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Cotidiano

Crônica: Encruzilhadas

Dizem que somos uma enorme fábrica com várias máquinas diferentes, todas trabalhando em velocidades próprias. Mas, pensando bem, só essa teoria já seria suficiente para justificar as encruzilhadas que se apresentam em nossas vidas.

Publicado em 06 de Agosto de 2022 às 10:19

Publicado em 

06 ago 2022 às 10:19
Maria Sanz

Colunista

Maria Sanz

Crônica: Encruzilhadas
Crônica: Encruzilhadas Crédito: Pexels/Pixabay
Quero sair pra dançar com as amigas, mas quero dormir de conchinha; quero ir à praia, mas quero ficar aqui e escrever; quero tomar caipirinha, mas quero aquele vinho branco geladinho; quero ir pra Amazônia, mas não quero deixar de estar com meus filhos; quero espaguete à carbonara, mas penso na truta grelhada; quero ir ao cinema, mas quero ficar em casa; quero estudar piano, mas quero fazer aula de canto; quero ler Ouspensky, mas quero ficar na varanda jogando conversa fora; quero ter uma marca, mas quero encarar meu processo nas artes; quero dormir até tarde, mas quero ir patinar cedo no calçadão; quero te dar colo, mas quero cuidar de mim; quero ficar, mas quero ir; quero assim, assim, assim...
Dizem que somos uma enorme fábrica com várias máquinas diferentes, todas trabalhando em velocidades próprias, com combustíveis específicos e em direções únicas. Ou, sendo menos metafórica, dizem que há quatro seres independentes em nós, quatro mentes: instintiva, intelectual, motora e emocional. O centro instintivo, por exemplo, pode existir de maneira totalmente independente dos outros centros. O centro motor e o intelectual também podem existir sem o emocional. E assim por diante... (Um cadim complexo.)
Mas, pensando bem, só essa teoria já seria suficiente para justificar as encruzilhadas que se apresentam em nossas vidas. Algumas muito simples, como a dúvida entre pistache e doce de leite; outras sofisticadíssimas, como a da minha amiga, que quer se separar do marido, mas prefere ficar casada. Maiores ou menores, todas, questões recorrentes. Sabemos disso.
Encontramos a encruzilhada porque existe uma diferença entre como pensamos e como sentimos; como nos movemos e como reagimos.
Na verdade, é preciso alguma prática para distinguir pensamento e sentimento, por exemplo. Porque enquanto o sentimento indica a saída pela porta da cozinha, o pensamento aponta para o sofá da sala, e do lado de fora, no corpo, o que acontece é um estado de confusão, com pele eriçada e banho de lágrimas.
Às vezes falamos por falar, pensamos por pensar, queremos por querer, agimos por agir... De modo que é preciso algum esforço para 'fazer o falar', 'elaborar agir', 'distinguir o sentir', 'desenvolver o pensar', enfim.
Porque no instante em que queremos ir numa determinada direção e nossa emoção nos conduz para outro lugar, fica claro, por exemplo, que nossas emoções precisam desenvolver uma inteligência própria, um modo de controlar e praticar melhor suas expressões.
É mais ou menos assim, se o coração quer falar alto, melhor que ele tenha certeza do que dizer. E mais, melhor que seja robusto suficiente para saber como o fazer.
Se formos muito sucintos, é o seguinte, cada centro, ou cada máquina, se capacita na medida em que a fortalecemos.
Então, se centro intelectual é bom de comparação, e trabalha com afirmação x negação; e o instintivo é mais simples e se determina a partir do prazer x dor; e o emocional, o mais complexo deles, usa os parâmetros de agradável x desagradável (acessando padrões, memórias e o diabo à quatro); e o motor ou mecânico opera a partir de todos eles, então, o caminho é aprender a diferenciá-los. Só isso. Só que, obviamente, não é fácil... (Mas é possível, dizem).
Enfim, pessoalmente, fico com a intercessão. Moro no encontro entre as máquinas-mentes-centros que me compõe. Ora aceitando a alteridade, ora fazendo como os artistas: trabalhando com todos simultaneamente.
É, talvez eu seja: a guia da encruzilhada de mim mesma.

Maria Sanz

É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

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