Recuperar senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

Cadastrar nova senha

Já tem uma conta?

Acesse aqui

  • Início
  • Menos menores infratores são internados no ES. Devemos nos preocupar?
Redução histórica

Menos menores infratores são internados no ES. Devemos nos preocupar?

Nunca antes, desde início de série histórica, Estado manteve tão poucos adolescentes em unidades socioeducativas como em 2019. É o que provam todos os números oficiais. Secretária de Direitos Humanos explica mudança na política

Publicado em 09 de Janeiro de 2020 às 04:00

Públicado em 

09 jan 2020 às 04:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Nara Borgo defende medidas alternativas à internação, como a semiliberdade e a liberdade assistida  Crédito: Ademir Ribeiro/SEDH

O governo Renato Casagrande (PSB) começou, em janeiro de 2019, com uma bomba-relógio armada, prestes a explodir na cara da sociedade capixaba: o sistema socioeducativo estadual. Com capacidade para a internação de 760 menores de idade, o sistema, no fim de 2018, somava 854 adolescentes internados nas 13 unidades que o compõem, uma taxa de ocupação equivalente a 112%.

No entanto, o Espírito Santo fechou 2019 com um número bem inferior a esse: 654 adolescentes internados no dia 23 de dezembro, ou seja, 200 a menos do que havia no fim de 2018. Dessa vez, fugindo à regra, o sistema não encerrou o ano superlotado, mas com excedente de vagas, operando em 86% da capacidade total.

Tem mais: no mês de dezembro, o número médio de internos por dia no sistema ficou em 755 (também abaixo da lotação máxima). De acordo com dados do Observatório Digital da Socioeducação, disponível no site do Instituto de Atendimento Socioeducativo do Espírito Santo (Iases), essa é a média mais baixa para um mês nos 72 meses de uma série histórica iniciada em janeiro de 2014. 

Número médio de internos por dia no sistema socioeducativo estadual, mês a mês Crédito: Site do Iases

Ao longo de 2019, a média de adolescentes internados por mês no Estado foi de 834 – também, disparadamente, a mais baixa da série histórica. De 2015 a 2018, essa média mensal superou a marca de 1.000 internos. Em 2018, ficou em 1.051.

Em resumo, em 2019, o número de menores infratores cumprindo pena de internação no Espírito Santo foi muito mais baixo do que nos anos anteriores. Ora, que milagre foi esse? Como foi possível reduzir o número de adolescentes internados? O problema está sob controle? E até que ponto isso é uma boa notícia? Com menos menores infratores cumprindo medida de internação (logo, mais nas ruas), o cidadão capixaba tem motivo para se preocupar?

Para responder a essas perguntas, conversamos com a secretária estadual de Direitos Humanos, a advogada Nara Borgo, encarregada da gestão do Iases. Ela garante: não há risco de que a menor quantidade de adolescentes apreendidos e internados represente um aumento nos índices de violência no Estado.

Da mesma forma, compara a secretária, a população carcerária do Espírito Santo (adultos) não cresceu de 2018 para 2019 e, mesmo assim, os homicídios dolosos no Estado caíram em 12% no mesmo período.

Em janeiro de 2019, havia mais de 22.864 detentos no sistema prisional capixaba, cuja taxa de ocupação estava em 165%. No encerramento do ano, eram 22.744 presos, ou seja, a massa carcerária se manteve praticamente no mesmo patamar.

Ainda assim, no ano inteiro, houve 978 assassinatos no Espírito Santo, contra 1.109 em 2018. Isso prova que a redução da taxa de homicídios não ocorreu por um aumento na taxa de encarceramento. "Os dados do sistema socioeducativo seguem a mesma lógica", amarra a secretária.

LIBERDADE ASSISTIDA E OUTRAS MEDIDAS ALTERNATIVAS

Quando Nara Borgo foi anunciada por Casagrande na pasta de Direitos Humanos em novembro de 2018, ela destacou a necessidade de se expandir a aplicação de medidas socioeducativas como a semiliberdade e a liberdade assistida, alternativas à internação de adolescentes em conflito com a lei (a qual, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, só deve ser adotada pela Justiça em último caso e só pode durar, no máximo, três anos).

Agora, segundo ela, a aplicação dessa filosofia é o que ajuda a entender o porquê da menor lotação do sistema: medida de internação, só em casos extremos. É o que Borgo chama de "internação qualificada".

Ela destaca como marco inaugural dessa mudança de mentalidade a decisão do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal (STF), em habeas corpus apresentado pela Defensoria Pública do Espírito Santo e acolhido por ele, em agosto de 2018. Na decisão, Fachin obrigou o governo estadual a libertar 241 internos da Uninorte, em Linhares, reduzindo para no máximo 119% a lotação da unidade, que abrigava mais que o dobro da sua capacidade máxima. "Esse habeas corpus hoje serve até de parâmetro nacional, e outros Estados já estão se baseando nele", conta a secretária.

Aliado à política de apreensão e de internação mais qualificadas, o governo intensificou um trabalho de acompanhamento do cumprimento da medida de internação, para que cada adolescente cumpra estritamente o tempo de internação estabelecido pela Justiça e seja liberado no prazo correto. "Nem um dia a mais", afirma Borgo.

A secretária também destaca o plano do governo Casagrande, com financiamento já garantido pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), de construir uma nova unidade de internação a partir deste ano, possivelmente ao lado da Unis (apontada, em 2017, pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, como palco de violação de direitos dos socioeducandos). "Não pode ser nos mesmos moldes de um presídio", resume.

Confira abaixo a entrevista completa de Nara Borgo: 

Secretária, o Espírito Santo encerrou 2019 com o número menor de adolescentes internados no sistema socioeducativo estadual, na comparação com 2018. Por que isso? As autoridades estão apreendendo menos infratores ou liberando mais internos das unidades?

É um conjunto de fatores, quando a gente pensa no sistema socioeducativo. A gente teve um habeas corpus impetrado pela Defensoria Pública que orienta nesse sentido da não internação, porque a medida de internação é a última medida no sistema socioeducativo. Então os juízes têm que respeitar esse habeas corpus, aplicar outras medidas e deixar a internação só para quando ela for indispensável.

Esse habeas corpus a que a senhora se refere é aquele que foi acolhido, em 2018, pelo ministro Edson Fachin, do STF, em decisão a respeito da Uninorte?

Sim. Ele foi acolhido e hoje serve até de parâmetro nacional, e outros Estados já estão se baseando nele. Isso deu um impacto no sistema porque agora outras medidas vêm sendo aplicadas, deixando a internação para cumprir mesmo o Estatuto da Criança e do Adolescente, que é só em último caso. Por outro lado, há essa união com o sistema de Justiça no sentido de verificar mesmo se o adolescente já cumpriu a medida, se ele está internado há mais tempo ou não. Então a gente foi fazendo com que o adolescente ficasse cumprindo estritamente o prazo da medida. E aí com isso a gente foi tendo essa liberação e esse número menor de adolescentes. Uma apreensão mais qualificada, com aplicação da medida de internação, mas também esse acompanhamento efetivo dos adolescentes que estão lá dentro, para que eles não fiquem nem um dia a mais do que o tempo estipulado pela Justiça e para que a medida seja cumprida de forma adequada.

Do ponto de vista do cidadão capixaba, apreensivo com toda essa violência urbana e essa sensação de insegurança pelas ruas: esse número menor de adolescentes infratores pode representar algum risco para a sociedade em termos de aumento de índices de criminalidade?

Não, porque os dados mostram que a gente não tem isso. Eu sei que a gente tem uma sensação de insegurança e que a sociedade tem medo. Às vezes a gente pega um caso emblemático, e esse caso fica massificado e cria esse medo. Quando a gente olha os dados, olha o número de adolescentes que passam nas delegacias ou até mesmo depois, no sistema penitenciário, vemos que, apesar de estarmos internando menos, não temos um número maior de adolescentes sendo apreendidos. Então quer dizer que a gente não tem esse aumento da violência. Esse número não bate. É como a gente também tem no sistema dos adultos, no sistema prisional do Espírito Santo: a gente está tendo uma redução de homicídios, apesar de o número de detentos não estar aumentando. Segue a mesma lógica.

E quanto à unidade socioeducativa que começa a ser construída em 2020? A senhora pode me falar um pouco sobre esse novo espaço? Será construído no local onde fica a Unis?

Estamos analisando os espaços e os terrenos. E essa é uma previsão de um contrato que o governo firmou algum tempo atrás com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), porque a estrutura atual da Unis está precária, então a gente precisa construir outra. A princípio estamos vendo um espaço próximo, no mesmo terreno, para a unidade ser construída nos moldes mesmo de uma unidade de internação, observando ali tudo o que a gente precisa ter para a manutenção de um adolescente, que não pode ser nos mesmos moldes de um presídio. Então a gente está ainda nessa fase de projeto.

Então não será no mesmo espaço hoje ocupado pela Unis, mas ao lado?

Pode ser que seja ao lado.

E, durante o período de execução da obra, os adolescentes que hoje estão na Unis continuam lá?

Continuam lá. A Unis está funcionando. A gente fez algumas melhorias nas unidades de internação. E, até ser construída a nova, eles permanecem lá.

E depois, com a nova unidade pronta, esses adolescentes que hoje estão na Unis serão transferidos para lá?

Serão transferidos para lá. Não é que serão abertas novas vagas. As pessoas perguntam muito: vocês vão abrir novas vagas? Não, a gente não precisa de novas vagas de internação, mas sim da qualificação desse ambiente.

Vitor Vogas

Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Pedro, Flamengo
Flamengo goleia o Vasco e se isola na liderança do Brasileiro a cinco rodadas do fim
Imagem de destaque
'Não há palavras pra descrever a dor': a mobilização de um vilarejo para ajudar vítimas de acidente de trem na Espanha
Imagem de destaque
Mais de uma tonelada de maconha é apreendida em apartamento de Vila Velha

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados

Fale com a gente

Escolha o canal de sua preferência para assinar A Gazeta ou tirar dúvidas.