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Cotidiano

Crônica: Quando me credencio ao serviço de ampliação do amor

Credenciar-se é sobretudo servir-se da linguagem, todas elas. Até aprender a criar a própria, para servir ao todo através dela

Publicado em 17 de Julho de 2022 às 02:00

Publicado em 

17 jul 2022 às 02:00
Maria Sanz

Colunista

Maria Sanz

Mulher livre
Até chegar na Aldeia Sagrada e abrir os olhos para o encantado Crédito: Freepik
Esse credenciamento é uma espécie de ritual (anual). Começa no encontro com outros credenciados, depois, no dia marcado, entramos na máquina que voa e cruzamos os céus até o ponto em que entramos na canoa, para navegar rio acima, contra-corrente, por nove horas seguidas. Até chegar na Aldeia Sagrada e abrir os olhos para o encantado.
E tem muito! Pra todo lado. Mas é sempre delicado.
Tem um bolo que chama Beléu; tem uma borboleta laranja e azul-perfeito que desfila quando se vê sendo vista; tem a postura do Bira, tem a fala do Bira e tem a bênção do cacique. Tem uma aranha marrom-claro aqui na mesa; tem o chá feito com capim do jardim; tem a aprendizagem da entrega; tem a energia solar; tem a alegria do encontro nessa tribo, nossa casa espiritual no meio da Floresta Amazônica.
Tem a pintura de jenipapo na cara, tem o Tawahu, tem o Mukavani, tem a Mukashahu, tem o Miller da Juliana, unidos em casa, encantados no amor; tem o Leandro, amigo do Perfeito, puro e leve; tem a Jú, emocionada e viva! Tem o Robson, realizando a glória; tem a Carol, realizando um sonho; tem o Perfeito Fortuna, que carrega a confiança e elegância do profundo; tem a Bel, em expansão; tem a Lelê, sua irmã, que é música pura; tem a Kasha, que já veio antes de chegar; tem o Guilherme, criado na tribo para aprender e ensinar no sutil; tem o Felipe voltando a sonhar… Tem a Tati num abraço; tem o Loloka, um portal; tem Waltinho, seguro do caminho; e tem eu também aqui. Ah, e tem a maestra, nossa árvore, Putany. 
São tantas portas e janelas e clareiras de acesso, que saber fazer bom uso delas é um treino da escuta do mistério. Porque tornar-se sutil para tocar o invisível é perceber que o relógio da floresta é o barulho; que certas luas inauguram um novo rumo; que dar passagem à miragem é ir além do vão pensamento; e ritualizar a aprendizagem é fruir a vida da forma mais intensa.
Credenciar-se é sobretudo servir-se da linguagem, todas elas. Até aprender a criar a própria, para servir ao todo através dela.
É também ser melodia, ser doce, ser água, ser rio, correnteza, ser arte, cor-poesia, virar conto, ser abraço e ser encontro. Sê aqui e sê agora, pequeno ou grande, sê. Assoprar e receber o sopro. Até se tornar referência da possibilidade de sonhar…
Fazer a inscrição com suavidade, com clareza, com leveza, com poesia, com canto, com dança, com beleza, é uma aprendizagem que vale a pena ser vivida. Mas pode causar vertigens, verdade seja dita.
Razão pela qual bem podemos ir usando paraquedas coloridos, chocalhos e guizos! Que é para experimentar a queda livre, seguida de um pouso sereno; a paixão do rio e o amor do ventre; e metamorfosear as vísceras do invisível, nos limites do nosso sustento. Cultivando a energia, praticando o treinamento!
Eis o credenciamento: conhecer-se até fazer paz consigo, para ter paz de dar ao espírito.
Finalmente, é preciso prescindir de entendimento para servir. Abrindo mão da lógica para admitir que, em sendo passageiros, nada começamos por aqui, por isso, nada concluiremos.
Mas ampliar, bem podemos.

Maria Sanz

É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

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