A preocupação com o sofrimento causado pelo sumiço de animais domésticos levou estudantes de uma escola de Anchieta, no Litoral Sul do Espírito Santo, a desenvolver uma coleira tecnológica que ajuda os tutores a reencontrarem os seus pets. Em fase final de desenvolvimento, o projeto foi um dos vencedores da 15ª edição do Prêmio Biguá de Sustentabilidade, que reconhece iniciativas sustentáveis no Estado.
Realizada pela Rede Gazeta, a cerimônia de premiação para a Região Sul do Estado ocorreu nesta terça-feira (27), em Cachoeiro de Itapemirim. Ao todo, entre 57 inscritos, foram premiados 13 projetos, em cinco categorias.
As iniciativas premiadas foram desenvolvidas por escolas, produtores rurais, empresas, instituições públicas e organizações da sociedade civil. Voltados à preservação ambiental, inovação e ao desenvolvimento sustentável, os projetos reconhecidos são de oito municípios: Cachoeiro de Itapemirim, Anchieta, Vargem Alta, Guaçuí, Alegre, Jerônimo Monteiro, Marataízes e Domingos Martins.
Criado em 2012, o Prêmio Biguá tem como objetivo dar visibilidade a iniciativas ambientais que possam ser seguidas pela sociedade. Com o tema “Todos 100% presentes”, a edição deste ano reforça a importância da participação coletiva na preservação da natureza.
O Prêmio Biguá chega à 15ª edição cumprindo seu objetivo, que é dar visibilidade e promover iniciativas que possam ser replicadas pela sociedade. Com isso, podemos favorecer o crescimento e o desenvolvimento de forma sustentável.
Maria Helena Vargas diretora regional da Rede Gazeta
O projeto PetSafe, desenvolvido por estudantes do 9º ano da Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental Professora Maria Luiza Flores, localizada em Mãe-Bá, Anchieta, foi o vencedor da categoria escola. A iniciativa utiliza a tecnologia para facilitar o reencontro de animais perdidos com seus tutores.
Em fase final de desenvolvimento, o projeto prevê a utilização de coleiras com QR Code por animais domésticos. Por meio do código no equipamento, é possível acessar informações cadastradas sobre os pets e os contatos autorizados pelos responsáveis. Assim, caso cachorros, gatos ou outros animais fiquem perdidos nas ruas, a identificação dos seus tutores poderá ser feita de forma imediata.
A proposta também inclui um aplicativo desenvolvido pelos próprios estudantes, sob orientação de professores, para facilitar o acesso aos dados e contribuir para que os animais retornem para casa.
O reconhecimento alcançado no Prêmio Biguá foi recebido como um incentivo ao trabalho realizado pelos alunos e pela equipe escolar. “Receber o prêmio para nós, escola pública em tempo integral, é muito importante”, afirmou a professora Aline Gomes.
Além de estimular a criatividade dos estudantes, a iniciativa aproxima a educação do cotidiano e demonstra como os conhecimentos tecnológicos podem ser utilizados para enfrentar problemas reais da sociedade.
Na categoria produtor rural, o vencedor foi o projeto Da Laranja ao Café: Fechando o Ciclo da Sustentabilidade no Campo, do campus de Alegre do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), que propõe transformar resíduos agrícolas e pecuários em insumos para a própria produção rural.
Responsável pelo projeto, o agricultor Thiago Cunha Fabrone explica que a iniciativa surgiu a partir do reaproveitamento de laranjas que não eram comercializadas e permaneciam no chão do laranjal. Além de representar desperdício de matéria orgânica, essa situação poderia favorecer problemas fitossanitários, como a presença de moscas-das-frutas.
A proposta consiste em combinar as laranjas descartadas com palha de café e esterco de ovinos para produzir um composto orgânico com potencial de utilização como substrato e adubo.
O projeto nasceu de um problema identificado na propriedade rural e passou a buscar uma alternativa para o reaproveitamento dos resíduos. A proposta é dar uma destinação aos materiais descartados e permitir que retornem ao sistema produtivo.
Com a prática, o projeto busca reduzir o descarte inadequado de resíduos, reaproveitar nutrientes e melhorar o aproveitamento da matéria orgânica gerada na propriedade. A iniciativa também apresenta uma alternativa que pode ser reproduzida por outros produtores rurais.
A experiência demonstra como materiais que antes seriam descartados podem retornar ao ciclo produtivo, contribuindo para uma agricultura mais sustentável.
A Associação de Catadores da Unidade Primária de Materiais Recicláveis de Anchieta (Unipran) foi reconhecida pelo projeto Escola que Recicla. A vencedora da categoria sociedade civil mantém uma rede permanente de coleta seletiva na comunidade escolar do município desde agosto de 2018.
A iniciativa reúne três frentes principais: educação ambiental continuada, instalação de estruturas para a separação e coleta de resíduos nas escolas e monitoramento da quantidade de materiais recicláveis recolhidos.
Os catadores também atuam como educadores ambientais, aproximando os estudantes do trabalho de coleta e triagem dos resíduos. O projeto prevê ainda visitas de alunos ao galpão de triagem e parcerias com instituições públicas e de ensino.
Em oito anos, foram 47,6 toneladas de materiais recicláveis desviadas do aterro sanitário e distribuídas em 1.594 pesagens registradas. Segundo os dados do projeto, o resultado equivale a uma estimativa de 31,9 toneladas de dióxido de carbono equivalente (tCO₂e) evitadas.
A iniciativa também capacitou 120 profissionais da educação. O material separado é comercializado, e a receita é compartilhada entre as 12 famílias de catadores e catadoras associadas, todas oriundas do Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico).
A secretária executiva da associação, Marleia Ribeiro, destaca a importância da premiação para valorizar o trabalho desenvolvido pelos catadores. “Isso dá visibilidade ao nosso trabalho e prova que estamos no caminho certo e de que vale muito a pena investir na reciclagem.”
Além de reduzir o volume de resíduos encaminhados ao aterro, o projeto associa a educação ambiental à geração de renda e à valorização do trabalho dos catadores.
Na categoria empresa, uma parceria entre a Samarco e a Associação de Artesanato de Mãe-Bá, em Anchieta, foi reconhecida pelo desenvolvimento de cordas de sinalização e isolamento produzidas a partir de fibras naturais de taboa, planta existente nas margens de lagoas, pântanos e áreas alagadas.
O projeto busca aproximar o conhecimento tradicional do artesanato das demandas do setor produtivo, ampliando as possibilidades de utilização de matérias-primas naturais em aplicações industriais.
Para isso, foi necessário adaptar técnicas artesanais às exigências de resistência, qualidade e segurança. O desenvolvimento também envolveu investimentos em infraestrutura, capacitação dos artesãos, equipamentos de apoio e validação técnica das cordas em ambiente operacional.
A proposta inclui ainda a estruturação da cadeia produtiva e a ampliação do acesso ao mercado, com o objetivo de transformar uma produção artesanal de pequena escala em uma solução sustentável utilizada nas operações da empresa.
A iniciativa também busca ampliar a visibilidade do trabalho das artesãs e fortalecer a atividade como fonte de geração de renda.
“O Prêmio Biguá veio para mudar a realidade das pessoas que não apareciam. Hoje, o artesanato de Mãe-Bá é conhecido por meio dessa premiação. Este é o segundo Prêmio Biguá das artesãs. Fomos reconhecidas há cerca de quatro anos e, depois daquele prêmio, a visibilidade aumentou”, afirma Carmelita Furlan, representante da associação.
Na categoria poder público, o projeto RegeneraKí — Aprender com a Natureza para Cuidar do Futuro tem como objetivo promover a educação ambiental e a sensibilização das comunidades que integram o Corredor Ecológico Burarama-Pacotuba-Cafundó, reserva de Mata Atlântica localizada em Cachoeiro de Itapemirim.
A iniciativa também envolve estudantes da rede pública estadual de Cachoeiro e de municípios vizinhos, com atividades voltadas à valorização da biodiversidade da Mata Atlântica e à compreensão do papel das florestas na conservação ambiental.
O projeto busca fortalecer o protagonismo estudantil e ampliar o conhecimento sobre a importância da preservação dos ecossistemas, inclusive no enfrentamento das mudanças climáticas.
O professor William Moreira da Costa destaca a importância da participação de diferentes setores nas ações de conservação ambiental e afirma que o reconhecimento incentiva a continuidade do trabalho.
A conservação ambiental é feita a muitas mãos. Ter essa valorização de quase nove meses de projeto é um incentivo para que a gente continue executando nossas atividades com qualidade.
William Moreira da Costa professor
Os primeiros colocados nas cinco categorias regionais avançam para a etapa estadual do Prêmio Biguá. Nessa fase, os projetos serão submetidos à votação popular on-line, prevista para ocorrer entre os dias 30 de outubro e 10 de novembro, pelo site agazeta.com.br/premiobigua.
A votação amplia a visibilidade das iniciativas e permite que mais pessoas conheçam projetos que contribuem para a preservação ambiental e o desenvolvimento sustentável.
Ao reunir experiências de diferentes setores, o Prêmio Biguá busca incentivar práticas que possam ser adaptadas a outras realidades, mostrando que a conservação ambiental pode caminhar junto com a educação, a inovação, a geração de renda e o desenvolvimento econômico.
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