MDB no ES: o apogeu, a queda brusca em 2018 e os desafios para 2020
O fim de um ciclo
MDB no ES: o apogeu, a queda brusca em 2018 e os desafios para 2020
Após anos de ascensão e glória, o MDB-ES foi do céu ao inferno nas últimas eleições. Em 2020, tem a chance de se recompor. Mas primeiro precisa reerguer-se dos escombros deixados pela guerra interna entre Lelo e Marcelino
Atravessando momento crítico em sua longa história no Espírito Santo, após o desempenho sofrível nas urnas em 2018, o MDB precisa urgentemente se reorganizar e se reerguer, começando pelas eleições municipais de 2020. Mas a polarização interna entre os grupos de Lelo Coimbra e de Marcelino Fraga, bem como a instabilidade política vivida pelo partido ao longo de todo este ano, não ajudam em nada no cumprimento dessa meta. Em junho estava marcada a convenção estadual para a escolha da nova direção executiva estadual. Não houve convenção alguma. Em novembro, aí sim, haveria finalmente a convenção. Novamente, acabou não ocorrendo, por decisão da direção nacional. Enquanto a pendência não se resolve, Lelo segue como presidente estadual do MDB, mas os dias de incerteza no partido adentrarão 2020.
Certo mesmo é que as eleições gerais de outubro do ano passado marcaram o fim de um ciclo de prosperidade para o MDB no Espírito Santo. Encerraram drasticamente uma fase triunfal em que o MDB foi o mais influente e eleitoralmente bem-sucedido partido do Estado. Um ciclo cujo marco inaugural foi o ingresso de Paulo Hartung na legenda, em 2005 – ironicamente, com o aval de Marcelino –, e que teve no ex-governador a grande referência do partido, ainda que sua liderança fosse sempre exercida a uma “distância asséptica” que ele, no estilo Paulo Hartung, fazia questão de manter do dia a dia partidário. Era aí que entrava Lelo. Na figura de Lelo, Hartung se fazia representar. E, por intermédio dele, liderava.
O sucesso do MDB-ES nesse ciclo 2005-2018 é incontestável e pode ser medido pelos números. Além de ter feito o governador do Estado em 2006 e 2014, com Hartung, o partido elegeu dois senadores: Ricardo Ferraço, em 2010 – com votação que, até hoje, é um recorde no Espírito Santo – e Rose de Freitas, em 2014. Nas últimas eleições municipais, em 2016, puxado pelo retorno de Hartung ao Palácio Anchieta, o MDB foi o partido que mais elegeu prefeitos no Espírito Santo: 16 (um em cada cinco cidades capixabas); hoje, tem quase 20.
Na Câmara Federal, o próprio Lelo desfilou nas urnas, emendando três vitórias consagradoras (2006; 2010; 2014). Em 2006, foi o candidato a deputado federal mais votado pelos capixabas, com 120.821 sufrágios. Durante o governo Temer (MDB), iniciado em 2016, chegou a ser o líder da maioria na Câmara Federal. Na Assembleia Legislativa, em 2014, o partido elegeu uma bancada de quatro deputados, a qual, no decorrer do mandato, multiplicou-se para a incrível marca de sete parlamentares: a certa altura da legislatura, o MDB chegou a responder, sozinho, por praticamente um quarto do plenário.
Bancada do MDB em momento da legislatura passada: Luzia Toledo, Marcelo Santos, Erick Musso, Hércules Silveira e José EsmeraldoCrédito: Assembleia Legislativa
QUANTO MAIOR A ALTURA, MAIOR A QUEDA: O BAQUE EM 2018
Aí veio 2018, soterrando esses dias de glória. O processo eleitoral do ano passado representou, para o MDB de Lelo, uma hecatombe processada em dois tempos – ambos, em outra grande ironia, ditados pelo maior aliado do presidente estadual do partido: o então governador Paulo Hartung. Em primeiro lugar, quando anunciou que não seria candidato à reeleição, no dia 9 de julho de 2018, a menos de um mês para o fechamento das chapas, Hartung pegou a todo o mundo político capixaba de surpresa, começando pelo próprio partido. Como não deixam dúvida as declarações de Lelo nos dias que se seguiram ao anúncio, ninguém no MDB (nem ele mesmo) recebeu aviso prévio sobre a decisão de Hartung. Só que Lelo havia feito todo o planejamento eleitoral contando com Hartung na cabeça da chapa majoritária.
Subitamente acéfalo e sem plano B para encarar as urnas, o MDB acabou levado por Lelo para a coligação da senadora Rose de Freitas, candidata a governadora após trocar o próprio MDB pelo Podemos. Mas a campanha de Rose ao governo foi altamente desorganizada e improvisada. Sem uma cabeça majoritária poderosa, as forças reunidas em torno de Rose se dispersaram e cada um tentou salvar-se como pôde, incluindo Lelo. Concentrando os recursos do fundo eleitoral do MDB-ES na própria candidatura, o presidente estadual do partido não conseguiu reeleger-se deputado federal. Sua votação, aliás, encolheu muito, passando daquela marca obtida em 2006 (120.821 votos) para menos da metade: 52.766 votos.
Mas não foi só Lelo quem perdeu tamanho eleitoral. O MDB-ES em geral atrofiou-se. Na Assembleia, o partido que chegou a somar sete deputados na legislatura passada só fez dois deputados para a atual: os veteraníssimos Hércules Silveira e José Esmeraldo – este, agora, apoiando a volta de Marcelino ao comando partidário.
O segundo golpe para completar o nocaute veio logo após o encerramento do pleito de 2018, com o anúncio da decisão de Hartung de se desfiliar do MDB, após 13 anos de simbiose benéfica para ambos. Isso após ter se afastado completamente do processo eleitoral e de não ter movido um dedo para ajudar nenhum de seus aliados históricos (Lelo incluído), como se a eleição fosse algo estranho a ele e como se nada tivesse a ver com nada daquilo ali.
Passado o baque, 2019 deveria ter sido, para o MDB capixaba, um ano de transição e de reflexão. Ano para o partido juntar os cacos e decidir para onde quer rumar deste ponto em diante. Mas as energias do partido foram consumidas com as disputas internas.
Com a reconfiguração de forças ditada pelas urnas em 2018, dificilmente o MDB voltará a concentrar a força que chegou a acumular num passado recente, mas pode começar a se recuperar. O partido encolheu, é verdade, e hoje carece de espaço na Grande Vitória, mas ainda é extremamente enraizado, haja vista, por exemplo, os seus quase 20 prefeitos espalhados por todo o interior.
O MDB ainda tem muitos prefeitos, sim, mas todos eles espalhados pelo interior do Estado (incluindo Guerino Zanon, em Linhares), nenhum na Grande Vitória. Na Câmara de Vitória, o partido não tem nenhum dos 15 vereadores. Na de Vila Velha, só um dos 17: Arnaldinho Borgo. Na da Serra, só um dos 23: Luiz Carlos Moreira; na de Cariacica, um dos 19: Edson Nogueira.
NINGUÉM NO CONGRESSO: “NUNCA ANTES NA HISTÓRIA”...
Hoje testemunhamos um fato histórico: pela primeira vez desde a fundação do partido, em 1966, o MDB do Espírito Santo não possui nenhum representante na bancada capixaba no Congresso Nacional, formada por três senadores e dez deputados federais.
É óbvio que nos anos 1980, com o Brasil recém-saído da ditadura, o país ainda vivia quase que um bipartidarismo, e o PMDB ainda era o guarda-chuva que abrigava políticos de várias tendências que lutaram pela redemocratização. Hoje, ao contrário, temos um quadro superpovoado por 32 partidos. De todo modo, a título de comparação, o quadro atual do MDB-ES (sem representação no Congresso) é muito diferente daquele de 1986, apogeu do partido no Estado.
Naquele ano, no primeiro pleito direto após o fim da ditadura militar, o PMDB-ES elegeu o governador (Max Mauro) e sete dos 10 deputados federais, que seriam constituintes em 1988, além de ter preenchido os dois cargos de senador em disputa, com Gerson Camata e João Calmon. Também do PMDB, José Ignácio já estava lá, eleito em 1982. Assim, por alguns anos, foram do PMDB os três senadores da bancada do Espírito Santo no Senado.
ADEUS, GRANDES FIGURAS
Como frisa o historiador Estilaque Ferreira, a trajetória do MDB no Espírito Santo está diretamente ligada a cinco líderes: Dirceu Cardoso, José Ignácio, Gerson Camata, Max Mauro e Paulo Hartung. “Na ausência de uma grande figura, o partido afundou no Espírito Santo”, constata.
Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.