Hoje, 20 de novembro, é o Dia Nacional da Consciência Negra e o início da campanha de 21 dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, com término em 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos. No Brasil, o período dessa campanha foi aumentado. Globalmente, a campanha dura 16 dias, iniciando no dia 25 de novembro, quando se comemora o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres.
“Comemorar” talvez não seja o termo mais adequado diante do cenário que está à nossa frente, seja de violências cotidianas contra meninas e mulheres, contra negros, seja de violação de toda uma sorte de direitos humanos. Comemoramos, sim, as conquistas alcançadas até o presente, à custa de muitas ações individuais e de coletivos, bem como de muita resistência. E mais. Lutamos.
Lutamos para que tais datas sejam realmente de efetiva comemoração e não da constante necessidade que temos de reafirmar o óbvio: que mulheres morrem por razões sexistas, razões que não são as mesmas que os homens morrem; que negros têm menos oportunidades de ascensão na carreira que brancos; que mulheres negras são a base da opressão da nossa sociedade, experimentando inúmeras discriminações e estando sujeitas a vulnerabilidades econômicas, sociais, sexuais.
Os dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres têm início antes no Brasil, no Dia Nacional da Consciência Negra, justamente em razão do fato de as mulheres negras no Brasil serem as que mais têm seus direitos humanos violados. São elas as que estão mais suscetíveis a serem mortas, correspondendo a 67% do total de mulheres assassinadas, segundo o Atlas da Violência 2019. Ainda segundo o Atlas, o crescimento dessas mortes em números absolutos entre mulheres não negras foi de 1,7%, enquanto entre mulheres negras foi de 60,5% entre os anos de 2007 e 2017.
Não estou aqui falando como uma mulher negra que é alvo de tantas injustiças em razão da sua cor e da sua história. Falo como uma mulher que reconhece os muitos privilégios que tem e que se espanta, por exemplo, com a enxurrada de comentários raivosos, preconceituosos e destoantes da realidade na reportagem do último fim de semana que A Gazeta fez sobre a disparidade salarial entre brancos e negros.
Precisamos reconhecer a luta pelos direitos humanos e parar de nos apegarmos a exemplos fora da curva para justificar a desnecessidade de políticas públicas, os quais estão muito longe de representarem a realidade. É imperativo que reconheçamos o histórico de violências praticadas contra pessoas negras e contra mulheres (o que se acentua quando as duas “categorias” estão juntas) para que alguns homens brancos ricos usufruam de nossas riquezas.