Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, 28 de junho é mais do que celebrações. Nessa data, a comunidade relembra suas conquistas, como resultado de anos de luta. Ao mesmo tempo, traz luz para todas as dificuldades e mazelas que quem vive sob o guarda-chuva dessas letras difíceis de serem decoradas ainda enfrenta.
Seja no mercado de trabalho ou no convívio em sociedade, ainda são inúmeros os preconceitos que se colocam como obstáculos para quem se identifica publicamente como LGBT. Desafios vividos desde cedo por Ana Julya Castro, que é uma mulher trans, e Cabeluxo Ferreira, que se identifica como pessoa não-binária.
Em meio às dificuldades no mercado de trabalho e com o acolhimento de grupos de apoio, encontraram no empreendedorismo um caminho para a superação de preconceitos, a inclusão e a busca pela independência financeira.
Natural de Conceição do Castelo, no Sul do Espírito Santo, Ana Julya, de 28 anos, deu os primeiros passos no mundo do empreendedorismo ainda aos 11 anos, quando começou a vender doces junto da mãe para ajudar a família e realizar o sonho de comprar uma câmera.
Anos mais tarde, ao concluir o ensino médio, deparou-se com a dificuldade de conseguir emprego onde mora. Buscou, então, um curso para se tornar maquiadora profissional. Mas a falta de clientes provocada pela pandemia da Covid-19 a fez voltar à estaca zero.
A maquiagem foi o meu refúgio e a minha emancipação. O próprio nome da minha empresa nasce da minha história de vida. Passei a vida inteira tendo de lidar com rótulos impostos pela sociedade e decidi que o meu trabalho seria justamente o oposto disso.
Ana Julya Castro Dona da Beleza sem Rótulos
Maquiadora profissional, influenciadora e dona do próprio negócio, Ana Julya destaca que, para transformar a iniciativa em realidade, foi fundamental o apoio de projetos de inclusão e acolhimento LGBTQIAPN+, como iniciativas do Sebrae-ES e da associação TODXS.
“Todo investimento gera um retorno. Pessoas trans e LGBTs também fazem parte do movimento econômico, como qualquer outra pessoa, e merecem ter espaço”, afirma.
A dificuldade enfrentada por Ana Julya é comum à maior parte dos integrantes do grupo LGBTQIAPN+. Segundo um estudo realizado pelo Banco Mundial sobre impactos da exclusão baseada em orientação sexual e expressão de gênero no mercado de trabalho brasileiro, de metade a dois terços dos entrevistados que se identificam como LGBTs relatam exposição frequente a comentários ou comportamentos negativos por parte de outras pessoas.
Isso se dá mesmo em um contexto em que, ainda segundo o estudo, a população LGBT apresenta índices maiores de escolaridade do que a média brasileira, de forma geral.
O estudo conclui, em seu relatório, que a exclusão de pessoas LGBTQIAPN+ diminui, sistematicamente, as oportunidades de emprego, renda e participação formal no mercado de trabalho.
Em meio a esse contexto, Cabeluxo Ferreira tem sua vida entrelaçada por projetos e iniciativas de acolhimento. Desde os 12 anos é frequentador da Associação Gold (Grupo Orgulho, Liberdade e Dignidade), em Vitória, onde se qualificou como artista e pôde desenvolver sua carreira como empreendedor.
"O contato com a associação representou um marco transformador não só na minha trajetória profissional, mas também em minha vida como um todo", conta Cabeluxo.
Na Gold, Cabeluxo afirma ter conseguido se qualificar em marketing, comércio eletrônico e informática básica, o que contribuiu para a profissionalização do seu trabalho. Hoje presta serviços para prefeituras e governo do Estado, graças ao acolhimento ofertado pela associação.
Dificuldades para o acolhimento
Apesar das conquistas recentes, como as de Ana Julya e Cabeluxo, as dificuldades para o acolhimento e a inclusão profissional da população LGBT ainda são inúmeras. Segundo a coordenadora da Associação Gold, Deborah Sabará, há problemas relacionados, principalmente, à falta de verba para manter projetos e iniciativas voltadas à comunidade.
Fundada em 2005, em Colatina, a associação se instalou em Vitória com o intuito de atender a população LGBTQIAPN+ em nível estadual. A principal fonte de verba para a manutenção da organização vem do financiamento por meio de editais e doações.
Porém, segundo Deborah, os recursos ainda não são suficientes para arcar com as despesas e garantir um espaço para acolher fisicamente pessoas em situação de vulnerabilidade social.
Além disso, a coordenadora afirma que aqueles que conseguem chegar até a Gold enfrentam dificuldades para permanecer nos projetos ofertados. Isso porque muitos não têm condições financeiras para se locomover até o espaço.
“A maior dificuldade da pessoa é voltar aqui. Muitas vezes não voltam por causa da passagem de ônibus ou porque não há atendimento psicossocial aos fins de semana e durante a semana, já que a maioria trabalha ou está em situação de vulnerabilidade. Por isso, seria importante termos mais apoio do poder público para dar conta de cobrir essas lacunas”, relata Deborah.