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Estudo inédito revela quem são e o que enfrentam as mulheres no ES

Estudo inédito revela quem são e o que enfrentam as mulheres no ES

Atlas das Mulheres do Espírito Santo reúne dados sob diferentes perspectivas, tais como religião, política, trabalho, maternidade e orientação sexual, que podem subsidiar políticas públicas mais efetivas para a população feminina

Publicado em 25 de março de 2026 às 18:17

Mosaico de mulheres representadas em pesquisa inédita no Espírito Santo
O Atlas das Mulheres do Espírito Santo procura retratar a diversidade feminina e suas demandas Crédito: Atlas das Mulheres do ES

Após dois anos de pesquisas, o governo do Estado lança, nesta quinta-feira (26), o Atlas das Mulheres do Espírito Santo — um estudo inédito que reúne dados sob diferentes perspectivas, tais como religião, política, trabalho, maternidade e orientação sexual. Os indicadores podem subsidiar políticas públicas mais efetivas ao considerar as especificidades e experiências vivenciadas pela população feminina. 

Para chegar a esse resultado, além de contar com dados do Censo 2022 e anuários de segurança, a Secretaria Estadual das Mulheres (SESM) promoveu pesquisas de campo, com rodas de conversa e escutas qualitativas, possibilitando catalogar 19 segmentos sociais, divididos em 31 tópicos, que abarcam o público feminino no Espírito Santo.  São eles:

  1. Mulheres com deficiência: Aborda as barreiras estruturais, atitudinais e o capacitismo enfrentado por mulheres com deficiências físicas, visuais, intelectuais, auditivas e Transtorno do Espectro Autista (TEA).
  2. Mulheres com maternidade atípica: Focado em mães que cuidam de filhos com deficiência e os desafios específicos de equilíbrio entre cuidado e vida diária.
  3. Mulheres em situação de rua: Analisa a vulnerabilidade extrema e a violação de direitos de mulheres que utilizam espaços públicos como moradia.
  4. Mulheres empreendedoras criativas e solidárias: Mulheres que atuam na economia solidária e criativa pautadas pela colaboração e sustentabilidade.
  5. Mulheres Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais - LBTI+: Foca na diversidade de orientações sexuais e identidades de gênero, e no enfrentamento à LBTIfobia.
  6. Mulheres nas ciências: Trata da participação, desafios e produção feminina em diversas áreas do conhecimento científico.
  7. Mulheres na cultura e nas artes: Expressa a produção cultural e artística feminina no Estado em diversas linguagens.
  8. Mulheres na fé e nas religiões: Compreende as vivências espirituais e religiosas, com abordagens sobre benzedeiras, católicas, espíritas, evangélicas e adeptas de religiões de matriz africana.
  9. Mulheres na política: Focado em mulheres que ocupam ou ocuparam cargos eletivos nos poderes Legislativo e Executivo.
  10. Mulheres na rede de enfrentamento à violência doméstica: Composto por profissionais que atuam no acolhimento, prevenção e proteção de mulheres em situação de violência.
  11. Mulheres nas comunidades tradicionais: Aborda o pertencimento étnico-racial de mulheres ciganas, indígenas, pomeranas e quilombolas.
  12. Mulheres negras: Reúne mulheres que se autodeclaram pretas e pardas, discutindo o cruzamento de sistemas de classe, raça e gênero.
  13. Mulheres do campo e da pesca: Engloba agricultoras familiares, camponesas, assentadas, acampadas, empreendedoras rurais e pescadoras/marisqueiras.
  14. Mulheres no esporte: Abrange a participação feminina em esportes competitivos, incluindo paratletas.
  15. Mulheres nos ciclos de vida: Segmento dedicado às vivências específicas de mulheres jovens e mulheres idosas.
  16. Mulheres nos saberes da gestação e do nascimento: Reúne o conhecimento de parteiras tradicionais e doulas no apoio ao ciclo gravídico-puerperal.
  17. Mulheres periféricas: Mulheres que se identificam como moradoras de favelas, morros e comunidades urbanas.
  18. Mulheres em privação de liberdade: Evidencia a realidade de mulheres encarceradas em unidades prisionais do Estado.
  19. Mulheres trabalhadoras domésticas: Focado em mulheres que atuam remuneradamente na manutenção de residências.
Atlas das Mulheres do ES
Atlas das Mulheres do ES Crédito: Fernando Madeira

Nesses encontros, realizados na Grande Vitória e também em municípios do interior, as mais de 1,4 mil participantes responderam à pergunta "o que é ser mulher" considerando sua experiência, isto é, as particularidades que constituem sua singularidade. Desse modo, a pergunta-base vinha sempre acompanhada de uma característica do universo pesquisado: "o que é ser mulher com deficiência?", "o que é ser mulher periférica?", "o que é ser mulher na ciência?", "o que é ser mulher com maternidade atípica?" e, assim, sucessivamente. 

"Existem diferentes formas de ser mulher. As mulheres são atravessadas diferentemente por sistemas sociais ou de opressão. Não dá para pensar em todas da mesma forma", ressalta Jaqueline Sanz, coordenadora do projeto, citando, como exemplo, que as suas demandas, de mulher branca de classe média, não são iguais às de uma mulher negra da periferia.  "Não há uma mulher universal. Há uma diversidade que precisa ser conhecida", reforça.

Nesse questionamento, algumas palavras foram citadas mais vezes. Entre as positivas, realização, orgulho, esperança, independência; de negativas, exaustão, sobrecarga, ansiedade, solidão, culpa e medo. 

Nuvem de palavras formada para representar o que as entrevistadas pensam sobre ser mulher
Nuvem de palavras formada para representar o que as entrevistadas pensam sobre ser mulher Crédito: Atlas das Mulheres do ES

Nas rodas de conversa, foi possível também extrair um pouco das particularidades dos grupos formados: 66% eram negras e a maioria delas está representada entre trabalhadoras domésticas, quilombolas, pessoas em situação de rua e periféricas; e 26,8% eram brancas, cujos segmentos predominantes foram pomeranas, ciências e política. Das entrevistadas, 66% realizam atividades de cuidados além do trabalho remunerado e, de cada 10 mulheres, sete disseram que se sentem em dupla ou tripla jornada. 

Nesse contexto, as principais necessidades dos diferentes perfis são apresentadas no atlas como ações prioritárias, que poderão orientar políticas voltadas à população feminina. Há demandas que perpassam a maioria delas, como a economia do cuidado e apoio à maternidade, convocando o poder público a assumir a responsabilidade pelo cuidado e aliviar a sobrecarga das mulheres. Entre os exemplos de estratégias estão a ampliação de creches, estrutura de apoio para atletas e cientistas e reconhecimento do cuidado na remição de pena.

Há outras demandas que indicam a falta de estrutura e mobilidade para garantir direitos básicos, como a necessidade de adaptação arquitetônica de espaços e a fiscalização de calçadas para mulheres com deficiências e idosas, ou de melhoria de transporte escolar e estradas para atender comunidades indígenas e assentamentos. São inúmeros apontamentos nos segmentos pesquisados que mostram o caminho para o Espírito Santo avançar em políticas para as mulheres e assegurar seus direitos. 

Como o atlas foi construído

Jaqueline Sanz conta que a ideia de desenvolver o atlas surgiu quando a Secretaria da Mulher começou a ser estruturada. Naquele momento, em 2023, constataram a necessidade de dispor de dados e informações além do que é sistematicamente coletado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Foi, então, estabelecida uma parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação no Espírito Santo (Fapes) para realizar os estudos e transformar o projeto no atlas. "A gente tinha a necessidade de dados mais qualitativos e que trouxessem a voz dessas diferentes mulheres", frisa Jaqueline. 

Além da Fapes, a coordenadora do projeto ressalta o trabalho das pesquisadoras — algumas delas com o mesmo perfil dos segmentos estudados, como uma mulher trans e uma mãe atípica — para a consistência do estudo e o apoio dos movimentos sociais para mobilizar o público feminino em diferentes áreas. 

Para Jaqueline, o grande desafio agora é que o quadro de ações prioritárias, descrito no atlas, seja considerado pelo poder público para se pensar na intersetorialidade de políticas para as mulheres. Jaqueline pontua também que o documento não é o fim de um processo, mas revela indicadores para o aprofundamento de estudos e ações. 

"É uma pesquisa qualitativa, mas cada um dos segmentos merece, agora, ser estudado em profundidade. Com o atlas, apenas mostramos por onde começar a pensar nas políticas para as mulheres", conclui. 

SERVIÇO

Lançamento do Atlas das Mulheres do Espírito Santo

  • Data: Nesta quinta-feira (26), a partir de 9 horas
  • Local: Hotel Comfort Suites, na Avenida Saturnino de Brito, 1327 - Praia do Canto, Vitória

Programação

  • 9h - Credenciamento
  • 9h20 - Apresentação Cultural
  • 10h10 - Atlas das Mulheres do Espírito Santo: um mosaico de dados, vozes e vivências das múltiplas formas de ser mulher no Espírito Santo - Jaqueline Sanz, coordenadora do projeto
  • 10h40 - A interseccionalidade como eixo central do enfrentamento à violência contra a mulher - Fayda Belo, advogada especialista em crimes de gênero e membro do Fórum Permanente de Enfrentamento à Violência contra a Mulher do CNJ
  • 11h10 - Atlas das Mulheres: um retrato inédito das mulheres do Espírito Santo – ciência, escuta e transformação - Jacqueline Moraes, Secretária de Estado das Mulheres
  • 11h30 - Atlas das Mulheres do Espírito Santo: exemplo metodológico para pensar a pluralidade das mulheres em seus territórios - Márcia Lopes, Ministra de Estado das Mulheres
  • 11h45 - Encerramento

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