Tem moda com gostinho capixaba chegando a Paris. O estilista Caio Mota apresenta, nesta segunda-feira (28), a coleção “Fantasmagórica” na 3ª edição da Runway Vision Paris, que acontece paralelamente à Paris Fashion Week. Depois de desfilar na versão brasileira do evento, no Rio de Janeiro, e vestir artistas como IZA, Anitta e Marina Sena, o goiano capixaba de coração desembarca na França para apresentar criações que levou dois meses para desenvolver.
E o Espírito Santo também vai estar presente nessa jornada internacional. Com uma história de amor com o estado, Caio conversou com HZ sobre sua relação com o Espírito Santo, os bastidores da nova coleção e os caminhos da moda brasileira.
Nascido em uma fazenda no interior de Goiás, o estilista se consolidou como um dos nomes criativos da nova geração da moda brasileira. Mas foi no Espírito Santo que parte importante de sua história ganhou novos contornos.
Caio chegou ao estado em 2014, inicialmente para uma viagem com amigas a Vitória e para fazer uma tatuagem que já estava marcada. O que seria apenas uma passagem acabou mudando seus planos. “Vim pela tatuagem e fiquei pelo tatuador”, brinca o estilista, que acabou trocando Goiás pelo Espírito Santo e fazendo da capital capixaba sua casa.
Foi aqui que conheci meu companheiro, o artista Cássio Magne com quem estou há quase 14 anos. Em 2015, abrimos juntos a Laputamadre, em Jardim da Penha. O espaço reunia nossos estúdios: tatuagem, camarim e vintage shop. Fechamos durante a pandemia, mas lembramos com muito carinho dessa fase
Ele também conta que o ES representou para ele lugar de encontros, experimentação e muita liberdade criativa durante esse período. Para Caio, o Espírito Santo é definido pelas pessoas que conheceu aqui e pelo espaço que encontrou para desenvolver seu trabalho.
“Fantasmagórica” é o nome da coleção que o artista vai apresentar em Paris. Essas peças fazem parte do seu primeiro desfile autoral, que Caio fez na Runway Vision Rio, que aconteceu ainda neste mês, nos dias 16 e 17. Por mais que seja seu primeiro desfile como estilista, as peças desfiladas vêm de um acervo construído ao longo de mais de 20 anos.
Ele conta que o nome da coleção veio por inspiração das memórias marcantes de sua trajetória como artista, principalmente as que envolvem mulheres de sua vida. Como uma homenagem a elas.
A coleção nasce de uma homenagem, sobretudo, às mulheres. Da minha família, às que me ensinaram e me inspiraram ao longo da vida, e também às divas que sempre admirei. Gosto de imaginá-las como deusas, cada uma com sua força e sua forma de ocupar o mundo
O goiano também conta que as memórias aparecem nas diferentes fases de pesquisa para a coleção, desde os materiais que descobriu, nas formas que construiu e nos conceitos que surgiram em cada momento. Para ele, “Fantasmagórica” é feita de camadas, assim como sua própria vida, misturando elementos naturais a outros tipos, criaturas reais ou imaginadas e referências ao surrealismo.
Falando em coisas “naturais”, Caio antes mesmo de levar sua arte para os tapetes de Paris, já vinha ganhando destaque nacional por vestir grandes artistas, sendo uma delas, Marina Sena. Uma das características mais marcantes dessa era “Coisas Naturais” da cantora (álbum lançado em 2025), são as roupas estilizadas pelo artista com imponentes joias e bijuterias que dão ao “look” um tom místico e mitológico.
E sua paixão pela moda maximalista não é de agora. Na infância, ele sempre admirou pessoas que sabiam se expressar de forma exagerada (no bom sentido), sendo sua tia uma dessas mulheres, que inclusive deu o tema da coleção.
Ele descreveu o estilo dela como o clássico da moda “perua” (marcado pelo excesso de cores, acessórios, mescla de estampas, volume…), e que foi justamente da admiração das roupas de sua tia que ele passou a entender que esse tipo representava “liberdade, amor-próprio, se preocupar mais com quem você é e com quem deseja se tornar do que com o olhar dos outros”.
Pérolas, contas, cristais, metais e elementos que poderiam parecer comuns ganham outra presença quando se encontram. Para mim, adornar o corpo é uma forma de contar uma história e afirmar uma identidade
Depois de apresentar seu primeiro desfile autoral, e já estar vestindo celebridades, Caio Mota desembarca em Paris para sua primeira exibição internacional. Ele conta que sente muito orgulho de poder levar sua arte para um dos berços da moda, e espera que as pessoas se surpreendam com a presença das peças e se aproximem dos detalhes.
Para o futuro, Caio conta que gostaria que as pessoas olhassem com mais atenção para os criadores de arte que estão perto delas. Em sua visão, com a valorização apenas do que vem de fora, os brasileiros deixam de conhecer artistas e artesãos que desenvolvem trabalhos extraordinários aqui no nosso país.
“Uma peça feita à mão carrega pesquisa, técnica, tempo e as escolhas de quem a criou. Isso tem muito valor. Quando alguém escolhe o trabalho de um criador independente, também abre espaço para uma expressão mais pessoal: algo que pode dialogar com sua história, seu corpo e sua maneira única de estar no mundo”.