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Maria Sanz

A verdade do protagonista

Ora, somos todos protagonistas da própria vida, não? A bem da verdade, isso só não se confirma se estivermos vivendo no piloto automático... Por isso é preciso cuidado

Publicado em 18 de Junho de 2022 às 10:00

Publicado em 

18 jun 2022 às 10:00
Maria Sanz

Colunista

Maria Sanz

Toda história tem um personagem principal
Toda história tem um personagem principal Crédito: Pixabay
Toda história tem um personagem principal.
É aquele que faz a travessia. Ele encarna a jornada do herói, num movimento de saída da zona de conforto e avanço pelo desconhecido, para descobrir uma transformação em si, e na visão do todo.
Ora, somos todos protagonistas da própria vida, não?
A bem da verdade, isso só não se confirma se estivermos vivendo no piloto automático... Por isso é preciso cuidado.
Despertar é não só reconhecer a própria singularidade, como também colocar ela pra jogo. Marcar presença e propor a diferença que a gente veio fazer na transformação do contexto vigente, ainda que discretamente.
Mas este estado protagonista de que falo depende de alguma dose de autoconhecimento, ou maturidade, de alguma estrada... Porque leva tempo se libertar das dores do processo de tentativa e erro na adaptação ao contexto.
Mesmo porque na construção social em que vivemos, pagamos por isso um preço altíssimo... Aliás, além de tempo, gastamos energia nos escondendo, ou tentando ficar parecidos.
Até entender que a nossa própria singularidade é fundamental para o fortalecimento do grupo, da família, do casal ou da comunidade em que vivemos.
Falando nisso, atente, entrar na cena decisivamente tem sempre a ver com o amor. Verdade seja dita, toda transformação passa pela forma como nos relacionamos amorosamente, porque isso tem a ver com a forma que nos relacionamos com a própria vida.
E como na cultura em que vivemos as regras amorosas-sociais são bem marcadas, então a jornada do herói quase sempre envolve alguma descolonização, alguma ruptura do esquema.
Como a gente sabe, para cada gênero a cartilha é diferente: homens e mulheres seguem determinadas instruções ditadas subliminarmente pelo sistema.
Por exemplo, homens não só estão autorizados, como devem caçar; já as mulheres se deixam caçar, para depois nutrir e zelar pelo relacionamento.
Assim, homens se casam com a virilidade; mulheres se casam com o casamento.
De modo que é preciso autoconhecimento, verdade de protagonista e alguma coragem para alterar as regras desse jogo maluco.
Se não, qual outra forma de dizer a uma mulher que ela não precisa se manter numa relação tóxica para se manter digna, completa, casada? Como dizer ao homem que não é preciso seguir caçando desesperadamente, ferindo a si e aos outros, para se manter viril, em posse do totem de macho alfa?
Porque no roteiro vigente, ou na construção social em que vivemos, não raro a mulher está desautorizada a ficar sozinha; e homem proibido de estar com uma só.
(– Olha que loucura!)
Todo mundo sabe que esse desequilíbrio leva ao adoecimento, no mínimo. Ainda assim, muitos evitam o risco de assumir o protagonismo pra transformar o que seja.
Enfim, de um modo ou de outro estamos todos em busca de cura para nossas dores, uns com distrações e anestesias, outros abrindo novas trilhas – exatamente como um herói faria. A começar pela vida íntima. Pense nisso.
Descolonizar o amor, o prazer e o relacionamento, leva à libertação do pensamento. Ao despertar, para reconhecer e viver as rupturas e as reconstruções necessárias para habitar a vida no centro da cena: ocupando-a como uma casa ocupa o espaço. De verdade, tijolo a tijolo. Momento a momento.

Maria Sanz

É artista e escritora, e como observadora do cotidiano, usa toda sua essência criativa na busca de entender a si mesma e o outro. É usuária das medicinas da palavra, da música, das cores e da dança

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