Redes Sociais

Luz del Fuego: a capixaba que foi homenageada no bloco Pela Donas, em Vitória

Agremiação que valoriza o protagonismo feminino e tem como tradição contar histórias de mulheres irreverentes e emblemáticas

Isadora Lima

Reporter / [email protected]

Publicado em 12 de fevereiro de 2026 às 10:30

Luz del Fuego: conheça capixaba que será homenageada em bloco do Centro de Vitória
Luz del Fuego a vedete que dançava nua com serpentes Crédito: Arquivo Público do Espírito Santo (APEES)

“Não se nasce mulher, torna-se mulher”. A frase emblemática de Simone de Beauvoir sintetiza a ideia de que, em uma sociedade patriarcal, “ser mulher” não é algo natural, mas construído. Os papéis de cuidado, obediência e adequação a normas impostas não vêm do nascimento, são aprendidos. Assim, aprende-se a “ser mulher”.

Mas algumas mulheres se recusaram esse papel. Luz del Fuego era uma delas. Em suas próprias palavras:

Qual o motivo que nos obriga a refrearmos os nossos desejos? Simplesmente o olho alheio. E o que nos importa o que é alheio, se deles não dependemos? A meu ver, os nossos ideais estão acima de qualquer preconceito, pois a mocidade é curta e a hedionda velhice inevitável

E foi nesse tom de homenagem que o bloco Pela Donas veio em 2026. A agremiação desfilou nesta quarta-feira (11) e começou na Rua Sete, no Centro de Vitória, em frente ao espaço cultural Casa da Stael. 

Atriz e dançarina, Luz del Fuego (nome artístico de Dora Vivacqua, irmã de Atilio Vivacqua) nasceu em Cachoeiro de Itapemirim e ficou nacionalmente conhecida, na década de 1950, por dançar nua com serpentes, desafiando os costumes e a moral da época.

Nada mais simbólico, portanto, do que a mulher que ousou ser ela mesma ser homenageada em um bloco de rua, em pleno carnaval de Vitória. Ainda mais pelo Bloco Pela Donas, uma agremiação que valoriza o protagonismo feminino e tem como tradição contar histórias de mulheres irreverentes e emblemáticas.

Bloco Pela Donas
Bloco Pela Donas Crédito: Stael Magesck

O próprio nome do bloco dialoga com a trajetória de Luz del Fuego, que era declaradamente naturista. A criadora e organizadora do Pela Donas, Stael Margeski, explica que o nome carrega um duplo sentido que vai além do literal. A ideia brinca com a folia e com o espírito do carnaval, mas também reforça o posicionamento político do bloco. “Pela Donas” é “por algo”: pelo centro, pelas mulheres. O termo “donas” fala justamente sobre a ocupação do Centro de Vitória, reforçando a ideia de pertencimento e de que a cidade é de todos.

O bloco tem o sentido de ser um espaço para curtir o Carnaval, mas sempre com esse olhar de carinho, de amor e de zelo. É curtir a folia, é se divertir, e ter respeito pelo patrimônio histórico, pelos moradores e principalmente pelas mulheres

Criado em 2017, o Pela Donas realiza, todos os anos, homenagens a mulheres extraordinárias. Em 2023, a venezuelana Julieta Hernández, conhecida como Palhaça Jujuba, desfilou com o bloco quando passou pelo Espírito Santo. Julieta era conhecida por viajar de bicicleta pelo país, realizando apresentações artísticas por onde passava.

Julieta Hernández
Julieta Hernández ou Palhaça Jujuba Crédito: Reprodução/Instagram/Julieta Hernández

No ano seguinte, em 2024, a homenagem ganhou um tom ainda mais doloroso. Julieta foi assassinada no Amazonas, em dezembro de 2023, quando retornava para a Venezuela, sua terra natal.

Além de celebrar mulheres que marcaram a história, o Pela Donas também acende um alerta para a violência contra a mulher. Assim como Julieta, Luz del Fuego também foi assassinada.

QUEM FOI LUZ DEL FUEGO?

Desde muito jovem, Luz dava sinais de um espírito livre e indomável. Aos 15 anos, fugiu com um circo para o Rio de Janeiro. Quando perguntada se gostava de brincar de bonecas, respondeu: “Gostava, sim, como toda criança, só que as minhas andavam nuas”. Uma história que parecia escrita desde o nascimento: Luz nasceu em uma madrugada de carnaval, em 21 de fevereiro de 1917.

A paixão pelas serpentes surgiu após visitar um serpentário pela primeira vez. Sua primeira cobra foi uma jiboia, encomendada a um fazendeiro mato-grossense. A partir daí, passou a se apresentar em teatros do Rio de Janeiro, despertando fascínio e escândalo por onde passava. Nos bailes de carnaval, era frequentemente barrada por estar com pouca roupa, ou nenhuma. Apaixonada pela festa, Luz chegou a competir como Rainha do Carnaval e aparecia com frequência ao lado do Rei Momo, em plena década de 1950.

Seus espetáculos eram constantemente alvo de censura. Em diversas ocasiões, Luz del Fuego foi impedida de se apresentar, acusada de atentado ao pudor e perseguida por autoridades que viam em seu corpo livre uma ameaça à moral vigente. Mas sua luta ia além dos palcos. Naturista, defendia a nudez como algo natural ao ser humano e pregava uma convivência harmônica com a natureza. Em 1948, lançou o livro A Verdade Nua, no qual expôs seus ideais e militou pela causa naturista.

A Verdade Nua de Luz del Fuego
A Verdade Nua de Luz del Fuego Crédito: Reprodução

“Sou considerada pelos ignorantes, claro, como leviana, exibicionista e criatura imoralíssima. A Verdade Nua permitirá excelente ensejo àqueles que há muito desejavam atirar a primeira pedra e não tinham a precisa coragem. Justamente porque faço tudo o que tenho em mente, realizo as coisas que mais desejo, ponho em prática as teorias que julgo acertadas, é que me censuram. Tiro da vida o que ela me pode dar de bom, de agradável e útil

Além do livro, Luz fundou o Partido Naturalista Brasileiro (PNB) e pretendia se candidatar a deputada durante a ditadura de Getúlio Vargas. A iniciativa, no entanto, não avançou: a lista de assinaturas necessária para a criação do partido desapareceu, e há especulações de sabotagem. Luz seguiu em frente e fundou o primeiro clube naturista do Brasil, na Ilha do Sol, no Rio de Janeiro.

Registrado na Federação Internacional Naturista da Alemanha, o local chegou a reunir cerca de 240 sócios, entre governadores, ministros, militares de alta patente, milionários, estrelas do cinema e turistas. Parte desses registros está disponível no documentário A Nativa Solitária, no YouTube.

Em 1967, Luz del Fuego foi assassinada a pauladas na Ilha do Sol pelos pescadores Alfredo Teixeira Dias e Mozart Teixeira Dias. Antes do crime, os dois haviam invadido a ilha ao menos três vezes com a intenção de violentar quem estivesse no local. Em algumas ocasiões, foram rechaçados, inclusive pela própria Luz, que chegou a expulsá-los armada. No dia do assassinato, Luz e o caseiro Edgar Bezerra não tiveram chance de defesa.

Ao longo dos anos, Luz del Fuego foi homenageada no filme Luz del Fuego (1982), nos documentários Tia Dora e Divina Luz, em livros biográficos, na música homônima de Rita Lee, em exposições e como enredo da escola de samba capixaba Chega Mais, em 2020. Agora, em 2026, será novamente celebrada pelo Bloco Pela Donas, um reconhecimento necessário a uma mulher que ousou viver muito à frente de seu tempo.

Este vídeo pode te interessar

  • Viu algum erro?
  • Fale com a redação