Apresentar ideias sobre os saberes ancestrais e enfrentar as crises do presente é uma luta coletiva, como propõe Ailton Krenak no livro O futuro é ancestral. Em Linhares, no Norte do Espírito Santo, o Instituto Asas da Esperança aposta em novos modelos de educação socioambiental, transformando o próprio território em espaço de aprendizagem, pertencimento, cuidado e preservação.
O trabalho voltado a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social levou a instituição a ser uma das vencedoras da 6ª edição do Prêmio Biguá de Sustentabilidade 2026, na Região Norte, promovido pela Rede Gazeta para valorizar iniciativas de preservação ambiental e desenvolvimento sustentável.
Com o tema “Todos 100% Presentes”, a premiação celebrou, na noite de quarta-feira (28), em Linhares, iniciativas que valorizam o olhar para a comunidade e incentivam a participação de cada pessoa como agente de transformação e mobilização de soluções. A avaliação dos projetos inscritos passou por uma comissão técnica, e as iniciativas selecionadas foram reconhecidas em cinco categorias: Sociedade Civil, Empresa, Escola, Poder Público e Produtor Rural.
Para Maria Helena Vargas, diretora regional da Rede Gazeta, a premiação reafirma, ao longo dos anos, que as ações e as soluções apresentadas multiplicam os cuidados com o desenvolvimento sustentável do meio ambiente.
Temos que continuar cuidando do meio ambiente para continuar crescendo. E esse é o objetivo do prêmio: dar visibilidade a quem está desenvolvendo iniciativas que conseguem restaurar e preservar o meio ambiente e produzir de forma sustentável.
Maria Helena Vargas Diretora Regional da Rede Gazeta
Vencedor da categoria Sociedade Civil, o projeto O Território Também Educa promove educação socioambiental para crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social em Linhares,. A iniciativa surgiu da experiência de Grazi Ferreira, representante da sociedade civil e filha de pescador, que também cresceu em uma comunidade em situação de vulnerabilidade. Desde 2021, o trabalho busca aproximar os participantes dos espaços naturais da cidade e estimular o sentimento de pertencimento.
A proposta é levar a educação ambiental para o cotidiano, com atividades que incluem o contato com a Lagoa Nova, as hortas e os espaços verdes. Para Grazi, conhecer as belezas naturais do município é um passo importante para despertar o interesse pela preservação. A ideia é que, além de aprender sobre o meio ambiente, as crianças criem vínculos com o território onde vivem.
A gente não leva a criança para dentro de uma sala de aula só para explicar as consequências da degradação ambiental. Primeiro, a gente tem que ensiná-la a gostar do território dela.
Graziele Ferreira Coordenadora de Projetos
Com o envolvimento nas atividades, os participantes também passam a sugerir ações e intervenções na comunidade. O projeto busca, assim, fortalecer o protagonismo infantil e juvenil, incentivando as crianças e os adolescentes a compartilharem o que aprendem e a mobilizarem outras pessoas em favor da preservação ambiental.
Na empresa Norte Resíduos, em Rio Quartel, distrito de Linhares, o descarte de resíduos de madeiras do setor industrial, comercial e público são transformadas em fonte de energia limpa. Deixando para trás o descarte em aterros, o projeto “Do Descarte à Energia” utiliza o fluxo próprio dividido em quatro passos: coleta especializada, processamento, valorização energética e retorno ao ciclo produtivo. Assim, tornou-se vencedora do Prêmio Biguá, na categoria Empresas.
Com base no modelo de economia circular e logística reversa, o resíduo que seria descartado é transformado em biocombustível, o que reduz a emissão de efeito estufa, gerando mais energia térmica e elétrica renovável para o funcionamento de cerâmicas, alto-fornos e caldeiras.
As pessoas acham que a reciclagem é feita apenas de plástico, papelão, ferro e garrafa pet. A gente provou, com resultados, que a madeira tem um papel fundamental na reutilização. Podermos apostar na ideia que tivemos e vê-la na prática, sendo reconhecida pela sociedade e pelo Estado, traz felicidade
Carlos Flor Empreendedor
Na Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) e Centro de Educação Familiar e de Formação por Alternância (Ceffa), em Córrego da Japira, na zona rural de Jaguaré, as práticas sustentáveis são incentivadas por meio de sistemas agroflorestais, hortas medicinais, proteção das abelhas sem ferrão e produção de fertilizantes ecológicos, envolvendo a comunidade no cuidado com o meio ambiente. Essa iniciativa conquistou a categoria Escola do Prêmio Biguá.
O projeto “O voo que fez a Ecorm (Escola Comunitária Rural Municipal) de Japira Florescer: Uma história que inspira, um legado que permanece" conscientiza não apenas os alunos, mas toda a comunidade ao redor da unidade, fomentando o voluntariado e a participação de moradores sobre o uso consciente dos recursos naturais e a preservação do meio ambiente.
As ações do projeto funcionam de forma integrada, em um ciclo de benefícios para o meio ambiente. Enquanto as plantas fornecem alimento às abelhas sem ferrão, os insetos contribuem para a polinização. Já os resíduos orgânicos podem ser transformados em biofertilizantes, utilizados para nutrir o solo e favorecer o desenvolvimento da vegetação. A combinação dessas práticas busca fortalecer a biodiversidade local.
A escola já trabalha com ações de sustentabilidade no projeto político-pedagógico. Tivemos que mudar toda a organização da para abrigar as abelhas sem ferrão e fazer a manutenção delas. As abelhas têm uma função crucial na polinização. Tudo isso criou uma ação grandiosa, mantendo o foco na sustentabilidade.
Eliene Pretti Diretora da Ecorm Japira
Em Montanha, no Norte do Espírito Santo, o projeto Moeda de Troca, da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, incentiva a destinação correta de resíduos recicláveis. Os materiais recolhidos são transformados em produtos úteis para a população. A cada 60 garrafas PET entregues, o participante recebe uma vassoura ecológica. Já quem entrega dois litros de óleo de cozinha usado ganha 500 ml de sabão produzido pela prefeitura. Essa ação foi a vencedora da categoria Poder Público, no Prêmio Biguá.
A iniciativa busca reduzir o descarte irregular desses materiais e conscientizar a população sobre a importância da reciclagem e da preservação ambiental. A ação atende moradores das zonas urbana e rural, além de estudantes, comerciantes e outras pessoas interessadas em contribuir para a sustentabilidade no município.
As pessoas têm o costume de achar que, depois que descartam o lixo, agora já é problema de outro. Mas, na verdade, nós fazemos parte dessa solução, implantando o programa contínuo de transformar lixo em oportunidade.
Gabriel Oliveira Educador Ambiental
Em Córrego Jacutinga, em Linhares, o Sítio Soprani conquistou a categoria Produtor Rural do Prêmio Biguá com um projeto que trabalha com o sistema agroflorestal, reunido diferentes espécies vegetais para conciliar a produção de alimentos com a recuperação ambiental.
O objetivo é tornar a propriedade inteiramente sustentável, com a recuperação de áreas de vegetação e a ampliação do Sistema Agroflorestal (SAF). Entre os planos, estão conectar a Área de Preservação Permanente (APP) ao sistema de cultivo, aumentar o número de caixas para abelhas sem ferrão e instalar abrigos para abelhas solitárias.
A recuperação da biodiversidade também busca reintroduzir a palmeira-juçara, cujos frutos servem de alimento para diversas aves, incluindo a jacutinga. A espécie, que dá nome à comunidade, já existiu na região, segundo a produtora rural Cíntia Boldrini. A expectativa é que a recuperação da vegetação crie condições para que, futuramente, a ave volte a habitar o local.
A gente está tentando reintroduzir a juçara no ambiente para que, no futuro, tenha a possibilidade de trazer a jacutinga de volta à comunidade.
Cíntia Boldrini Produtora rural