De 2012 a 2017, Theodorico Ferraço (DEM) imperou na Assembleia Legislativa. O deputado de Cachoeiro de Itapemirim foi presidente da Casa por três mandatos consecutivos. Em janeiro de 2017, numa articulação chancelada pelo então governador Paulo Hartung (MDB), o mais idoso deputado estadual, hoje prestes a completar 82 anos, foi destronado pelo então mais jovem colega de plenário, Erick Musso (Republicanos), hoje com 32 anos. Foi o início do reinado de Erick. Emulando Ferraço, o atual presidente reelegeu-se em fevereiro deste ano e, ao que tudo indica, pretende emendar um 3º mandato na presidência. Para isso, pode ganhar um aliado de onde menos se esperava: o próprio Thedorico Ferraço.
Para garantir sua permanência no centro da Mesa Diretora da Assembleia, Erick Musso prepara uma cartada que, de modo até surpreendente, conta com o apoio declarado de Ferraço. No último dia 6, o presidente recolheu as assinaturas de 24 pares (incluindo seu antecessor) para apresentar uma Proposta de Emenda Constitucional. Ainda não protocolada, a PEC prevê que a próxima eleição da Mesa, marcada para 1º de fevereiro de 2021, não terá mais data fixa. Na prática, se isso passar, Erick poderá antecipar para meados de 2020, antes das eleições municipais que começarão em agosto, a próxima eleição interna, na qual os 30 eleitores serão os atuais deputados, sobre os quais o atual presidente possui notória influência.
“A ideia não é ruim não. É boa!”, opina Ferraço. “O projeto permite que a Assembleia, por decisão da maioria absoluta, possa escolher uma nova data. Pode ser na véspera, pode ser três dias antes... Dá à Assembleia flexibilidade. Os deputados terão a consciência tranquila, para, no momento oportuno, de união geral, escolherem sem problema nenhum.”
A declaração surpreende porque, com a PEC aprovada, Ferraço verá ainda mais reduzidas suas chances de retornar ao trono – um desejo, sabidamente, acalentado por ele até a primeira reeleição de Erick, em 1º de fevereiro deste ano. É uma prova de que Ferraço claramente virou a chave. Está em outra. Em outra rota de voo. Na Assembleia, decretou para si praticamente um “mandato sabático”, figurativo. Em setembro, chegou a tirar 40 dias de licença médica por um problema… na asa de águia? Não, no pé. Voltou no fim de outubro. Vai ao plenário, bate ponto, mas tem participação quase nula nos debates. Jamais sobe à tribuna para falar, a não ser sobre um assunto: a crise política que toma conta de Itapemirim.
E é ali, no Litoral Sul, que hoje se concentram as atenções e preocupações políticas da velha águia de Cachoeiro. Ali estão os royalties de petróleo e as cidades com arrecadação per capita muito acima da média. A esposa de Ferraço e ex-prefeita de Itapemirim, Norma Ayub (DEM), será candidata a prefeita de Marataízes, cidade que em breve ultrapassará Presidente Kennedy como campeã em receitas do petróleo. Ajudar Norma nessa empresa é a prioridade do marido. Mas ele não comenta isso: "É uma escolha pessoal dela".
Sem querer entrar em atritos hoje – a não ser em Itapemirim e adjacências –, o deputado afirma que sua relação atualmente é boa com Renato Casagrande (PSB). E não só com o governador. “Minha relação é boa com todos. Continuo ‘manso como uma pomba, e prudente como uma serpente’”, cita ele, evocando a "Bíblia por Ferração".
Com o foco de sua visão de águia tão deslocado da Assembleia para o Litoral Sul, será que ainda poderemos ver Ferraço figurar nas urnas nas próximas eleições municipais? Ao seu estilo, enviesado, a ave de rapina do Sul semeia a dúvida para retornar ao jogo: “No momento oportuno, nós saberemos o caminho a percorrer sob a inspiração de Deus e o grande amor que existe entre mim e Cachoeiro.”
MEIO SÉCULO DE DISTÂNCIA
Ex-presidente da Assembleia, Ferraço nasceu em 1937, ano que marca, por exemplo, o início do Estado Novo, ditadura instaurada por Vargas. Erick nasceu em 1987, ano em que o Brasil acabara de adentrar o período democrático após a ditadura militar. Em 1937, o Japão invadiu a China, iniciando a Segunda Guerra Sino-Japonesa. Em 1987, Spielberg levou às telas “O Império do Sol”, filme que retrata esse mesmo acontecimento histórico, durante a Segunda Guerra Mundial.
ENCONTRO GERACIONAL
Uma lição Erick parece ter assimilado de Theodorico Ferraço. A PEC para deixar em aberto a data da eleição da Mesa Diretora tem um forte aroma de casuísmo. De 2012 a 2016, uma das marcas da gestão de Ferraço na Assembleia foi justamente a apresentação ou patrocínio de propostas de emenda como essa, indisfarçavelmente em benefício próprio, de modo a proporcionar a própria permanência no cargo de presidente. Senão vejamos:
PEC-MAN
Em março de 2012, com a nomeação do então chefe da Assembleia, Rodrigo Chamoun, para o Tribunal de Contas do Estado, Theodorico Ferraço foi eleito presidente para um mandato-tampão, até janeiro do ano seguinte. Por meio de uma PEC, ganhou dos colegas a autorização para ter mais um mandato por conta da circunstância "atípica" pela qual chegou ao comando da Casa. Em 2014, uma nova PEC foi aprovada para autorizar eleições em "biênio subsequente da legislatura seguinte", o que até então era vedado pela Constituição Estadual. Com o caminho desbloqueado, Ferraço reelegeu-se em 2015 para mais um biênio. Não perca as contas.
FIM DA LINHA
Em 2016, nova emenda autorizou reeleições de presidente de um biênio para o outro dentro da mesma legislatura, o que também não era permitido. Dessa vez, porém, Theodorico não chegou a se valer da PEC feita sob medida para o beneficiar de novo. Em janeiro de 2017, Erick Musso conseguiu constituir maioria em torno do seu nome. Sem apoio do então governador Paulo Hartung, Ferraço abortou a candidatura para um quarto mandato seguido na presidência do Legislativo.
NORMA E LAURIETE
Ex-mulher do ex-senador Magno Malta, presidente estadual do PL, a deputada federal Lauriete já pediu à Justiça Eleitoral permissão para sair do partido sem perder o mandato na Câmara. Cogita migrar para o DEM, que, no Espírito Santo, tem em Norma Ayub a presidente de direito, mas Theodorico Ferraço como o "presidente de fato". Questionado pela coluna, ele diz que as duas deputadas são muito amigas, o que facilita a possível filiação de Lauriete. "São amigas permanentes. Então esse convite realmente foi feito à Lauriete pela Norma. Mas ela só virá para o DEM se o partido a que ela pertence der a ela a solicitação que ela fez ao TSE. Se ela conseguir a liberação, será muito bem-vinda. Mas esse é um problema dela com a Norma. Não é comigo."