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Entrevista

"Não costuma dar sintomas": oncologista alerta para os sinais do câncer de colo do útero

A oncologista Andréa Gadelha fala sobre a importância de ficar atenta aos sinais e a importância dos exames preventivos ginecológicos

Publicado em 10 de Setembro de 2026 às 13:54

Guilherme Sillva

Publicado em 

10 set 2026 às 13:54
Andréa Gadelha, oncoginecologista
A oncologista Andréa Gadelha fala sobre a importância da prevenção dos cânceres ginecológicos   Divulgação MSD

O câncer do colo do útero é um tumor maligno que se desenvolve na região que conecta o útero à vagina. Sua principal causa é a infecção persistente por tipos oncogênicos do HPV (Papilomavírus Humano), transmitido predominantemente por via sexual. Embora seja uma doença prevenível, os baixos índices de adesão às medidas de prevenção ainda preocupam.


Estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca) apontam que, a cada ano, cerca de 30 mil brasileiras recebem diagnóstico de algum tumor ginecológico. Em São Paulo, o SE CUIDA acompanhou a divulgação da pesquisa conduzida pelo Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos (EVA) em parceria com o Instituto Locomotiva em 2026. Os dados revelam que, apesar do aumento no acesso à informação, 61% das brasileiras não realizaram o exame Papanicolau no último ano, e 34% não se consideram parte do grupo de risco para o câncer de colo do útero. 


A segunda onda da pesquisa "Percepção das Brasileiras sobre Tumores Ginecológicos e Práticas de Prevenção" ouviu 800 mulheres, de 18 a 45 anos, das classes A, B, C e D de todas as regiões do Brasil. O objetivo foi mapear a evolução do nível de conhecimento sobre o câncer de colo do útero e a adesão às práticas preventivas, com foco na vacinação e métodos de rastreio.


"O impacto desse levantamento é individual para cada mulher, para a família, e o impacto para sociedade, porque essa mulher vai se afastar do trabalho, por exemplo, para tratar do câncer de colo de útero", diz Andréa Gadelha, Presidente do Grupo Eva e líder de Oncoginecologia Clínica do Hospital AC Camargo Câncer Center. 


Durante o Setembro em Flor, mês de conscientização sobre os cânceres ginecológicos (colo do útero, corpo do útero, ovário, vulva e vagina), o alerta vai além da realização de consultas e exames: identificar a doença em tempo oportuno e garantir acesso ao tratamento adequado continuam sendo desafios centrais para reduzir mortes por câncer ginecológico.


Na entrevista, a médica fala sobre os exames preventivos ginecológicos e os desafios na jornada da mulher com câncer ginecológico. Confira!


Por que que é preciso falar mais sobre o câncer de colo do útero?


Por que é um problema de saúde pública. O câncer de colo do útero acomete quase 19 mil mulheres por ano no Brasil e é responsável pela morte de cerca de 8 mil delas. Embora seja um câncer prevenível — por estar associado ao HPV, um vírus sexualmente transmissível —, existem formas eficazes de prevenção: a vacina contra o HPV e os exames de rastreio, como o teste de HPV-DNA e o Papanicolau, que devem ser realizados regularmente.


Quais são os sintomas que a mulher precisa ficar atenta?


Na fase inicial, o câncer de colo do útero não costuma apresentar sintomas — por isso, os exames de rastreio são fundamentais. No entanto, é preciso ficar atenta a alguns sinais de alerta: sangramento vaginal persistente ou após relações sexuais, dor pélvica e desconforto urinário ou intestinal não são normais. Diante de qualquer um desses sintomas, a mulher deve procurar um ginecologista.


Esse tipo de câncer é um tumor evitável com vacinação contra HPV e exames preventivos. Por que o número de casos continua alto?


Existem diversas barreiras que impactam a prevenção, desde a baixa adesão à vacina até a não realização dos exames de rastreio, muitas vezes por falta de informação sobre a sua importância. A vacina contra o HPV é segura, tem eficácia comprovada por dados consolidados e é a principal aliada na prevenção do câncer. Já os exames de rastreio — como o teste de HPV-DNA e o Papanicolau — permitem identificar a presença do vírus ou detectar lesões precursoras, possibilitando o tratamento precoce antes que a doença se desenvolva. Por isso, a importância do tripé - combinação entre vacinação, rastreio e acompanhamento ginecológico de rotina - é fundamental para diagnosticar e tratar eventuais alterações a tempo.


A pesquisa divulgada revela que seis em cada 10 brasileiros não realizam os exames ginecológicos preventivos. Qual que é o impacto disso?


O impacto da doença é enorme e afeta não apenas a mulher, mas também sua família e toda a sociedade. Ao se afastar do trabalho para realizar o tratamento, geram-se consequências econômicas e emocionais. O impacto familiar é tão severo que o câncer de colo do útero é responsável por cerca de 20% dos casos de crianças que perdem as mães para a doença.


Quais são os exames preventivos ginecológicos preventivos que a mulher precisa fazer?


Para a prevenção do câncer de colo do útero, as principais ferramentas de rastreio são o teste de HPV-DNA e o exame preventivo Papanicolau, indicados para mulheres entre 25 e 64 anos. Além deste, a medicina preventiva estabelece diretrizes claras para o diagnóstico precoce de outros tipos de câncer: a realização da mamografia é recomendada a partir dos 40 anos para o rastreio do câncer de mama, enquanto a prevenção do câncer de intestino (colorretal) deve ser iniciada aos 45 anos, com a realização do exame de colonoscopia.


O que que é o teste de DNA-HPV? Ele é o mais eficaz hoje e já está disponível na rede pública de saúde?


Hoje, o teste de HPV-DNA para o rastreio do câncer de colo do útero é mais eficaz do que o Papanicolau. Ele é feito da mesma forma, com a coleta de secreção vaginal, mas por meio de uma avaliação genômica que detecta a presença do vírus. Já o Papanicolau detecta as alterações celulares causadas por esse vírus.


Quais são os avanços e os desafios na jornada da mulher com câncer ginecológico?


Os avanços são muitos significativos. Hoje, a pesquisa molecular e genômica nos permite personalizar os tratamentos. A depender do perfil da doença, conseguimos propor terapias específicas, com resultados cada vez melhores e reais possibilidades de cura. Isso tem mudado a realidade dos cânceres ginecológicos. Porém, como ainda lidamos com diagnósticos tardios e sequelas a curto e longo prazo, é fundamental olhar para a qualidade de vida e a reabilitação dessas mulheres no pós-tratamento.


O país precisa rever o modelo de rastreamento do câncer de colo do útero para alcançar mais mulheres de alto risco e como fazer isso?


O país, felizmente, está nesse momento de transição do método de rastreio, e esperamos, em um futuro próximo, já colher os frutos dessa mudança.

*O jornalista viajou a convite da MSD Brasil

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