Barcos coloridos, bandeiras ao vento, famílias reunidas e centenas de embarcações cortando a Baía de Vitória em homenagem ao padroeiro dos pescadores. Há quase um século, a Procissão Marítima de São Pedro transforma o mar da Capital em palco de uma das celebrações mais tradicionais do Espírito Santo.
E neste ano, a festa chega à sua 98ª edição e deve reunir cerca de 170 embarcações entre barcos de pesca, lanchas e iates, neste domingo (28). Para quem acompanha a celebração da areia, das pontes ou da Curva da Jurema, o desfile marítimo impressiona pela quantidade de embarcações enfeitadas. Para os pescadores, porém, o significado vai muito além da beleza.
Isso vem de pai para filho. Meu pai já fazia essa procissão quando ainda eram embarcações a remo. Hoje temos barcos com motor, mas a tradição continua a mesma
Álvaro Martins Silva presidente da Colônia de Pescadores de Vitória
A relação dele com a festa atravessa gerações. Aos 71 anos, Álvaro participa da organização da celebração há 45 anos e acompanha de perto a transformação do evento ao longo das décadas.
"Quando termina uma festa, a gente já começa a pensar na próxima. É uma alegria muito grande. A gente não abre mão disso", afirma.
Herança que resiste ao tempo
Mais do que uma manifestação religiosa, a procissão é uma forma de preservar a cultura pesqueira capixaba. Em um cenário em que a atividade enfrenta desafios econômicos e mudanças geracionais, a festa funciona como um momento de reencontro da comunidade.
Segundo Álvaro, a participação dos pescadores continua forte. Muitos aproveitam a ocasião para levar familiares a bordo e manter viva uma tradição que atravessa gerações.
A gente vê filhos, netos e até bisnetos de pescadores participando. É uma festa que une a categoria e fortalece esse sentimento de pertencimento
Álvaro Martins Silva presidente da Colônia de Pescadores de Vitória
A preparação dos barcos também virou uma atração à parte. Embarcações são decoradas com bandeirolas, imagens religiosas e enfeites coloridos para disputar a atenção do público e dos jurados responsáveis pela premiação dos barcos mais ornamentados.
O momento mais esperado
O ponto alto da celebração acontece quando a imagem de São Pedro segue pelas águas da baía acompanhada por dezenas de embarcações. O cortejo percorre trechos da região portuária e retorna em direção à Enseada do Suá.
Já próximo à Cruz do Papa, ocorre um dos momentos mais simbólicos da programação: a bênção do anzol. Durante a cerimônia, um pescador mais antigo lança um anzol ao mar enquanto o padre realiza uma oração pedindo proteção, segurança e fartura para os trabalhadores da pesca.
A tradição é acompanhada por salva de palmas dos participantes e representa a esperança de boas pescarias ao longo do ano.
Espetáculo em terra firme
Mesmo para quem nunca entrou em um barco, a procissão oferece um espetáculo que chama a atenção. O contraste das embarcações decoradas com a paisagem da Baía de Vitória transforma o evento em uma das manifestações culturais mais fotogênicas da cidade.
Por isso, a celebração também se tornou um atrativo turístico. A cada edição, moradores e visitantes se espalham por pontos estratégicos da orla para acompanhar a passagem do cortejo marítimo.
Enquanto os barcos seguem pelo mar, a festa continua em terra, com barracas, apresentações e encontros que ajudam a manter viva uma tradição prestes a completar um século de história.
Para Álvaro, o desejo é simples: continuar vendo a procissão navegar por muitos anos.
Se Deus quiser, quero estar vivo para ver a festa chegar aos 100 anos. É uma história muito bonita e que faz parte da vida de todos nós
Álvaro Martins Silva presidente da Colônia de Pescadores de Vitória