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Globo de Ouro pode coroar o Brasil com Wagner Moura em esquenta para o Oscar

'O Agente Secreto' concorre em três categorias da premiação

Publicado em 10 de janeiro de 2026 às 14:30

'O Agente Secreto' é um thriller ambientado no Brasil de 1977. Na trama, Marcelo (Wagner Moura) é um especialista em tecnologia que foge de um passado misterioso e volta ao Recife em busca de paz.
'O Agente Secreto' é um thriller ambientado no Brasil de 1977. Na trama, Marcelo (Wagner Moura) é um especialista em tecnologia que foge de um passado misterioso e volta ao Recife em busca de paz. Crédito: Victor Jucá

Foi com certo espanto que Kleber Mendonça Filho recebeu o troféu de melhor filme estrangeiro no Critics Choice Awards, no domingo passado (4). Fora do palco, a entrevistadora do canal E! interrompeu uma conversa com o cineasta no tapete vermelho e deu a estatueta ali mesmo, pouco antes de chamar os comerciais. O episódio repercutiu mal nas redes sociais, não só no Brasil, e foi justificado pelo evento como uma tentativa de enxugar a transmissão.

Apesar do embaraço, o prêmio foi mais uma prova da campanha efetiva de "O Agente Secreto" até agora, neste início da temporada de premiações. Neste domingo (11), o filme concorre a três categorias na 83ª edição do Globo de Ouro —um recorde para produções brasileiras nessa importante vitrine para alavancar sua possível indicação ao Oscar.

Pela primeira vez, o Brasil concorre na prestigiada categoria de melhor filme de drama. "O Agente Secreto" disputa ao lado de produções hollywoodianas orçadas em dezenas de milhões de dólares, como "Hamnet - A Vida Antes de Hamlet", "Pecadores" e "Frankenstein".

O longa brasileiro ainda sucede "Ainda Estou Aqui" na briga de melhor filme em língua não inglesa. A produção de Walter Salles, protagonizada por Fernanda Torres, não levou o troféu no ano passado, quando perdeu para o polêmica "Emilia Pérez". Se triunfar, "O Agente Secreto" será o segundo filme brasileiro a levar para casa essa estatueta, feito alcançado apenas em 1999, por "Central do Brasil", também de Salles —"Orfeu Negro", coroado em 1960, competiu pela França.

Não foi a derrota de "Ainda Estou Aqui", porém, que ficou marcada na memória dos brasileiros como saldo do último Globo de Ouro, e, sim, a coroação de Fernanda Torres. Ela superou estrelas como Angelina Jolie, Nicole Kidman e Kate Winslet e se tornou a primeira brasileira eleita melhor atriz de drama na premiação, décadas após a indicação de sua mãe, Fernanda Montenegro. Agora, a expectativa é que Wagner Moura repita a dose.

Ele concorre com Michael B. Jordan, que tem um papel duplo em "Pecadores" ao encarnar os gêmeos Elijah e Elias, e com Oscar Isaac, o egocêntrico Dr. Frankenstein na adaptação do clássico gótico por Guillermo Del Toro. Estão na disputa também Dwayne Johnson, o The Rock, por "Coração de Lutador", Jeremy Allen White, que vive o roqueiro Bruce Springsteen na cinebiografia do músico e Joel Edgerton por "Sonhos de Trem".

A vantagem de Moura é que, desta vez, os nomes mais fortes da temporada brigam pela estatueta de melhor ator em comédia ou musical. Timothée Chalamet e Leonardo DiCaprio, estrelas dos celebrados "Marty Supreme" e "Uma Batalha Após a Outra" devem se digladiar pelo troféu, para o qual também foram indicados George Clooney, por "Jay Kelly", Ethan Hawke, por "Blue Moon", Jesse Plemons, por "Bugonia", e o sul-coreano Lee Byung Hun, por "A Única Saída". Todos fora do caminho do brasileiro.

O baiano tem outra carta na manga. Diferente de Torres —que antes de "Ainda Estou Aqui" era quase uma desconhecida em Hollywood—, Moura mora em Los Angeles há alguns anos. Já estrelou filmes americanos como a animação "O Gato de Botas", em que fez a sombria voz do Lobo, ou "Guerra Civil", do descolado estúdio A24, que teve grande repercussão há dois anos.

Em paralelo, no último ano, chamou atenção pelo trabalho como ator coadjuvante da série "Ladrões de Drogas", reafirmando sua presença após a interpretação marcante de Pablo Escobar em "Narcos", da Netflix, papel pelo qual foi indicado ao Globo de Ouro há dez anos.

Em maio do ano passado, quando "O Agente Secreto" estreou no Festival de Cannes, Moura foi eleito melhor ator, e Mendonça Filho, melhor diretor. E para coroar esse início da carreira do longa, os direitos de distribuição do filme nos Estados Unidos foram comprados na ocasião pela Neon, famosa por farejar produções com grande potencial para o Oscar —foi responsável, aliás, por exibir nos cinemas "Parasita" e "Anora", vencedores do troféu de melhor filme, respectivamente, em 2020 e 2025.

Desde a estreia de "O Agente Secreto" nos Estados Unidos, no mês passado, Moura tem sido destaque em importantes veículos, como a revista The Hollywood Reporter e W Magazine. Na última semana, foi ao talk show de Seth Meyers, um dos principais do país, da emissora NBC. Lá, afirmou que o reconhecimento internacional da obra é um avanço para a cultura brasileira após o desmonte que a área sofreu durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, que chamou de fascista.

O ator tem sido vocal em relação a temas políticos durante a campanha. Ainda em dezembro, agitou o setor no Brasil ao publicar um vídeo nas redes sociais em que criticava os rumos do projeto de lei da regulamentação do streaming no Brasil. Classificou o PL de bizarro e reclamou do fato de ele permitir que grandes plataformas usem o dinheiro devido em conteúdos próprios. Nessa semana, disse em entrevista a vaículos americanos que o ataque dos Estados Unidos à Venezuela é inaceitável.

Já no Critics Choice Awards, depois da entrega esquisita do prêmio a Mendonça Filho —que não teve tempo para qualquer discurso de agradecimento—, Moura não engoliu um comentário ácido quando subiu ao palco para anunciar, ao lado do pernambucano, o grande vencedor da noite. O cineasta anunciou a categoria de melhor filme, e o ator emendou "ou, como chamamos no Brasil, melhor filme estrangeiro".

A provocação dá uma pista do que costuma ser um obstáculo para a visibilidade de filmes brasileiros nessas disputas. Apesar do reconhecimento que "O Agente Secreto" tem conquistado, ele é falado em português, o que pode afastar votantes de outros países, que tendem a priorizar filmes em inglês.

No caso do Globo de Ouro, essa dificuldade é atenuada. Hoje, dos 399 jornalistas e críticos que votam no prêmio, 38 são brasileiros, isto é, quase 10%. Ao todo, 132 são latino-americanos, ou 33% do júri. Já é uma vantagem em comparação ao Oscar. Ainda que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas não divulgue o número exato de votantes, estima-se que sejam em torno de 10 mil —com apenas cerca de 70 brasileiros.

O Globo de Ouro se comprometeu com a diversidade de seu corpo de jurados em 2022, depois de a Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, a HFPA, que entrega os troféus, ter se afundado em polêmicas e ser acusada de racismo, suborno e falta de diversidade em seu júri. A premiação foi comprada pelas produtoras Dick Clark Productions e Eldridge Industries, e hoje não é mais controlada pela entidade HFPA, como foi por quase 80 anos.

Membros do júri ouvidos pela reportagem em condição de anonimato afirmaram que as etapas para a votação atrasaram nesta edição. O júri começou a receber as obras para a avaliação —que entre filmes e séries somam 400 títulos— apenas em agosto, com três meses de atraso comparado a 2024. O tempo faz diferença, eles dizem, já que é impossível assistir tudo a tempo. Essa edição tem, ainda, a nova categoria de podcasts, o que força o corpo de jurados a ouvir vários programas em inglês.

Com o prazo apertado, os votantes priorizam obras destacadas em festivais e outras premiações pelo mundo. Para chamar a atenção dos jurados, é comum também que as equipes ofereçam entrevistas com celebridades aos jornalistas votantes, além de convites para eventos exclusivos.

Em novembro, a trupe de "Wicked: Parte 2", por exemplo, trouxe todos os brasileiros que votam no Globo de Ouro para uma sessão do filme com a presença de Cynthia Erivo, em São Paulo.

A atriz concorre a melhor atriz de comédia, no páreo com nomes como Emma Stone, que estrelou o seu quarto filme com o excêntrico diretor Yorgos Lanthimos, "Bugonia", e Chase Infiniti, elogiada por sua performance em "Uma Batalha Após a Outra". O longa de Paul Thomas Anderson é o favorito para levar o troféu de melhor filme de comédia ou músical se superar "Marty Supreme", de Josh Safdie.

"Hamnet - A Vida Antes de Hamlet" —o drama fictício de Chloé Zhao sobre o luto enfrentado por William Shakespeare e sua mulher após a morte do filho—, é um dos concorrentes mais fortes para a estatueta de filme de drama. Não por acaso, Jessie Buckley, que encarna Agnes, é a favorita ao prêmio de atriz dramática, disputado também por Jennifer Lawrence por "Morra, Amor". Forte rival de "Hamnet" é "Pecadores", o terror com ares de crítica social de Ryan Coogler que driblou os contratos engessados de Hollywood e se tornou um sucesso de bilheteria.

Chama a atenção que três filmes não falados em inglês também estejam na prestigiada categoria de melhor filme de drama, número que comprova a boa safra de longas estrangeiros e, também, o desejo do Globo de Ouro de dar mais atenção a produções fora dos Estados Unidos. Além de "O Agente Secreto", estão na disputa "Valor Sentimental", do norueguês Joachim Trier, e "Foi Apenas um Acidente", do iraniano Jafar Panahi, coroado com a Palma de Ouro em Cannes.

Os dois, aliás, são os maiores adversários do longa de Mendonça Filho na corrida de filme em língua não inglesa. "Foi Apenas um Acidente" acompanha a jornada de um mecânico que acredita ter encontrado o homem que o torturou na prisão para retratar a repressão política no Irã. O longa foi rodado na clandestinidade, já que Panahi não tem permissão do regime islâmico para filmar. Não à toa, se vencer, o filme dará a estatueta à França, coprodutora do longa, que o elegeu também para representar o país no Oscar.

No mês passado, o diretor foi condenado novamente à prisão, mas não foi encarcerado por estar fora do Irã. Nessa semana, porém, em entrevista ao The Hollywood Reporter, ele disse que vários outros cineastas estão enfrentando as mesmas represálias, e que ele pretende retornar ao seu país após o Oscar.

"A Voz de Hind Rajab", representante da Tunísia e um retrato da angústia dos palestinos que vivem sob a guerra em Gaza, era um dos títulos internacionais mais fortes da safra, mas perdeu impulso após sair de mãos vazias do Festival de Veneza. Apesar de ser considerado o favorito por especialistas na Itália, o longa foi derrotado por "Pai Mãe Irmã Irmão", do americano Jim Jarmusch.

Já "Valor Sentimental" mostra a tentativa de Gustav, um cineasta narcisista e pai ausente, de se reaproximar de suas duas filhas, já adultas. A tentativa se dá, porém, porque ela quer usar a casa da família como cenário de seu próximo filme. O papel é de Stellan Skarsgard, indicado a melhor ator coadjuvante, em uma briga que tem ainda Jacob Elordi, o monstro de "Frankeinstein", Paul Mescal, que encarna Shakespeare em "Hamnet", e Sean Penn, por sua elogiada performance do antagonista de "Uma Batalha Após a Outra", um militar casca grossa.

A boa repercussão de narrativas não americanas se refletiu também entre animações. Brigam pelo Globo de Ouro "Guerreiras do K-pop", fenômeno da Netflix que, apesar de ser produzido nos Estados Unidos, surfa no boom do gênero musical coreano, e "Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba - Castelo Infinito", longa que dá continuidade à série de animação japonesa sobre caçadores de demônios.

Se os filmes se destacaram por narrativas inovadoras, a série favorita ao prêmio segue um modelo mais tradicional. "The Pitt", condecorada com o Emmy de melhor drama em setembro do ano passado, retrata o cotidiano frenético de um hospital em Pittsburgh, relembrando programas médicos populares na televisão pré-streaming como "House" e "Grey's Anatomy".

A produção da HBO Max enfrenta a segunda temporada de "Ruptura" e "Pluribus", série mais refrescante da safra e título mais visto da história da Apple TV. A ficção científica escrita por Vince Gilligan, criador da celebrada "Breaking Bad", acompanha Carol, uma das únicas 13 pessoas imunes a um vírus alienígena que conecta todos os humanos do planeta e os padroniza como um só.

Caso "Pluribus" não leve o troféu, há pelo menos grandes chances de Rhea Seehorn ser coroada melhor atriz por encarnar Carol. O prêmio acabaria com o jejum da americana, que nunca foi devidamente reconhecida nas premiações por sua atuação em "Better Call Saul", derivada de "Breaking Bad" sobre os casos do advogado de Walter White, James Morgan McGill.

Entre as séries de comédia não há grandes novidades. A briga fica entre as novas temporadas de "O Urso", "Hacks" e a original "O Estúdio", também vitoriosa no último Emmy.

Por fim, um elefante branco deve ocupar o anfiteatro do Beverly Hilton Hotel, onde acontece a cerimônia, que será apresentada pela comediante Nikki Glaser pelo segundo ano consecutivo. A transmissão, nos Estados Unidos, é pela CBS, canal da Paramount, que se envolveu em uma série de polêmicas no último ano após a fusão com a Skydance Media.

O estúdio vem sendo acusado pela imprensa americana de censurar programas críticos a Donald Trump e seu governo —no auge da disputa, o programa de auditório The Late Show foi cancelado e o seu apresentador, Stephen Colbert, demitido.

No ano passado, Glaser apostou numa dinâmica bem azeitada com as estrelas e soube arrancar risadas do público, fazendo troça da reeleição de Trump e dos casos de assédio sexual que mancharam Hollywood a partir do MeToo.

Resta saber se o clima de tensão irá acuar as celebridades, ou se discursos críticos ao presidente ecoarão mesmo assim pelo glamuroso hotel em Los Angeles. Assuntos espinhosos não faltam nas últimas semanas, com a prisão do ditador Nicolás Maduro ou, ainda, a morte de uma mulher a tiros por um agente federal de imigração em Minneapolis.

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