Quando se fala em doença de Alzheimer, a imagem mais comum é a de um idoso que começa a esquecer nomes, compromissos e acontecimentos recentes. Mas a doença também pode surgir antes dos 50 anos e, nesses casos, costuma ter uma característica importante: a influência genética é muito maior.
Conhecida como Alzheimer de início precoce, essa forma da doença é menos frequente, mas exige atenção porque os primeiros sinais nem sempre são apenas falhas de memória. Mudanças de comportamento, dificuldade para organizar tarefas e perda gradual das chamadas funções executivas do cérebro podem surgir antes mesmo dos esquecimentos mais evidentes.
Segundo o neurocirurgião endovascular e mestre em Neurociências Ulysses Caus Batista, a doença é exatamente a mesma. O que muda é a causa.
"O Alzheimer de início precoce costuma ter um componente genético muito mais importante. Quando existe um familiar que desenvolveu a doença antes dos 50 anos, a chance de haver hereditariedade é significativamente maior", explica.
Embora a perda da memória recente seja o sintoma mais conhecido do Alzheimer, ela pode não ser a primeira manifestação da doença.
Antes disso, o paciente pode apresentar alterações nas chamadas funções executivas do cérebro, responsáveis por planejamento, organização, atenção e tomada de decisões. Na prática, isso significa que atividades antes simples começam a ficar difíceis.
"A pessoa que sempre organizou um almoço de família, por exemplo, passa a esquecer etapas da preparação, perde a capacidade de planejamento e acaba deixando de fazer aquilo que sempre fez com facilidade", explica o médico.
Outro sinal que merece atenção é a mudança de comportamento. Segundo o especialista, pessoas antes ativas e vaidosas podem se tornar mais retraídas, perder o interesse por atividades do dia a dia e até deixar de cuidar da própria aparência.
Esquecer onde deixou as chaves ou o celular faz parte da rotina de praticamente todo mundo e, na maioria das vezes, não significa doença. O problema surge quando os esquecimentos começam a comprometer a independência da pessoa.
Existe uma diferença entre esquecer onde deixou uma chave e esquecer para que ela serve
Outro exemplo citado pelo médico é o paciente que frequenta o mesmo supermercado há anos e, de repente, deixa de lembrar o caminho até o local ou não consegue encontrar produtos que sempre comprou.
Esquecer nomes de pessoas próximas ou ter dificuldade para realizar atividades básicas, como vestir-se, cuidar da higiene pessoal ou fazer pequenas compras sozinho, também são sinais que merecem investigação.
Nem toda falha de memória é Alzheimer. Segundo o especialista, o excesso de informações, o estresse, a ansiedade e a sobrecarga de tarefas fazem com que muitas pessoas tenham dificuldade de concentração, o que acaba sendo confundido com perda de memória.
Na maioria das vezes, essas pessoas não estão esquecidas. Elas estão desatentas. Se você não consegue prestar atenção, também não consegue memorizar
Embora ainda não exista cura para o Alzheimer, identificar a doença nas fases iniciais permite iniciar mais cedo o tratamento e retardar sua progressão.
Além dos medicamentos, o acompanhamento costuma envolver terapias cognitivas, fisioterapia, terapia ocupacional e acompanhamento psicológico, contribuindo para preservar a autonomia do paciente por mais tempo e melhorar a qualidade de vida da família.
A ciência já demonstrou que alguns hábitos podem reduzir o risco ou retardar o aparecimento da doença.
Entre as principais recomendações estão:
praticar atividade física regularmente;
manter uma alimentação equilibrada;
controlar hipertensão, diabetes e colesterol;
dormir bem;
evitar cigarro e excesso de álcool;
manter o cérebro ativo por meio da leitura, estudos, palavras cruzadas, aprendizado de novas habilidades, idiomas, música, pintura ou qualquer atividade que estimule novas conexões cerebrais.
Segundo Ulysses, esses cuidados ajudam a aumentar a chamada "reserva cognitiva", permitindo que o cérebro suporte melhor as alterações provocadas pelo envelhecimento.
Por surgir em pessoas relativamente jovens, o Alzheimer precoce ainda enfrenta resistência tanto dos pacientes quanto das famílias.
Muitas vezes, as alterações são interpretadas como desatenção, preguiça ou excesso de trabalho, atrasando a procura por ajuda médica. Como quem apresenta a doença nem sempre percebe os próprios esquecimentos, geralmente são familiares ou amigos que notam as primeiras mudanças.
Ao final da entrevista, o especialista deixa um recado:
Não normalize os sintomas. Se alguma alteração está atrapalhando sua rotina, causando constrangimento ou prejudicando sua qualidade de vida, procure avaliação médica. Quanto mais cedo o diagnóstico, maiores são as chances de controlar a doença e preservar a qualidade de vida