Entrar em um ônibus cheio de mulheres desconhecidas e colocar o pé na estrada rumo a um destino paradisíaco. Foi assim que eu, Aline Almeida, vivi dias diferentes em Porto Seguro, na Bahia, e, no meio dessa experiência leve e divertida, encontrei uma história potente de empreendedorismo feminino que merece ser contada.
Por isso, peço licença, caro leitor, para contar, através do meu olhar, de forma pessoal e sincera, essa viagem que ficará marcada na minha vida.
A viagem foi com uma excursão capixaba idealizada por Lívian Siqueira. Ela é professora de língua portuguesa e espanhola desde 2002, empreendedora por necessidade desde 2016 e, hoje, uma mulher que transformou a própria sobrecarga em propósito.
Antes do turismo, Livian já se virava como podia: vendia bijuterias, roupas e lingerie para complementar a renda depois de um período de desemprego. “Eu sempre acreditei que a gente vende melhor aquilo que conhece. E eu conhecia a realidade de muitas mulheres: sobrecarga, falta de tempo e a sensação de que a própria vida ficava sempre para depois".
Quando a experiência virou negócio
A ideia do turismo feminino nasceu em 2020. “Viajei com algumas amigas para Porto Seguro e recebi muitas mensagens nas redes sociais de outras colegas que também gostariam de estar viajando conosco. Foi ali que percebi o impacto daquele momento de liberdade”.
Então ela decidiu fazer com que outras mulheres sentissem o que ela sentiu: leveza, liberdade e autocuidado. Lívian transformou uma vivência pessoal em negócio.
A primeira viagem oficial aconteceu em 2021. De lá para cá, o projeto só cresceu: já são cerca de 250 mulheres impactadas diretamente pelas excursões, em um grupo que chegou à sexta edição nesta viagem que participei.
Novos destinos estão no radar, como Caraíva, Corumbau, Arraial d’Ajuda e até Itaúnas, no norte do Espírito Santo, conectando ainda mais o projeto com a identidade capixaba.
Mas o destaque não está apenas nos números, e sim no formato da proposta. As viagens são organizadas exclusivamente para mulheres, em grupos que priorizam a convivência, a troca de experiências e a sensação de segurança, fatores que aparecem com frequência entre as principais demandas do público feminino nesse tipo de turismo.
A gente esquece quem somos no meio de tantas obrigações. Nessas viagens, a mulher lembra do que gosta, do que sente, do que quer
Lívian Siqueira, empreendedora
Turismo feminino em alta
E esse tipo de viagem não é uma tendência apenas no Espírito Santo. O turismo feminino está em alta no Brasil e no mundo. Dados do Ministério do Turismo mostram que 41,8% das brasileiras já viajaram sozinhas, e 31,4% fazem isso com frequência. Ao mesmo tempo, o medo ainda é um fator decisivo: mais de 62% já desistiram de viajar por insegurança.
É nesse ponto que iniciativas como a de Livian ganham ainda mais relevância: elas não apenas acompanham a tendência, mas ajudam a destravar esse movimento.
Segundo relatórios internacionais, como o da Skift Research, as mulheres já são responsáveis por 82% das decisões de viagem no mundo e representam cerca de 64% dos viajantes globais.
Além disso, o número de empresas voltadas exclusivamente para o público feminino cresceu 230% nos últimos anos, um reflexo direto de uma demanda que não para de aumentar.
Empreendedorismo feminino no ES
No Espírito Santo, esse movimento acompanha outra transformação importante: o avanço do empreendedorismo feminino. De acordo com o levantamento de 2025 do Sebrae/ES, o estado conta atualmente com cerca de 195 mil mulheres empreendedoras, número que representa aproximadamente um em cada três empreendedores capixabas.
Para a gerente de Relacionamento Institucional do Sebrae/ES, Alline Zanoni, o dado reforça a força da presença feminina nos pequenos negócios.
O empreendedorismo tem sido, para muitas mulheres, uma alternativa de autonomia, geração de renda e realização profissional
Aline Zanoni, gernete do Sebrae/ES
Dentro desse cenário, o Sebrae/ES afirma que vem ampliando ações voltadas ao fortalecimento dos negócios liderados por mulheres. Entre as iniciativas está o Sebrae Delas, programa focado em capacitação, mentorias, orientação para acesso ao crédito, eventos de conexão e ações de visibilidade.
“As ações são pensadas a partir das realidades dos territórios e dos desafios mais comuns enfrentados pelas empreendedoras, como gestão financeira, vendas, liderança, marketing digital, planejamento, acesso a crédito, autoconfiança e posicionamento de mercado”, explica Alline.
O crescimento do turismo feminino também representa uma oportunidade estratégica para o mercado capixaba. “O crescimento das viagens femininas, sejam solo ou em grupos, mostra que as mulheres estão buscando mais autonomia, experiências significativas, conexão e principalmente segurança”, pontua Alline.
Ela cita ainda uma pesquisa do Ministério do Turismo e da Unesco que aponta que quatro em cada dez brasileiras já viajaram sozinhas, tendo a segurança e a liberdade de escolha como fatores centrais na decisão da viagem.
Na avaliação da gerente, esse comportamento abre novas possibilidades para os pequenos negócios do turismo. “Isso cria espaço para produtos e serviços mais preparados para acolher esse público, como roteiros em grupo para mulheres, experiências culturais, gastronômicas, de bem-estar e ecoturismo”, afirma.
Muitas dessas empreendedoras começam seus negócios por necessidade, mas evoluem para iniciativas com impacto social, assim como foi com Livian. E foi exatamente esse impacto que eu senti na prática.
A viagem foi um encontro de diferentes histórias: mulheres solteiras, casadas, mães, mulheres sem filhos, jovens, idosas, de diferentes religiões e de várias cidades do Espírito Santo. Mesmo tão diferentes, todas tinham em comum o desejo de se divertirem, de pausar a rotina e olhar para si.
Viajei sem companhia, mas entre mulheres não me senti sozinha. Dançamos, cantamos, fomos à praia, fizemos passeio de barco e até nos aventuramos andando de quadriciclo. Não me preocupei com a roupa que eu iria usar ou com julgamentos em relação ao meu corpo.
Dados da Skift Research revelam que é exatamente essa segurança que as mulheres procuram quando buscam viagens em excursões exclusivamente femininas.
“Eu hoje empreendo para mulheres. Este ano estamos expandindo pois quero que mais mulheres saibam que não estão sozinhas e que viajar pode ser um passo para se libertarem de muitas amarras”, conclui Lívian.
No fim das contas, essa não foi só uma viagem. Foi uma experiência que mostra o poder da união feminina e uma lembrança de que mulheres podem estar onde elas quiserem.
* A repórter viajou a convite da "Patroas na Estrada"