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Publicado em 25 de março de 2026 às 18:17
Após dois anos de pesquisas, o governo do Estado lança, nesta quinta-feira (26), o Atlas das Mulheres do Espírito Santo — um estudo inédito que reúne dados sob diferentes perspectivas, tais como religião, política, trabalho, maternidade e orientação sexual. Os indicadores podem subsidiar políticas públicas mais efetivas ao considerar as especificidades e experiências vivenciadas pela população feminina. >
Para chegar a esse resultado, além de contar com dados do Censo 2022 e anuários de segurança, a Secretaria Estadual das Mulheres (SESM) promoveu pesquisas de campo, com rodas de conversa e escutas qualitativas, possibilitando catalogar 19 segmentos sociais, divididos em 31 tópicos, que abarcam o público feminino no Espírito Santo. São eles:>
Nesses encontros, realizados na Grande Vitória e também em municípios do interior, as mais de 1,4 mil participantes responderam à pergunta "o que é ser mulher" considerando sua experiência, isto é, as particularidades que constituem sua singularidade. Desse modo, a pergunta-base vinha sempre acompanhada de uma característica do universo pesquisado: "o que é ser mulher com deficiência?", "o que é ser mulher periférica?", "o que é ser mulher na ciência?", "o que é ser mulher com maternidade atípica?" e, assim, sucessivamente. >
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"Existem diferentes formas de ser mulher. As mulheres são atravessadas diferentemente por sistemas sociais ou de opressão. Não dá para pensar em todas da mesma forma", ressalta Jaqueline Sanz, coordenadora do projeto, citando, como exemplo, que as suas demandas, de mulher branca de classe média, não são iguais às de uma mulher negra da periferia. "Não há uma mulher universal. Há uma diversidade que precisa ser conhecida", reforça.>
Nesse questionamento, algumas palavras foram citadas mais vezes. Entre as positivas, realização, orgulho, esperança, independência; de negativas, exaustão, sobrecarga, ansiedade, solidão, culpa e medo. >
Nas rodas de conversa, foi possível também extrair um pouco das particularidades dos grupos formados: 66% eram negras e a maioria delas está representada entre trabalhadoras domésticas, quilombolas, pessoas em situação de rua e periféricas; e 26,8% eram brancas, cujos segmentos predominantes foram pomeranas, ciências e política. Das entrevistadas, 66% realizam atividades de cuidados além do trabalho remunerado e, de cada 10 mulheres, sete disseram que se sentem em dupla ou tripla jornada. >
Nesse contexto, as principais necessidades dos diferentes perfis são apresentadas no atlas como ações prioritárias, que poderão orientar políticas voltadas à população feminina. Há demandas que perpassam a maioria delas, como a economia do cuidado e apoio à maternidade, convocando o poder público a assumir a responsabilidade pelo cuidado e aliviar a sobrecarga das mulheres. Entre os exemplos de estratégias estão a ampliação de creches, estrutura de apoio para atletas e cientistas e reconhecimento do cuidado na remição de pena.>
Há outras demandas que indicam a falta de estrutura e mobilidade para garantir direitos básicos, como a necessidade de adaptação arquitetônica de espaços e a fiscalização de calçadas para mulheres com deficiências e idosas, ou de melhoria de transporte escolar e estradas para atender comunidades indígenas e assentamentos. São inúmeros apontamentos nos segmentos pesquisados que mostram o caminho para o Espírito Santo avançar em políticas para as mulheres e assegurar seus direitos. >
Jaqueline Sanz conta que a ideia de desenvolver o atlas surgiu quando a Secretaria da Mulher começou a ser estruturada. Naquele momento, em 2023, constataram a necessidade de dispor de dados e informações além do que é sistematicamente coletado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). >
Foi, então, estabelecida uma parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação no Espírito Santo (Fapes) para realizar os estudos e transformar o projeto no atlas. "A gente tinha a necessidade de dados mais qualitativos e que trouxessem a voz dessas diferentes mulheres", frisa Jaqueline. >
Além da Fapes, a coordenadora do projeto ressalta o trabalho das pesquisadoras — algumas delas com o mesmo perfil dos segmentos estudados, como uma mulher trans e uma mãe atípica — para a consistência do estudo e o apoio dos movimentos sociais para mobilizar o público feminino em diferentes áreas. >
Para Jaqueline, o grande desafio agora é que o quadro de ações prioritárias, descrito no atlas, seja considerado pelo poder público para se pensar na intersetorialidade de políticas para as mulheres. Jaqueline pontua também que o documento não é o fim de um processo, mas revela indicadores para o aprofundamento de estudos e ações. >
"É uma pesquisa qualitativa, mas cada um dos segmentos merece, agora, ser estudado em profundidade. Com o atlas, apenas mostramos por onde começar a pensar nas políticas para as mulheres", conclui. >
SERVIÇO>
Lançamento do Atlas das Mulheres do Espírito Santo>
Programação>
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