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Surto de Ebola: há riscos para o Brasil? Especialistas respondem

A OMS não recomenda fechamento de fronteiras, restrições de viagens ou triagens especiais em aeroportos fora das áreas afetadas, porque não há evidências de que essas medidas sejam necessárias

Publicado em 26 de Maio de 2026 às 08:00

Guilherme Sillva

Publicado em 

26 mai 2026 às 08:00
Ebola na África
O surto de Ebola que atinge a República Democrática do Congo e Uganda shutterstock

No último domingo (17), a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII) para o surto de Ebola que atinge a República Democrática do Congo e Uganda. A classificação é utilizada pela OMS em eventos com potencial risco internacional e que exigem coordenação global de resposta.


Diferentemente da maioria dos surtos anteriores, o atual cenário é causado pelo vírus Bundibugyo, uma espécie do vírus Ebola para a qual ainda não existem vacinas ou tratamentos específicos aprovados, o que preocupa especialistas e autoridades de saúde sobre o avanço da transmissão.


Na última década, a espécie Zaire ebolavirus foi alvo de importantes avanços científicos, com desenvolvimento de vacinas e anticorpos específicos. Porém, o atual surto envolve outra espécie viral: o vírus Bundibugyo, identificado pela primeira vez em Uganda, em 2007.


Segundo especialistas, as diferenças genéticas entre as espécies podem reduzir a proteção cruzada dos imunizantes já disponíveis. Atualmente, não existem vacinas nem terapias específicas aprovadas para essa espécie viral.


O diretor-geral da OMS (Organização Mundial da Saúde), Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou nesta segunda-feira (25) que o surto de Ebola na República Democrática do Congo e em Uganda está se alastrando mais rapidamente do que a capacidade de resposta, elevando o número de mortes suspeitas para 220.


Em uma reunião online da União Africana sobre o surto, Ghebreyesus afirmou que a demora na detecção dos casos de ebola significa que os profissionais de saúde estão agora "correndo atrás do prejuízo" e que a epidemia provavelmente piorará antes de melhorar.


Os sinais da doença

O Ebola é uma doença infecciosa grave causada por um vírus de alta letalidade e potencial de disseminação em surtos. Identificada pela primeira vez em 1976, na região do rio Ebola, na atual República Democrática do Congo. 


A infectologista Luana Araújo, da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), explica que o vírus age no corpo através do ataque direto principalmente aos vasos sanguíneos, o que leva a hemorragias. "Podem ser percebidas de uma maneira mais discreta inicialmente, mas que podem evoluir para hemorragias maciças, principalmente no sistema gastrointestinal. Também há envolvimento cardíaco, renal, pulmonar, neurológico e hepático".


A doença se manifesta inicialmente como um conjunto de sinais e sintomas inespecífico, como febre, dor de cabeça, dor no corpo, dor de garganta, cansaço intenso. "O problema é que ela progride nos seus casos graves e, a depender do ebola vírus, envolvem vômitos, diarreia, dor abdominal, falta de fome, causando comprometimento de função renal, função hepática", diz  Luana Araújo.


A infectologista Ana Carolina D'ettorres, da Unimed Vitória, diz que período de incubação (período em que se está infectado, porém ainda não manifesta sintomas) varia de 2 a 21 dias. "Os primeiros sintomas são inespecíficos, como febre alta, cefaleia intensa, dores musculares e articulares, fraqueza. Com a progressão, surgem náuseas, vômitos, diarreia, dor abdominal e, nos casos mais graves, sangramentos. O quadro pode evoluir rapidamente para falência de múltiplos órgãos".


O vírus entra pelas mucosas ou por feridas na pele e tem uma alta capacidade de se replicar e desativar as defesas imunológicas iniciais do organismo. "Ele infecta células do sistema imune, se dissemina pelo sangue e desencadeia uma tempestade inflamatória sistêmica. Isso leva a disfunção vascular, aumento da permeabilidade dos vasos e, nos casos mais graves, coagulopatia e hemorragia. É essa combinação que explica as altas taxas de letalidade", diz a médica.

A infectologista explica que a contrário da doença pelo vírus Ebola cepa Zaire, não existe vacina licenciada nem terapêutica específica contra o Bundibugyo, embora o suporte clínico precoce seja fundamental e salve vidas. "Esse é justamente um dos fatores que tornaram o surto atual tão preocupante. A OMS declarou a emergência internacional motivada, entre outros fatores, pelo elevado número de casos e mortes já registrados e pelo fato de a espécie Bundibugyo não contar com vacinas ou terapias disponíveis", diz Ana Carolina D'ettorres.

infectologista Polyana Gitirana, do Hospital Vitória Apart, conta que o vírus pode causar uma doença com manifestação típicamente gastro intestinal, mas atualmente há manifestações sistêmicas importantes como febre. "O paciente pode ter vômito, diarreia, pode ter cefaleia e o que a gente mais teme é a doença febril hemorrágica, que é a doença com risco de letalidade".

A médica diz que o recomendado é evitar viajar para áreas nesse momento que estejam em risco de transmissão de doença. "No primeiro sintoma como febre, mal-estar, a gente já deve se isolar, lembrando que a doença pode demorar até 21 dias para se manifestar. O paciente tem que ficar isolado, tem que ser tomado todas as medidas de prevenção, desenvolvimento de doença e de transmissão dessa doença, para que ela não saia do contexto da África", diz Polyana Gitirana

Há riscos para o Brasil?

Até o momento, o risco de o surto chegar ao Brasil é considerado baixo. A OMS não recomenda fechamento de fronteiras, restrições de viagens ou triagens especiais em aeroportos fora das áreas afetadas, porque não há evidências de que essas medidas sejam necessárias. 

Ainda assim, autoridades de saúde devem manter vigilância ativa, informar viajantes sobre os riscos e estar preparadas para identificar rapidamente possíveis casos importados.  

As estratégias de prevenção continuam sendo consideradas fundamentais para conter a propagação da doença. Entre elas estão o isolamento rápido de casos suspeitos, rastreamento de contatos, higienização frequente das mãos e uso rigoroso de equipamentos de proteção por profissionais da saúde.

Apesar da preocupação internacional, o infectologista Lorenzo Nico Gavazza explica que o risco de o atual surto chegar ao Brasil é considerado baixo neste momento. “Embora não possamos descartar totalmente a possibilidade, o país possui protocolos de vigilância sanitária ativos nos portos e aeroportos e um sistema de saúde preparado para identificar e isolar qualquer suspeita”, pontua.

O especialista reforça, no entanto, a importância de atenção em casos de pessoas que apresentem febre e tenham viajado recentemente para áreas afetadas pelo vírus.

Ana Carolina D'ettorres também reforça que a possibilidade de o vírus chegar ao Brasil existe, mas é considerada muito baixa. "O principal fator de risco é o trânsito de pessoas das áreas de transmissão para o Brasil. As recomendações da OMS estão direcionadas às províncias e aos países que fazem fronteira com a região do surto. As questões identificadas até o momento são mais regionais, sem impacto direto para países distantes como o Brasil. Mas é necessário manter vigilância para quadros febris em pessoas que estiveram em região de transmissão local". 

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