Quando se fala em menopausa, a associação imediata é com as mulheres. O período, que costuma ocorrer entre os 45 e 55 anos, marca o fim da fase reprodutiva feminina e pode provocar sintomas como ondas de calor, irritabilidade, ansiedade, alterações de humor, ganho de peso e insônia.
Nos homens, também existe uma mudança hormonal relacionada ao envelhecimento. A condição é chamada de Deficiência Androgênica do Envelhecimento Masculino (DAEM) e é popularmente conhecida como andropausa. O termo, porém, é evitado por médicos porque, diferente da menopausa feminina, não existe uma interrupção definitiva da produção hormonal.
A DAEM é caracterizada pela redução gradual dos níveis de testosterona no sangue, processo que pode começar por volta dos 40 anos. A intensidade da queda varia de homem para homem e também pode ser influenciada por doenças e pelo estilo de vida.
Segundo reportagem de O Globo, o presidente da Sociedade Brasileira de Urologia, Roni de Carvalho Fernandes, afirmou que “estima-se que, a partir dos 40 anos, os homens comecem a perder cerca de 1% da testosterona total por ano. Entretanto, alguns podem apresentar uma perda maior em razão de outras doenças ou até do estilo de vida”.
A queda da testosterona não afeta apenas a vida sexual. Entre os sintomas que podem aparecer estão diminuição da libido, perda de energia, redução da força muscular, alterações do sono, irritabilidade, oscilações de humor e dificuldade de concentração.
Ainda de acordo com a reportagem de O Globo, a indisposição pode ser percebida até mesmo em atividades simples do cotidiano. Em alguns casos, a mudança de comportamento pode ser confundida com o início de um quadro depressivo.
Muitos homens ganham peso, diminuem massa magra e não conseguem repor essa massa. O ganho se torna mais difícil. Aliado às mudanças emocionais e físicas pode haver um princípio de depressão em alguns casos
Roni de Carvalho Fernandes
Os chamados fogachos, caracterizados por ondas repentinas de calor, também podem aparecer.
Os níveis considerados normais de testosterona total no sangue costumam ficar entre 300 e 1.000 ng/dL, mas os especialistas ressaltam que esse intervalo é apenas uma referência laboratorial. A avaliação precisa levar em conta fatores como idade, sintomas e o tipo de exame realizado.
A médica Rebeca Filgueiras, pós-graduada em geriatria e especialista em reposição hormonal e longevidade, explicou para O Globo que, diante de uma testosterona baixa, é necessário investigar como está a qualidade de vida do paciente.
Sono, alimentação, consumo de álcool, tabagismo, prática de atividade física, vida sexual e disposição geral são alguns dos pontos que devem ser avaliados. Exames também podem identificar doenças metabólicas, como diabetes, obesidade e hipertensão, que podem estar relacionadas à produção hormonal.
"Quando o paciente chega com testosterona baixa, precisamos ver o que acontece na vida desse homem. Aqueles que dormem mal, não se alimentam bem e são estressados tendem a produzir 60% menos testosterona", afirma Filgueiras para O Globo.
Outro fator analisado é a diferença entre testosterona total e livre. A testosterona total corresponde ao hormônio circulante no sangue, enquanto a testosterona livre é considerada a parcela funcional, responsável por exercer sua ação nos tecidos.
Estar com um nível alto de testosterona total não quer dizer que o paciente esteja com uma testosterona funcional. Ele precisa estar com níveis bons de testosterona livre que são as que de fato vão exercer função no organismo daquele paciente
O advogado e artista plástico Alexandre Dip, de 49 anos, começou a perceber mudanças no próprio corpo em outubro do ano passado. Ele sentia mais cansaço, indisposição e irritabilidade e procurou um urologista.
Os primeiros exames não mostraram alterações. A testosterona total também estava dentro dos parâmetros considerados normais.
A suspeita surgiu após uma situação cotidiana. Durante um aniversário, enquanto outras pessoas usavam roupas para se proteger do frio, Dip sentia muito calor mesmo vestindo uma peça sem mangas.
"Nesta época estava pesando 93 quilos. Eu não dormia, me sentia indisposto, não queria fazer nada. Meus exames apontavam que eu estava bem, mas eu sabia que não estava e foi só depois de procurar um nutrólogo e fazer novos exames que veio o resultado: apesar da minha testosterona total estar boa, a funcionalidade dela era baixa. Então o meu corpo não estava absorvendo-a", conta para O Globo.
A alteração estava associada a uma síndrome metabólica que aumentava o risco de pré-diabetes. Dip iniciou tratamento para a condição e passou a fazer reposição de testosterona.
"Eu fiz um tratamento para a síndrome metabólica e comecei a suplementar testosterona para o DAEM. Não foi preciso repor muito do hormônio porque o meu corpo estava produzindo, só precisava produzir em uma melhor qualidade. Agora eu aplico um gel de testosterona nos meus ombros para mantê-lo próximo dos 800", afirma.
Cinco meses depois do início do tratamento, ele havia passado de 93 para 77 quilos. Segundo o relato, também apresentou melhora no sono e na disposição, passou a praticar exercícios físicos com frequência e deixou de consumir bebidas alcoólicas. A síndrome metabólica diminuiu e os níveis de testosterona total e livre melhoraram.
A reposição de testosterona pode ser indicada em alguns casos, mas a decisão deve ser individualizada. Os médicos avaliam os sintomas, os exames e as condições de saúde antes de definir a necessidade do tratamento.
Entre as opções estão géis de testosterona, absorvidos pela pele, e aplicações injetáveis, que podem ser realizadas em intervalos semanais, quinzenais ou mensais, dependendo do caso.
"Hoje em dia os médicos podem prescrever géis de testosterona que são absorvidos pela pele ou injetar o hormônio que, dependendo de cada caso, pode ser em ciclos semanais, quinzenais ou mensais. Todos os casos precisam de um acompanhamento de perto com monitoramento constante", afirma Filgueiras ao O Globo.
O uso inadequado do hormônio, principalmente sem acompanhamento médico, pode trazer riscos. Entre eles estão alterações cardiovasculares, mudanças de humor e problemas relacionados à fertilidade.
"Entre os riscos desse mau uso e até do abuso da reposição da testosterona temos um número cada vez maior de jovens ficando inférteis pelo bloqueio da produção de espermatozoides. Aumento e hipertrofia do músculo do coração que pode gerar arritmias cardíacas e até mesmo infartos. Aumento de surtos como ansiedade, irritabilidade exagerada. Consequências físicas, emocionais e de fertilidade", alerta Fernandes.
A redução natural dos níveis hormonais não significa, necessariamente, que o homem precise fazer reposição. Antes de indicar o tratamento, os médicos devem investigar possíveis causas para a queda e avaliar os hábitos de vida do paciente.
Alimentação equilibrada, prática de exercícios físicos, sono adequado e controle de doenças metabólicas podem contribuir para a saúde hormonal.
"Declínio hormonal não significa que você precisa repor hormônio. Uma boa alimentação pode produzir uma quantidade melhor de testosterona. Tem que cuidar para que o paciente tenha uma autonomia melhor por mais tempo. É como um carro na estrada da vida: se acelerar demais no começo, gasta combustível, ou seja, testosterona, a mais do que o necessário. Depois, mais para frente vai precisar dela e não adianta tentar colocar um combustível de avião dentro do seu carro, porque ele pode ficar mais forte em um primeiro momento, mas depois vai estragar e começar a dar problemas", explica Fernandes.
Fonte: Jornal O Globo.