Silvana Araújo aprendeu cedo o tino para os negócios. Negra, com ensino médio completo e filha de pais nordestinos, ela desafiou as estatísticas: hoje comanda um negócio com quase 30 funcionários e que deve faturar, só em 2026, 50 milhões de reais.
Dados do empreendedorismo negro
Estampas afro
Desistir não é opção
A especialista em diversidade, equidade e inclusão, Josy Santos, explica que o empreendedorismo negro é o conjunto de iniciativas lideradas por pessoas pretas ou pardas que, além de gerar renda, atua como instrumento de autonomia, reparação histórica e fortalecimento cultural.
Josy explica que criar oportunidades para empreendedores negros é fundamental para reduzir desigualdades históricas e ampliar a diversidade econômica. Segundo o IBGE, embora representem 56% da população, pessoas negras ainda concentram os menores rendimentos do país. Dados da Pnad e do Sebrae reforçam esse cenário, mostrando que empreendedores negros faturam menos que os brancos e estão mais vulneráveis à informalidade.
Estudos mostram que o chamado mercado afro-brasileiro movimenta mais de R$ 1,7 trilhão por ano no país, segundo levantamento do Instituto Locomotiva e do Data Favela — uma potência econômica que reafirma o papel central da população negra no consumo nacional.
O empreendedorismo negro consolida-se como uma agenda estratégica para o futuro da economia brasileira. "Cada vez mais, vemos surgir uma nova geração de empreendedores na moda, beleza, tecnologia e economia criativa, criando marcas com identidade, inovação e propósito", destaca Josy Santos.
Foi o que fez o empreendedor Allan Sales, de 38 anos. Natural de Duque de Caxias e criado por mãe solo, ele cresceu observando o universo das bolsas: sua mãe trabalhava no setor de acabamento da Vitor Hugo, grife que era verdadeiro objeto de desejo nos anos 1990. "A gente vivia uma questão de escassez muito grande. Obviamente minha mãe conseguia comprar as coisas do dia a dia, mas não sobrava para muito mais", lembra.
O tempo passou e, aos 18 anos, ele chegou ao Espírito Santo. Iniciou o curso de Publicidade e Propaganda e conquistou um estágio no extinto Museu Vale, em Vila Velha. Ali, o horizonte se expandiu. "Comecei a me relacionar com artistas como Regina Chulam e Vik Muniz. Foi então que, de fato, minha cabeça se voltou para o universo artístico", conta.
Em 2015, ele se reconectou com o universo materno e despertou sua faceta empreendedora. Começou dando dicas de estilo até fundar a Black Boo, marca de bolsas com pegada urbana. "Só que eu não sabia costurar", lembra, rindo. Com pouco mais de R$ 200, ele comprava ecobags e estampas, pagando uma empresa para realizar a sublimação (técnica de transferência de imagem para o tecido).
"Comecei a fazer bolsas personalizadas, mas faltava um corte diferente. Como não tinha dinheiro, ou eu aprendia a costurar ou a marca não sobrevivia. Uma amiga me doou uma máquina e aprendi sozinho. Costurava dia e noite. Minha ideia sempre foi criar um acessório com uma estética que pudesse transitar por diferentes gerações", conta.
A marca já era conhecida, as bolsas faziam sucesso e Allan criava cada vez mais. Até que o ciclo foi interrompido. "Surgiu a oportunidade de uma parceria com investidores, um universo que eu não conhecia. No segundo ano, a cobrança pelo resultado financeiro tornou-se esmagadora e o negócio não resistiu. A marca fechou". Ele avalia que faltou paciência para consolidar uma identidade tão singular. "Fiquei sem paz para trabalhar. Tive que pausar a Black Boo".
Allan está recomeçando com uma nova proposta, desta vez no vestuário. 'Por enquanto, não vou produzir as roupas do zero; vou comprar os itens e aplicar meu trabalho de personalização. Haverá minha autoria na curadoria, mas pretendo, em breve, assumir todo o desenvolvimento. Vou mesclar o streetwear com a alfaiataria".
O novo portfólio terá calças, camisas e cintos, vendidos por e-commerce e em seu ateliê. O empreendedor deseja transformar vidas por meio de sua arte. "Tenho o sonho de criar um instituto criativo onde eu consiga mostrar um novo prisma para a juventude", planeja.
Afroempreendedorismo
Os termos empreendedorismo negro e afroempreendedorismo são conceitos próximos e, frequentemente, usados como sinônimos. Ambos referem-se ao protagonismo de pessoas pretas e pardas na liderança de negócios, unindo geração de renda e identidade.
No entanto, o termo afroempreendedorismo costuma enfatizar também a valorização da identidade, da cultura e da estética afro-brasileira nos negócios. Isso aparece com força em setores da economia criativa - como moda, beleza, gastronomia e artes -, nos quais produtos e serviços dialogam diretamente com a representatividade.
Essa explosão de cores e de protagonismo pode ser vista nos tecidos que colorem as ruas da Grande Vitória. "Meu turbante é a minha coroa. Usar o acessório é um gesto de identidade e cuidado", define Márcia Bispo. Ao perceber o valor simbólico da peça, ela transformou a importância do acessório em uma oportunidade de negócio.
Começou, em 2025, vendendo turbantes pelas redes sociais e logo passou a expor em feiras de moda. "Emprestei peças para cantoras, ensinei outras mulheres a usarem o acessório e entrei de vez no mercado. Quando fui para a rua, o negócio começou a crescer", lembra.
O ofício de amarrar os turbantes foi herança da mãe. A veia comercial, porém, veio da Bahia. "Com as minhas tias, que trabalham com o acessório no Pelourinho, em Salvador, aprendi o empreendedorismo. Vi que era possível ganhar dinheiro e ter sucesso com a nossa cultura", revela.
A marca Afrobispo nasceu com um investimento inicial de R$ 5 mil. "É a minha expressão e o meu jeito de transformar ancestralidade em estilo. Sou turbanteira: compro os tecidos e crio as amarrações de acordo com o formato de rosto de cada cliente", explica.
Aos finais de semana, ela monta sua barraca em feiras de Guarapari, Vila Velha e Vitória. "No Centro da Capital, vendo muito bem. Hoje, tenho capacidade para comprar mais tecidos e pagar alguém para me ajudar em grandes eventos", conta Márcia, que acaba de lançar uma linha de chapéus inspirada em entidades de matriz africana.
Seu público é composto, majoritariamente, por mulheres que enxergam no acessório um poder de afirmação. "Atraio pessoas com a negritude afirmada. Elas sabem que não vestem apenas um acessório, usam a ancestralidade", diz Márcia, que planeja financiar um veículo maior, já que o atual tornou-se pequeno para tantas demandas.
Acessórios que são o poder
Força econômica
Gabriela Duque, especialista em Comunicação de Impacto, Empreendedorismo Periférico e ESG, explica que, historicamente, pessoas negras tiveram menos acesso à terra, ao crédito, à educação financeira e às redes de poder. "Mesmo assim, sempre empreenderam - seja nas feiras ou nos setores de beleza, moda, gastronomia e serviços", pontua.
"O empreendedorismo negro nasce dessa capacidade de transformar poucos recursos em solução, de buscar a sobrevivência e de monetizar a resolução de problemas do cotidiano. É criatividade, inovação e inteligência de território", define Gabriela.
Ela explica que o afroempreendedorismo também está intrinsecamente ligado à valorização da cultura negra e à circulação de riqueza dentro da própria comunidade. É o que se convencionou chamar de "Black Money": uma estratégia de fortalecimento econômico baseada no consumo consciente e no apoio mútuo entre pessoas negras.
Gabriela reforça que, quando o afroempreendedor tem acesso a capital, formação e mercado, o impacto vai muito além do indivíduo. "Eles geram empregos em territórios periféricos, fortalecem economias locais e criam novas referências de sucesso. É a construção de um futuro mais inclusivo para as próximas gerações. A economia criativa, especialmente nas áreas de moda e beleza, é o maior exemplo dessa transformação", conclui.
O empreendedorismo negro é uma engrenagem vital, representando aproximadamente 20% do PIB nacional. "Apesar dessa relevância, estudos do Sebrae mostram que o empreendedor negro, em média, inicia seu negócio com um investimento menor do que o branco e enfrenta mais barreiras no acesso ao crédito", alerta a especialista.
Na prática, isso significa que muitas ideias promissoras crescem em ritmo lento ou acabam ficando pelo caminho. "O dinheiro circula pelas mãos dessas pessoas e movimenta a economia, mas, muitas vezes, não permanece para gerar capital, riqueza e crescimento sustentável", observa Gabriela Duque.
Dificuldade de acesso ao crédito
Um estudo do Sebrae, baseado na PNAD Contínua, detalha os abismos que o afroempreendedorismo ainda enfrenta, como a dificuldade de acesso a crédito, onde apenas 26% desse público consegue empréstimos nas instituições bancárias; a falta de rede de apoio, principalmente as mulheres e, a falta de acesso a novos mercados o que culmina num baixo faturamento – mulheres negras faturam menos 48% a menos do que mulheres brancas e 61% a menos que homens brancos.
Fau Ferreira explica que a dificuldade ao crédito se deve a dois fatores básicos: a falta de garantias e de documentações específicas exigidas pelos bancos. "Embora seja difícil de comprovar oficialmente, sabe-se que o CEP de residência é um critério silencioso de avaliação que prejudica esse público, visto que 80% dos empreendedores negros moram em periferias ou comunidades", alerta.
A especialista observa que o empreendedor negro costuma iniciar o negócio com os recursos que tem em mãos, focando na entrega imediata de um produto ou serviço. "Com o andamento do negócio é necessário parar e construir um planejamento estratégico analisando o negócio e construir ações para alcançar os objetivos. Também é preciso construir uma boa relação com os clientes".
Vencendo o racismo
O negócio de Heberth Portilla, de 30 anos, começou pequeno, mas hoje ostenta um portfólio de estrelas. Suas peças ganharam o Brasil em figurinos assinados para artistas como Anitta, Ludmilla, Luísa Sonza, Pabllo Vittar, Marina Sena, Liniker e Luedji Luna. “Tudo começou quando vesti a Lia Clark, que me abriu portas para muitas coisas. Passei a assinar vários figurinos”. Recentemente, expandiu fronteiras ao colaborar com a estrela colombiana Karol G em um projeto para a NFL, onde foi responsável pelo visual de mais de 80 bailarinos e músicos. "Foi uma experiência extremamente enriquecedora e desafiadora, que marcou minha trajetória".
A moda sempre foi o norte de Heberth Portilla, 30 anos. Natural da Bahia e filho de um enfermeiro e de uma feirante, ele cresceu fascinado pelos desfiles que via na televisão. O sonho das telas tornou-se realidade aos 18 anos, quando se mudou para Vitória. “Antes da moda, fui estagiário de telemarketing no Banco do Brasil”, recorda. Após cursar a faculdade, Heberth mergulhou em uma criação que classifica como agênero e fora dos padrões, fundando a marca autoral que leva o seu nome.
“É uma marca que transborda a vontade de se comunicar, porque cada peça carrega identidade e intenção. É uma proposta autêntica, que foge do clichê e busca se destacar pela originalidade e pela forma como se conecta com as pessoas”, descreve. O estilista trabalha com malharia, especialmente a lycra, pela versatilidade, conforto e alto potencial de modelagem. "Não atuo diretamente na costura, pois meu foco está no processo criativo. Gosto de idealizar os looks, desenhar, pesquisar materiais e desenvolver os conceitos das coleções", explica.
Heberth começou o negócio com pouco dinheiro. "Não recordo o valor exato, pois tudo foi construído aos poucos e sob muitas dificuldades. Mas lembro que, para desenvolver minha primeira coleção, eu tinha cerca de R$ 300,00. Foi um desafio imenso", revela. Apesar do orçamento restrito, ele nunca recorreu a financiamentos ou crédito externo. "Sempre administrei a marca sozinho. Isso trouxe obstáculos, mas me ensinou a ser resiliente e a valorizar cada conquista ao longo do caminho", afirma o estilista.
Apesar do sucesso global, Heberth conhece de perto as barreiras de ser um estilista preto em um mercado dominado por brancos. “A indústria da moda ainda é extremamente desigual e racista; muitas vezes, o que prevalece não é o talento, mas o acesso. Para nós, empreender exige o dobro de esforço e resiliência. É uma realidade que, por vezes, beira o desânimo”, desabafa. Ainda assim, ele persiste com um propósito maior: inspirar outros a acreditarem na própria criatividade e provar que é possível construir algo autêntico e relevante, mesmo começando do zero e sem recursos.
A importância da capacitação
Lisandra Carneiro, gestora de afroempreendedorismo no Sebrae/ES, reforça que criar oportunidades específicas para esse público é uma questão de justiça econômica. "O empreendedor negro já possui uma presença expressiva no mercado brasileiro, mas ainda enfrenta desigualdades estruturais profundas, especialmente em renda, formalização e acesso a novas oportunidades", destaca.
Lisandra reforça que esse cenário cria um efeito dominó que dificulta drasticamente o acesso ao crédito, atração de investimentos e, consequentemente, a expansão do negócio.
Nesse cenário, torna-se vital impulsionar o afroempreendedorismo por meio de capacitação, consultorias e apoio à formalização. No Espírito Santo, essa estratégia ganha força com o Programa Plural, iniciativa do Sebrae/ES focada na inclusão produtiva e na equidade. O programa é voltado ao fortalecimento de públicos historicamente sub-representados, como a população negra, mulheres, pessoas LGBTQIA+, empreendedores 60+ e aqueles em contextos de maior vulnerabilidade social.
"Também se conecta a iniciativas como o Sebrae Delas e a novas trilhas específicas, a exemplo do projeto Negócio de Preta, desenhado especificamente para o fortalecimento de afroempreendedoras. No Espírito Santo, a capilaridade desse apoio é evidente: os dados mostram que uma em cada quatro empresas lideradas por mulheres recebeu suporte do Sebrae em 2025", explica Lisandra.
A gestora ressalta que o fortalecimento institucional é o diferencial para que ideias se transformem em negócios sustentáveis. "O apoio das instituições reduz as distâncias de acesso à informação, ao mercado e à orientação estratégica. Os dados mostram que muitos empreendimentos negros ainda operam em estruturas frágeis; por isso, ter um ambiente que acolha e crie oportunidades concretas é decisivo para transformar potencial represado em crescimento real", defende Lisandra.
No Espírito Santo, esse papel é ainda mais importante quando se considera que as empreendedoras negras já representam uma parcela muito relevante do empreendedorismo feminino no estado.
Ela deu a volta por cima
Outro exemplo de força no mercado capixaba é Jaqueline Serafim dos Santos. Para ela, a trajetória no empreendedorismo exigiu mais do que talento: foi necessária uma dose extra de persistência para que o negócio rompesse as barreiras iniciais e prosperasse.
Criada no Bairro da Penha, em Vitória, Jaqueline cresceu acompanhando o ofício de uma tia, que atuava como cabeleireira em casa. "Aos 14 anos, comecei a ser ajudante dela na aplicação de tranças. Foram três anos de aprendizado inicial", recorda.
Antes de se consolidar, Jaqueline buscou diversas frentes: vendeu bolsas e acessórios e trabalhou como diarista. Em um momento de vulnerabilidade, acabou envolvida com o tráfico de drogas, o que a levou a ficar presa por três anos e quatro meses. "Foi um período duro, mas de profundo amadurecimento. Sofri perdas irreparáveis; vi meu único filho entrar em depressão pela minha ausência e precisei enterrar minha mãe algemada", relembra.
Ao conquistar a liberdade, Jaqueline decidiu que era hora de reconstruir sua história. Começou vendendo quentinhas e bolos, mas foi no ramo da beleza que reencontrou seu propósito. Com um empréstimo de R$ 10 mil feito por uma amiga, fundou o Black Girls Ateliê. Sem recursos para um ponto comercial, a estratégia foi a inteligência doméstica: "Investi tudo em materiais e poltronas. O negócio nasceu na sala de casa", recorda.
Atualmente, o salão ocupa um ponto comercial na Ilha de Monte Belo, em Vitória, onde Jaqueline atende uma média de quatro clientes por dia. No catálogo, as tranças são o carro-chefe: da nagô às box braids, passando pelo entrelace e as modernas knotless braids com cachos. Mais do que um salão, o espaço tornou-se um refúgio de valorização da estética afro, ajudando mulheres a resgatarem a autoestima e a assumirem seus cabelos.
Ao longo dos anos, Jaqueline investiu em capacitação, fez cursos de empreendedorismo e aprendeu a administrar o próprio negócio. "Meu grande sonho agora é adquirir um imóvel comercial e conquistar a independência do aluguel", projeta ela, que hoje compartilha sua trajetória com orgulho. "Fui persistente, não desisti".