Se um desavisado passasse sem olhar para o palco Sunset do Rock in Rio por volta das 19h desta segunda (7), poderia achar que ali estava um grande cantor americano de soul e R&B. Era na verdade Péricles, grande sambista brasileiro, que fez parecer seu o repertório de músicas da Motown.
O cantor fez uma apresentação inteira dedicada à clássica gravadora da música negra americana, de Stevie Wonder e Marvin Gaye a The Jackon 5. Ele foi uma das atrações do quarto dia do Rock in Rio 2026, que acontece no Parque Olímpico, no Rio de Janeiro, desde sexta (4), e tem no lineup Elton John, Gilberto Gil, Roupa Nova e Jon Batiste, entre outros.
Péricles subiu com uma capa estampada por rostos de artistas famosos da música negra americana, cobrindo um terno brilhante que depois ele revelou. Seguindo o conceito da homenagem, sua banda não tinha nada de samba, mas um baixo robusto, sopros e quatro backing vocals fazendo a cama para que sua voz brilhasse.
Apresentado por Zé Ricardo, curador do Rock in Rio, como "o rei da voz", Péricles fez jus à alcunha. Dedicou seu canto mais para o agudo que para o grave a incorporar as melodias sinuosas desse tipo de música a propósito, nada simples de se reproduzir.
Começou com "Aint No Mountain High Enough", gravada por Marvin Gaye e Diana Ross, e não parou mais. Vieram outras gravadas por Gaye, como "How Sweet It Is (To Be Loved by You)", "I Heard It Through the Grapevine", pelo Jackson 5, como "I Want You Back" e "I'll be There", pelo Temptations ("My Girl"), Smokey Robinson ("Cruisin") e por aí vai.
Completamente à vontade, Péricles distribuiu passinhos de dança, cumprimentou os românticos e incentivou quem queria se declarar a alguém. Também se dirigiu à plateia soltando termos em inglês do tipo "thank you" em português, obrigado e "come on" algo como "vamos lá".
O público lotou o palco Sunset, dançou, bateu palmas e curtiu o clima romântico que se instaurou na noite do Rio de Janeiro, inspirando os casais, abraçados até em meio às poças d'água. A chuva, que neste domingo já estava menor do que na véspera, parou de cair durante a apresentação.
Na segunda metade, a plateia já estava completamente ganha, admirando os falsetes de Péricles em "End of the Road" e o balanço sutil de "Let's Get it On". O sambista tirou onda em "For Once in My Life", de Stevie Wonder, botando óculos escuros no estilo do que o cantor americano costuma usar.
De Wonder, ele também cantou "Signed, Sealed, Delivered" e "Superstition". O repertório contou ainda com a dançante "Super Freak", de Rick James, "All Night Long", de Lionel Richie, e outra da banda que Michael Jackson integrou quando criança, a clássica "ABC".
Foi curioso ver Péricles cantar a música negra americana logo depois de Jon Batiste fazer o mesmo, de maneira totalmente diferente, no palco Mundo, o maior do Rock in Rio. O americano também tocou "Mas Que Nada", de Jorge Ben Jor, e "Chega de Saudades", conhecida com João Gilberto.
Se fosse um duelo, daria para dizer que Péricles venceu os dois empolgou mais que Batiste cantando a música negra americana, e também foi melhor no ofício de se aventurar na tradição de outro país. Na verdade, o brasileiro fez um dos melhores shows desta edição do Rock in Rio.