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Muito antes de 'Gambito da Rainha', Stefan Zweig viu o drama do xadrez

Última obra de escritor austríaco trata de jogadores peculiares e expõe horrores do nazismo
Agência FolhaPress

Publicado em 23 de Novembro de 2021 às 10:58

O Gambito da Rainha
O Gambito da Rainha Crédito: Reprodução/Youtube/Netflix Brasil
Muito antes de "O Gambito da Rainha" se transformar num sucesso da Netflix, Stefan Zweig percebeu o potencial dramático do xadrez e fez dele o centro de sua última obra, finalizada durante seu exílio no Brasil.
Assim como a série do ano passado, baseada num livro homônimo de 1983, o texto de Zweig explora as façanhas quase sobre-humanas dos prodígios do xadrez e sua relação com algum nível de desajuste social.
Em "O Livro do Xadrez", o leitor acompanha uma viagem de navio com destino a Buenos Aires, para onde o campeão mundial, Mirko Czentovic, vai em busca de novos desafios.
Autodidata e genial nos tabuleiros, o precoce Czentovic tomou de assalto os campeonatos de xadrez e varreu seus oponentes como uma força da natureza. Quando não está movimentando suas peças, contudo, é um ignorante completo, incapaz de escrever uma frase correta ou de reter na memória qualquer conhecimento que não esteja vinculado ao jogo.
A bordo do navio, aceita um cachê expressivo para jogar partidas amistosas contra alguns passageiros, mas não esconde seu desdém pelas habilidades enxadrísticas dos adversários amadores.
O quadro só muda quando surge o misterioso Dr. B., que aprendeu a jogar sozinho como forma de manter a sanidade nos meses em que ficou prisioneiro da polícia política nazista.
Durante seu confinamento, Dr. B. se apossou de um livro de partidas clássicas, decorou uma por uma e desenvolveu a capacidade de enfrentar a si mesmo --tudo com peças que só existiam em sua mente.
Ele se esforçou tanto nesse processo que sofreu um colapso mental -não fazia mais nada que não fosse pensar em xadrez. Foi socorrido por um médico que o proibiu de chegar perto de um tabuleiro até o fim da vida.
"O Livro do Xadrez" se desenrola entre a ação do jogo e a tensão psicológica desses dois craques da modalidade. Nenhum deles é verossímil, mas ambos reforçam um estereótipo recorrente do enxadrista tão genial quanto maluco --uma visão que ganhara apoio acadêmico anos antes de Zweig escrever sua última obra.
No final de 1930, Ernest Jones, que seria biógrafo oficial de Freud, leu para a Sociedade Britânica de Psicanálise seu estudo "O Problema de Paul Morphy", no qual analisa o jovem enxadrista americano que brilhou em meados do século 19 e enlouqueceu pouco depois de parar de jogar.
Numa interpretação bastante peculiar, mas nem por isso menos influente, Jones diz que o objetivo de atacar o rei adversário no xadrez simboliza o instinto de assassinar o pai e que as atividades enxadrísticas de Morphy --famoso por enfrentar múltiplos adversários sem olhar para o tabuleiro-- teriam sido a fonte de sua loucura.
É impossível deixar de ver a influência dessa visão no livro de Zweig, que era muito próximo de Freud e de Jones. Mas, ressalva feita aos exageros na caracterização psicológica de seus personagens, o escritor austríaco consegue a proeza de, num livro de poucas páginas e sem nunca perder a cadência narrativa, sintetizar com precisão inúmeros elementos do complexo universo enxadrístico.
De quebra, retomando uma tradição que acompanha o xadrez desde seu surgimento --provavelmente há mais de 1.500 anos, na Índia--, Zweig usa o jogo como pano de fundo para tratar de uma questão social mais elevada.
Os horrores do nazismo, a tortura psicológica, o exílio forçado, a sensação de desterro e o duelo cultura versus barbárie permeiam "O Livro do Xadrez", transformando a obra num dos últimos testemunhos de Zweig --pouco depois de enviar o texto aos seus editores, ele se matou em Petrópolis, no Rio de Janeiro, aos 60 anos.

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