Quem está em busca de sair do vermelho tem encontrado condições especiais lançadas nos últimos anos para tirar o brasileiro do endividamento, seja por perdão de dívidas ou crédito mais barato.
De um lado, a nova fase do programa Desenrola Brasil foca na renegociação direta com descontos que podem chegar a 90% e uso do FGTS para abater a dívida; do outro, o consignado para trabalhadores do setor privado (CLT), programa lançado no ano passado é uma ferramenta para trocar dívidas caras, como o cartão de crédito, por taxas de juros reduzidas e desconto em folha.
Mas qual dessas saídas realmente protege o patrimônio da família a longo prazo? A escolha passa pela comparação do custo efetivo total, prazo e a parcela, segundo especialistas.
“Parcela menor pode enganar quando vem acompanhada de prazo muito longo e custo total maior. O cuidado principal é não confundir renegociação com renda nova. O objetivo deve ser reduzir o tamanho da dívida, trocar juros altos por juros menores e assumir uma parcela que caiba no orçamento”, orienta o economista Eduardo Araújo.
O consumidor também deve ficar de olho nos juros. No Novo Desenrola, o governo federal limitou os juros a 1,99% ao mês, sendo que alguns bancos oferecem condições ainda mais reduzidas.
No caso do consignado CLT, há uma variação considerável dos juros nas propostas de contratação de empréstimos pela carteira de trabalho. Em simulação realizada por A Gazeta, os juros para pegar um empréstimo de R$ 6 mil variaram de 2,02% a 4,98%, sendo que quanto maior a taxa de juros menor era o valor líquido do empréstimo que o trabalhador poderia fazer pela simulação.
Dados do Banco Central mostram que, no período de 20 a 27 de abril, os juros cobrados pelas instituições financeiras na modalidade crédito consignado CLT variavam de 1,55% a 6,96% ao mês.
Já o Procon de São Paulo fez um levantamento recente que apontou variação de mais de 100% na taxa mensal de juros dos contratos do Programa de Crédito do Trabalhador. Entre as seis instituições envolvidas na iniciativa, para um prazo de 12 meses, a menor taxa foi de 3,19% ao mês, enquanto a maior foi de 6,61%.
O crédito consignado é uma modalidade em que as parcelas são descontadas diretamente do salário do trabalhador, o que reduz o risco para os bancos.
Já o Desenrola 2.0 oferece entre as condições descontos de até 90% sobre as dívidas antigas de cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal, prazo de até quatro anos para pagar e juros reduzidos. O programa tem previsão de duração de 90 dias e é voltado para pessoas com renda mensal de até cinco salários mínimos, o equivalente hoje a R$ 8.105.
Os dois casos envolvem o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Enquanto no Novo Desenrola parte da dívida pode ser abatida com dinheiro do trabalhador no fundo, no consignado CLT, o FGTS dos trabalhadores com carteira assinada pode funcionar como garantia do empréstimo.
Entenda os cuidados
Para o economista Eduardo Araújo, o principal problema com os programas de renegociação de dívida é entrar neles sem estratégia.
“O consumidor vê desconto, prazo maior e parcela menor, mas pode não perceber o essencial: ele está trocando uma dívida antiga por uma nova obrigação. No Desenrola, a lógica é renegociar primeiro a dívida vencida, com desconto que pode variar de 30% a 90%, conforme o tipo da dívida e o tempo de atraso. Depois, o saldo que sobra pode ser pago à vista ou financiado em um novo contrato, com juros limitados a 1,99% ao mês”, lembra.
Araújo explica que o desconto existe porque, para o banco, uma dívida vencida há muito tempo já perdeu valor econômico. Sendo assim, quanto maior o atraso, menor a chance de recuperação integral e maior tende a ser o espaço para abatimento.
“Não é generosidade. É cálculo de recuperação de crédito. Uma dívida de R$ 10 mil que cai para R$ 4 mil já teve sua principal vantagem no desconto. A pergunta seguinte é outra: qual é a forma mais barata e segura de pagar esses R$ 4 mil?”, questiona.
É aí que entra a comparação com outras linhas, como o Crédito do Trabalhador. “Se o Desenrola oferece financiamento a 1,99% ao mês, essa deve ser a referência. Uma taxa de 2,02% ao mês é praticamente equivalente; uma taxa de 4,98% ao mês já muda completamente a conta. Vale a pena trocar uma dívida renegociada por um crédito novo mais caro? Em geral, não. O consumidor precisa comparar o custo efetivo total, o prazo e a parcela. Parcela menor pode enganar quando vem acompanhada de prazo muito longo e custo total maior”, orienta.
Para ele, o cuidado principal é não confundir renegociação com renda nova. O objetivo deve ser reduzir o tamanho da dívida, trocar juros altos por juros menores e assumir uma parcela que caiba no orçamento.
Se a pessoa renegocia, toma outro empréstimo e continua usando cartão ou cheque especial para fechar o mês, apenas mudou o nome do problema.