Essa é a maior dúvida que permeia nos relacionamentos quando um parceiro é fetichista e o outro não, acompanhado da curiosidade, do medo de decepcionar e da pressão para satisfazer… até onde vai a vontade de agradar e onde começa a obrigação de ceder?
Em uma relação, é ótimo quando o casal consegue falar sobre desejos, fantasias e fetiches, essa conversa exige no mínimo confiança para acontecer e demonstra o grau de intimidade de ambos. Mas existe uma diferença importante entre ouvir/dialogar e experimentar, principalmente quando é algo novo porque há vontade de descobrir e medo de desagradar, uma linha bem tênue, mas vamos explicar.
“Se ele sente vontade, será que eu deveria experimentar?” Essa pergunta pode surgir quando alguém decide compartilhar com o parceiro uma fantasia ou um fetiche sexual. Para algumas pessoas, a revelação desperta curiosidade e aproxima o casal. Para outras, provoca insegurança, desconforto ou o receio de não ser suficiente para quem se ama.
O tema ganha relevância quando se observa o que a ciência tem investigado sobre a comunicação sexual. Um estudo publicado em 2025 no Journal of Sex Research, conduzido por pesquisadores das universidades britânicas Staffordshire e Nottingham Trent, analisou respostas de 287 participantes sobre a revelação e o ocultamento de fantasias sexuais.
Os resultados mostraram que 69,3% dos participantes já haviam compartilhado uma fantasia sexual em algum relacionamento. Outro achado chamou a atenção: as reações dos parceiros efetivamente relatadas eram frequentemente positivas, enquanto as respostas negativas eram mais comuns entre aquelas que os participantes imaginavam receber antes de revelar seus desejos.
Embora a pesquisa não seja exclusiva sobre fetiches nem represente necessariamente a população em geral, ela oferece uma pista importante: o medo do julgamento pode influenciar a decisão de falar — ou permanecer em silêncio — sobre a própria sexualidade.
Afinal o que é o fetiche? É quando envolve objetos, partes do corpo, roupas ou situações específicas associadas à excitação sexual, por exemplo, uma pessoa sente um desejo muito grande quando determinado objeto está inserido na relação ( sapato, tipo de roupa, acessório, lugar, etc.). Essas preferências não são necessariamente um problema clínico mas se a pessoa só consegue ter prazer com o fetiche ou quando há sofrimento significativo, prejuízo à vida da pessoa ou envolvimento de alguém sem consentimento, aí configura um transtorno.
Sabemos que curiosidade é diferente de obrigação, assim é a fantasia em relação ao fetiche. A pessoa pode sonhar, desejar ludicamente, fantasiar por exemplo uma relação sexual a três e não querer levar isso para a realidade, então não configura fetiche.
O fetiche quando compartilhado envolve negociação, e não uma lista de exigências a serem cumpridas. Uma pessoa pode sentir curiosidade, ter fantasias por determinada prática, precisar de tempo para pensar ou simplesmente não desejar experimentá-la. Todas essas respostas merecem respeito.
A Organização Mundial da Saúde associa a saúde sexual ao bem-estar físico, emocional, mental e social, destacando a importância de relações respeitosas e de experiências sexuais livres de coerção, discriminação e violência.
Um ponto importante a destacar é que “Agradar” pode se transformar em pressão e colocar toda uma relação em risco, principalmente se ambos ou um parceiro faz para evitar uma discussão, impedir uma traição ou provar amor. É um comportamentos realizado por medo das consequências da não realização e passa a determinar a decisão sexual, vale observar essa dinâmica do relacionamento.
Frases como “se você me amasse, faria isso” ou ameaças de buscar outra pessoa caso o pedido seja recusado transformam uma conversa sobre desejo em pressão. Nesses casos, o problema não está necessariamente no fetiche, mas na maneira como ele é apresentado e negociado.
Uma conversa saudável permite que ambos expressem vontades, receios e limites sem chantagem ou punição emocional. Também permite que o casal descubra que seus desejos não são idênticos — e que essa diferença não precisa representar uma ameaça à relação.
O primeiro passo para conversar sobre fetiche com a parceria é escolher um momento tranquilo, fora da situação sexual, para falar sobre o assunto. Perguntar o que aquela fantasia significa para ele ou ela e como pode ajudar a compreender seu interesse sem presumir que exista uma única explicação psicológica para ele.
Converse sem julgamentos: também é importante expressar os próprios sentimentos com clareza.
Não confunda amor com obrigação sexual: se houver interesse mútuo, o casal pode conversar sobre limites, segurança e condições para uma eventual experiência.
Se não houver interesse, a recusa deve ser respeitada. O diálogo pode continuar, mas a decisão de experimentar não deve ser obtida por insistência, constrangimento ou culpa.
Busque acolher e compreender o significado daquele desejo para o outro.
Procure ajuda profissional quando necessário.
No relacionamento o desejo de um não anula a liberdade do outro e por fim, a pergunta talvez não seja se você precisa experimentar o fetiche do parceiro para agradá-lo, mas se os dois conseguem conversar sobre aquilo que desejam sem que alguém precise abrir mão de si para manter a relação.
Porque intimidade não é fazer tudo o que o outro quer. É construir um espaço em que ambos possam expressar seus desejos e estabelecer seus limites com liberdade e respeito.
Caro leitor
Sirleide Stinguel é colunista de HZ. As opiniões, análises e recomendações expressas em seus textos são de sua exclusiva responsabilidade e não refletem, necessariamente, o posicionamento editorial de HZ ou da Rede Gazeta.