Vivemos conversando com Siri, Cortana, Alexa, Google Assistente, formas de inteligência artificial sem corpo, só com voz, com a qual interagimos cotidianamente. Além disso, temos ainda os robôs que nos telefonam, hologramas de pessoas em 3D com as quais dialogamos... E agora, o mais inusitado, os “humanos artificiais” lançados pela Samsung na feira Consumer Electronics Show, na semana passada em Las Vegas, nos Estados Unidos.
Há prós e contras para o uso da inteligência artificial no nosso dia a dia - eu particularmente adoro a Siri. Ela me ajuda a fazer coisas habituais e rapidamente, mas confesso que não suporto receber telefonemas de máquinas oferecendo produtos e perguntando minha opinião sobre as mais variadas coisas. Chego a perguntar-me se os empresários ou seus assessores de Marketing não sabem que isso irrita os consumidores? Mas esse é um outro assunto.
O que gostaria de conversar hoje com vocês é sobre o novo projeto da Samsung, lançado semana passada na CES em Las Vegas: o NEON. Ele é um “humano artificial” que, de acordo com a reportagem da Revista Época Negócios, publicada on-line neste último 12 de janeiro, é um “projeto que cria avatares digitais gerados por computador, simulando humanos artificiais que podem conversar e expressar emoções.
Dados sobre imagens de pessoas e comportamento humano alimentam sistemas de aprendizado de máquina e inteligência artificial para gerar novos "seres". ”Você também ficou sem ar só de pensar em um avatar desses?
O que o humano artificial da Samsung pode fazer é ainda desconhecido, pois, ao que parece, é uma tecnologia que se autoalimenta e vai imitando os seres humanos que interagem com ele. E mais: todo ser humano artificial é um NEON, ou seja, cada um de nós pode ter um para chamar de seu (sua criação é ilimitada).
Assim como os assistente virtuais que mencionei no começo da coluna, por um lado o NEON também pode ser muito útil à vida na pós-modernidade, época em que vivemos. Por outro lado, causa-me desconforto pensar que há no mundo – hoje! – tecnologia que é capaz de nos observar e reproduzir nossas mímicas, nossa forma de pensar e raciocinar, e interagir conosco como se fosse um ser humano.
Apesar do incômodo que pode causar a alguns, como causou a mim, existe um outro problema a ser pensado aqui: qual o limite ético dessa nova tecnologia de inteligência artificial?
Ao mesmo tempo em que acontecia a Feira em Las Vegas, os Estados Unidos divulgavam resoluções para regulamentar o uso da Inteligência Artificial naquele país. A regulamentação é ainda muito tímida, mas me chamou a atenção a terminologia de uma delas, dizendo que o uso da inteligência artificial tem que ser “fair” (nesse caso, poderíamos traduzir como justa) para todo mundo.
Minha proposta de reflexão de hoje é exatamente esta: o que seria um uso “fair” (justo) da IA?
Na esteira da regulamentação do governo norte-americano podemos esperar que no Brasil logo logo já se pense em algo semelhante. No Reino Unido, cientistas vêm, há anos, se debruçando sobre a ética no uso da IA e sobre a elaboração de uma espécie de código de ética para o uso de formas de inteligência artificial, o que também irá nos influenciar no futuro.
A mim me parece que o primeiro a ser evitado é que pessoas financeira e politicamente mais bem-sucedidas na sociedade não se beneficiem de avatares ou humanos artificiais para aumentar as suas possibilidades de acesso aos bens sociais e financeiros, retirando injustamente as chances e oportunidades de pessoas que não têm acesso à tecnologia.
Numa sociedade tão injusta e tão desigual como a brasileira há grandes chances de isso acontecer. Da mesma forma que a riqueza é mal dividida no Brasil, o acesso à tecnologia da inteligência artificial será muito possivelmente denegada aos mais vulneráveis da sociedade, que serão assim oprimidos e excluídos do bem-estar que a tecnologia irá trazer aos mais ricos.