Um formigamento que aparece do nada, uma visão embaçada que passa depois de alguns minutos ou aquele cansaço que parece maior do que o esforço do dia. São situações que podem fazer parte da rotina e ser consideradas “normais” por algumas pessoas, mas, ao contrário do que muitos pensam, também merecem atenção.
Quando aparecem de forma recorrente ou sem uma causa aparente, esses sintomas podem estar relacionados à esclerose múltipla (EM), uma doença inflamatória crônica e autoimune que afeta o sistema nervoso central. Como as manifestações variam de pessoa para pessoa e podem surgir em diferentes momentos, reconhecer os sinais é um dos primeiros passos para buscar uma investigação adequada.
De acordo com Trajano Aguiar, especialista em doenças neuromusculares e Neuroimunologia da Raras Health, a esclerose múltipla acontece quando o sistema imunológico passa a atacar a bainha de mielina, estrutura que protege as fibras nervosas do cérebro e da medula espinhal. O dano a essa proteção interfere na transmissão dos impulsos nervosos entre o cérebro e o restante do corpo, podendo comprometer funções motoras, sensitivas, visuais e cognitivas.
Segundo o Ministério da Saúde, a esclerose múltipla é uma das doenças mais comuns do sistema nervoso central, afetando 2,8 milhões de pessoas em todo o mundo. No Brasil, a Associação Brasileira de Esclerose Múltipla (ABEM) estima que cerca de 40 mil brasileiros convivem com a doença, sendo 85% mulheres jovens e brancas, entre 18 e 30 anos.
A esclerose múltipla também é marcada por diferentes formas de manifestação. Na forma mais comum, os sintomas aparecem em episódios chamados surtos, que podem melhorar depois de alguns dias ou semanas. Essa característica pode fazer com que os primeiros sinais sejam subestimados ou atribuídos a outras causas, como estresse no dia a dia. “Como não existe um único exame capaz de confirmar a doença, o diagnóstico considera o histórico clínico, a avaliação neurológica e exames complementares, como a ressonância magnética e, em alguns casos, a análise do líquor”, explica o especialista.
Alterações na visão: visão embaçada ou dupla, perda parcial da visão ou dor ao movimentar os olhos. Um exemplo é perceber que um dos olhos ficou com a visão turva de repente, como se houvesse uma “névoa” na frente dele;
Formigamento e dormência: sensação de “agulhadas”, choques ou perda de sensibilidade em braços, pernas, mãos, pés ou em um lado do corpo, que pode surgir sem uma causa aparente e persistir por algum tempo;
Fraqueza muscular: sensação de que um braço ou uma perna está mais pesado ou dificuldade para realizar movimentos que antes eram simples, como subir escadas, caminhar ou segurar objetos;
Alterações no equilíbrio e na coordenação: tontura, sensação de instabilidade, dificuldade para caminhar em linha reta ou movimentos mais desajeitados do que o habitual;
Fadiga intensa: cansaço desproporcional às atividades realizadas, como sentir necessidade de descansar depois de tarefas simples ou perceber que o corpo não responde da mesma maneira ao longo do dia;
Alterações cognitivas: dificuldade para se concentrar, encontrar palavras, memorizar informações ou realizar tarefas que exigem mais atenção;
Alterações urinárias: vontade urgente e frequente de urinar, dificuldade para esvaziar completamente a bexiga ou episódios de perda urinária.
A esclerose múltipla, doença neurológica crônica, degenerativa e autoimune, é atualmente uma das principais causas de deficiências não traumáticas em jovens adultos. Apresenta maior incidência entre 18 e 40 anos de idade, fase produtiva, e atinge três vezes mais mulheres que homens.
O diagnóstico e o acompanhamento precoces são importantes porque existem tratamentos capazes de controlar a atividade da doença e reduzir o risco de novos episódios, sempre de acordo com a avaliação médica individual. O Ministério da Saúde destaca justamente a importância do diagnóstico precoce e do tratamento adequado.
“O tratamento visa conter os surtos, principal evolução da esclerose. Ao barrar o acúmulo dessa progressão, possibilitamos uma normalização de rotina ao paciente”, explica a neurologista Karoline Cohen, do Hospital São Luiz Campinas.
A médica explica que o diagnóstico da doença é realizado pelo neurologista, por meio da avaliação clínica e de exames como ressonância magnética de crânio, da coluna e análises laboratoriais. “Nos surtos iniciais a enfermidade apresenta sintomas que duram dias ou semanas, evoluindo para uma melhora espontânea. Após algum tempo, sua recuperação passa a ser mais lenta e parcial, trazendo sequelas cada vez mais incapacitantes”, alerta Karoline.
Ainda de acordo com a neurologista, a esclerose múltipla é multifatorial, ou seja, é causada por uma soma de fatores que o paciente é exposto durante a vida. Além da predisposição genética, também está relacionada ao tabagismo, obesidade na infância e certos tipos de infecções.
Apesar de conhecida há muito tempo, nos últimos anos a doença tem ganhado atenção e, por consequência, diagnósticos e tratamento cada vez mais precoces e eficientes.
“Medicações injetáveis, orais e infusionais são hoje as terapias de combate à evolução do quadro, sendo aplicadas de forma individualizada, sempre dependendo da gravidade e demanda de cada caso”, finaliza a médica.