• Maria Sanz

    É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

Crônica: O tal limite

Publicado em 02/07/2023 às 07h00
Ficar sem celular

Outro dia ouvi alguém dizer que no futuro o acesso ao celular vai precisar ser controlado,. Crédito: Shutterstock

Antes de começar a leitura, proponho um exercício: deixe seu telefone de lado. Por um momento, tire-o da mesa ou guarde-o na gaveta. Não é preciso desligar, apenas colocá-lo em seu devido lugar – esclarecendo quem manda em quem, deve bastar.

Passei uns poucos dias sem celular e do alto da minha hipocrisia, venho compartilhar um sentimento: precisamos conversar.

Durante esse tempo apartada da tecnologia de bolso, me dei conta de que minha parca, porém valiosa, paz interior, se manteve preservada. Mais concisa, entende? De modo que decidi: daqui pra frente, eu vou mudar.

Você tá rindo né? Mas, veja, o propósito da vida é nada mais que descobrir (o propósito da vida)!

Como se jogássemos um jogo infinito, passando de fases, sem nunca chegar – porque a cada chegada um recomeço nos aguarda. E assim, vamos descobrindo, revelando, assumindo.

Nesse sentido, estamos a favor de uma força soberana (talvez cósmica) que nos faz seguir adiante com uma única garantia: evoluindo, evoluímos.

Mas e a tecnologia? Que força é essa que corre junto, ora ditando o ritmo, ora nos deixando perdidos. Aonde ela quer nos levar?

Que ferramenta é essa nos desafia? Nos convoca a ir além e encontrar novas saídas; nos estimula a replicar ideias (próprias e alheias); a acumular informações (fundamentais e inúteis), e atualizar a expressão de quem somos (a cada novo instante)?

Afinal, a que estamos servindo?

E mais, evoluir está mais para fluir com a corrente ou desafiar a correnteza?

Será natural deixar-se guiar por um aparelho portátil que acidentalmente amplia nossa complexidade e exacerba nossa sociabilidade?

Tenho pensado a respeito disso diariamente... Seja quando percebo que minha companhia está apenas parcialmente presente – porque seu olhar segue fixo na tela do telefone; seja quando sinto minha paz interior se esvaindo na medida em que rolo a barra do Instagram, por exemplo, e uma série de imagens desconexas me invadem como ondas, provocando rebuliços quânticos e cardíacos, quando não, tremor da âncora.

Para onde estamos indo?

Nota: outro dia ouvi alguém dizer que no futuro o acesso ao celular vai precisar ser controlado, exatamente como aconteceu com o cigarro – que na medida da evolução, passou de acessório charmoso a vilão.

Nem tudo que parece, é inofensivo. Neste ponto cabe um parêntese sobre o equilíbrio que, via de regra, é um retorno à esquerda, depois da linha do limite...

Discretamente, será que já estamos todos pedindo socorro? Praticando "mindfulness", ioga, meditação, como tentativa de minimizar a situação?

Intimamente pressinto que estamos quase lá... Irremediavelmente viciados numa tecnologia de bolso – poderosíssima – que tanto liberta quanto angustia.

Perceba, esta não é uma tentativa de dourar o passado, muito menos de julgar o papel da tecnologia. Estou falando basicamente de antecipar o limite. E reconhecer, cada qual na sua intimidade, o perigo de um habito-social-corrente, ou um mal-disfarçado-vício.

Ok, você bem pode achar que estou exagerando, mas é aquilo: esse espelho de mão multi-função, acessório sine qua non, diário vivo, vampiro energético, mina, amuleto, mapa, guia, ladrão de tempo, telefone portátil, agenda, câmera de tirar retrato, rádio, portal intergaláctico, banco, relógio, álbum de família, computador, e o diabo a quatro, não é exatamente um vilão. Mas bem pode ser.

(Só depende da nossa permissão).

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Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de HZ.

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