A série documental da HBO Max, “Escravos da Fé - Os Arautos do Evangelho”, chamou a atenção pelo tom de denúncia aplicado na produção. Dentre os depoimentos apresentados, a capixaba Amanda Merotto contou a sua história dentro da organização católica, relatando as práticas adotadas no dia a dia do grupo religioso.
Amanda é nascida e criada em Vitória, vindo de uma família humilde. Segundo seu relato na série documental, ela entrou para os Arautos em 2007, aos 12 anos, convencida pelo fator religioso e a segurança que o grupo poderia oferecer, passando a frequentar a igreja aos finais de semana.
“Tudo era feito para chamar a nossa atenção. Era exatamente como a história de João e Maria. A bruxa queria chamar a atenção das crianças. Eu entrei lá porque era realmente interessante. E eu caí na armadilha”, relatou Amanda à produção.
A lembrança era muito opressora, bem pesada. Porque tinha muita pressão, muitas regras
Amanda Merotto, ex-Arautos do Evangelho
Após esse curto período, Amanda se tornou uma interna dos Arautos, morando dentro da instituição. A rotina, segundo a capixaba, envolvia um regime quase militar, com marchas e rezas, antecedendo o período escolar, que também era promovido pela igreja.
Durante o período que esteve dentro da congregação, Amanda relatou ter passado por situações de humilhação, tortura psicológica e instigação à violência. Além disso, ela afirmou ter testemunhado a denúncia de que membros da organização, incluindo o líder dos Arautos, monsenhor João Clá Dias, praticavam abusos sexuais contra os membros mais novos.
Depois que eu saí dos Arautos, eu levei anos para entender tudo o que aconteceu. Não é nada normal o que nós vivemos
Amanda Merotto, ex-Arautos do Evangelho.
Quem são os Arautos do Evangelho?
Os Arautos do Evangelho são uma associação católica fundada a partir da antiga TFP (Tradição, Família e Propriedade) por João Clá Dias e reconhecida pelo Vaticano. A instituição é estruturada a partir de uma hierarquia rígida e centralizada na figura de seu fundador, seguindo uma linha ligada ao conservadorismo católico.
Dentro dessa estrutura, a vivência religiosa é marcada por uma relação intensa de devoção e obediência. Integrantes são inseridos em um ambiente em que a autoridade espiritual dos superiores orienta comportamentos, decisões e práticas cotidianas.
Além da veneração tradicional a santos reconhecidos pela Igreja Católica, há também uma valorização de figuras internas da própria instituição, que passam a ocupar papel central na vida religiosa dos membros.
Nesse contexto, surgem os chamados “santos” ligados ao próprio grupo. Retratado na série, João Clá Dias é tratado internamente como uma figura de santidade, mesmo sem canonização oficial, com relatos de atribuição de feitos considerados extraordinários. Objetos pessoais associados ao líder são preservados e reverenciados, como forma de devoção.
Polêmicas e disputa na justiça
A produção da série ainda enfrentou problemas para conseguir divulgar e distribuir o conteúdo na plataforma de streaming. Em dezembro de 2025, o Supremo Tribunal de Justiça (STJ) proibiu a veiculação da obra enquanto não se encerrasse a disputa judicial em torno do documentário, que está em segredo de justiça.
Em março deste ano, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Dino, derrubou a decisão inicial e liberou a exibição da série, afirmando que não poderia se presumir que houve quebra do sigilo da investigação pela mera coincidência entre os procedimentos judiciais e obras artísticas.