em Mariana (MG) – anunciou a retomada no segundo semestre de 2020.
Sem o principal carro-chefe da economia, a cidade teve que se adaptar. No dia 5 de novembro de 2015, a barragem de Fundão, em Mariana (MG), se rompeu, deixando pelo menos 19 mortos. As licenças de operação para mineração foram suspensas e não havia mais matéria-prima para enviar a Anchieta por meio dos minerodutos.
O Complexo de Ubu continuou a funcionar por menos de um mês, período que durou o estoque, e depois parou, provocando demissões e rompimento de contratos. Naquele momento, a expectativa era de que a pausa da empresa, uma joint venture (empreendimento conjunto) entre a Vale e a BHP Billiton, fosse de apenas meses, o que não ocorreu.
Agora, diante da retomada da Samarco, Romário Chalmon, 42, que tem uma loja de material de construção no centro, conta que os planos de ampliar o negócio serão concretizado, após o longo período de muito trabalho para manter o estabelecimento viável.
"Com a parada da Samarco, o movimento caiu 35%. Mas, com a volta, a empresa deve contratar. Com isso, teremos mais pessoas comprando no comércio"
Os meses antes do início da operação já geram movimentação na empresa. Durval Vieira de Freitas, consultor empresarial no setor metalmecânico e coordenador do Fórum de Petróleo e Gás da Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes), explica que as atividades preliminares na planta industrial já devem mobilizar investimentos.
No próximo ano, a dona das usinas de pelotização começa a operar com 26% da sua capacidade, conforme antecipou com exclusividade A Gazeta há mais de um ano. A operação plena só deverá ser alcançada entre 2028 e 2029.
"Ela precisa colocar a planta em operação, fazer manutenção, melhorias operacionais e adaptações. Entrando em operação, toda uma rotina de transporte, manutenção, venda de materiais e serviços volta a ser criada pela empresa"
Ainda segundo Viera, nos próximos meses, cerca de 5 mil empregos devem ser gerados em toda a cidade. “Com a volta da indústria, 1,5 mil postos de trabalho estarão diretamente ligados. As contratações serão diretas e também nos prestadores de serviço.”
Injeção de ânimo
Logo que as operações da empresa cessaram, os funcionários entraram em férias coletivas e, depois, começaram os Planos de Demissão Voluntária (PDVs). Em 2015, antes da parada, a Samarco tinha cerca de 2,5 mil funcionários no Estado e em Minas Gerais, entre próprios e terceirizados. Hoje, não chega a 1,3 mil.
Olavo Muniz Marchezi, 34 anos, era técnico em manutenção da Samarco. Trabalhou por mais de dez anos na empresa. Depois de cinco meses do desastre, quando veio o primeiro PDV, ele e a família optaram pelo acordo. Com o irmão, decidiu montar uma empresa de produtos agropecuários na propriedade da família, que fica a um quilômetro do centro de Anchieta.
“A vida de quem trabalhava dentro ou fora do município mudou completamente depois que a Samarco parou. Mas acredito que, com a retomada dela, teremos mais movimento na loja”, revela.
Já Gabriel Vettoraci, 35 anos, era operador de equipamentos na Samarco. Pouco antes do rompimento da barragem, ele pediu demissão. “Para falar a verdade, estamos ansiosos pela volta da empresa não é de hoje. Vai melhorar para toda a cidade. Muita gente teve que sair da para trabalhar fora. Agora já tem muita gente voltando. A paralisação não afetou só município de Anchieta, mas todo o entorno dele”, lembra.
Entre as empresas que prestavam serviços à Samarco e foram atingidas em cheio pela suspensão das atividades está a do empresário José Costa, mais conhecido como Zé Pixinguinha. Quando a mineradora parou, o empreendedor, que prestava serviço de carga e transporte, teve que demitir mais de 250 funcionários. Em poucos meses, passou de 300 para apenas 38 colaboradores.
“O número de empregados já aumentou, porém ainda é bem menor do que em 2015. A Samarco é muito importante para o município, porque é a maior empresa de Anchieta. A retomada das operações vai trazer mais empregos, aumentar a arrecadação de impostos e o desenvolvimento da cidade. Hoje está todo mundo muito otimista com a volta”, conta.
APRENDIZADO
A cidade teve que buscar alternativas para a sobrevivência durante o período em que a Samarco cessou suas operações. A parada atingiu o Produto Interno Bruto (PIB) municipal, que caiu em mais de 73%, de 2015 para 2016. Nesse período, a cidade deixou de arrecadar cerca de R$ 17,25 milhões apenas em Imposto Sobre Serviço (ISS), e os gastos com investimentos passaram de R$ 46,5 milhões para R$ 21,2 milhões.
“Com a volta das operações vai ter muito serviço na cidade, não só dentro da Samarco, mas também no entorno, o que alavanca a atividade e a receita com impostos. Essa é uma grande oportunidade que começa a surgir. Aquele desânimo e tristeza da paralisação deu lugar à alegria e expectativa positiva da retomada”, afirma a secretária de Integração, Desenvolvimento e Gestão de Recursos de Anchieta, Paula Louzada Martins.
Efeito estadual
O município não foi o único impactado pela parada operacional da Samarco. Toda a Região Sul sofreu diretamente com a situação, o que resultou em uma queda do PIB estadual. A expectativa é que, no primeiro ano de retomada da companhia, o PIB capixaba cresça entre 1% e 1,5%, cerca de R$ 50 milhões.
“A Samarco, quando estava em operação, representava cerca de 5% do PIB capixaba. Sua paralisação agravou o desequilíbrio do desenvolvimento no Estado. O Sul, que vinha crescendo com a operação da empresa, sofreu muito nos últimos anos”, expõe o secretário de Estado de Desenvolvimento, Marcos Kneip Navarro.
Comerciantes se reinventaram
Pelas ruas da cidade de Anchieta, no Litoral Sul capixaba, em 2015 e 2016, era comum ver placas espalhadas por toda a cidade com as frases “vende-se” ou “aluga-se”. Essa realidade mudou um pouco de lá para cá. Apesar de ainda existirem essas ofertas, a frequência é bem menor. Mesmo não tendo o mesmo movimento de quatro anos atrás, o comércio foi, timidamente, retomando o fôlego.
O farmacêutico Idalgo Gaspar, 33 anos, foi um dos comerciantes da cidade que decidiram arregaçar as mangas e ir à luta. Pouco antes do rompimento da barragem de Fundão em Mariana (MG), ele havia comprado uma farmácia no centro de Anchieta. Vindo de Muqui, não esperava o que estava por vir. Nos primeiros meses após a paralisação da Samarco, o movimento do comércio caiu em 70%.
"Foi muito desanimador. Mas fui tendo algumas ideias para tentar dar um jeito na situação. Tive que me transformar em um empreendedor. Comecei a pensar em ações para fazer o movimento voltar. Melhorei a organização da loja, a distribuição dos produtos e a estrutura da farmácia"
A mudança no jeito de pensar o negócio deu tão certo que ele conseguiu recuperar o movimento e até ampliar a farmácia. “Quando a empresa retornar vai atrair mais gente para a cidade e também gerar mais movimento para nós”, espera Idalgo.