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Publicado em 12 de fevereiro de 2026 às 10:30
“Não se nasce mulher, torna-se mulher”. A frase emblemática de Simone de Beauvoir sintetiza a ideia de que, em uma sociedade patriarcal, “ser mulher” não é algo natural, mas construído. Os papéis de cuidado, obediência e adequação a normas impostas não vêm do nascimento, são aprendidos. Assim, aprende-se a “ser mulher”.
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Mas algumas mulheres se recusaram esse papel. Luz del Fuego era uma delas. Em suas próprias palavras:>
E foi nesse tom de homenagem que o bloco Pela Donas veio em 2026. A agremiação desfilou nesta quarta-feira (11) e começou na Rua Sete, no Centro de Vitória, em frente ao espaço cultural Casa da Stael. >
Atriz e dançarina, Luz del Fuego (nome artístico de Dora Vivacqua, irmã de Atilio Vivacqua) nasceu em Cachoeiro de Itapemirim e ficou nacionalmente conhecida, na década de 1950, por dançar nua com serpentes, desafiando os costumes e a moral da época.>
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Nada mais simbólico, portanto, do que a mulher que ousou ser ela mesma ser homenageada em um bloco de rua, em pleno carnaval de Vitória. Ainda mais pelo Bloco Pela Donas, uma agremiação que valoriza o protagonismo feminino e tem como tradição contar histórias de mulheres irreverentes e emblemáticas.>
O próprio nome do bloco dialoga com a trajetória de Luz del Fuego, que era declaradamente naturista. A criadora e organizadora do Pela Donas, Stael Margeski, explica que o nome carrega um duplo sentido que vai além do literal. A ideia brinca com a folia e com o espírito do carnaval, mas também reforça o posicionamento político do bloco. “Pela Donas” é “por algo”: pelo centro, pelas mulheres. O termo “donas” fala justamente sobre a ocupação do Centro de Vitória, reforçando a ideia de pertencimento e de que a cidade é de todos.>
Criado em 2017, o Pela Donas realiza, todos os anos, homenagens a mulheres extraordinárias. Em 2023, a venezuelana Julieta Hernández, conhecida como Palhaça Jujuba, desfilou com o bloco quando passou pelo Espírito Santo. Julieta era conhecida por viajar de bicicleta pelo país, realizando apresentações artísticas por onde passava.>
No ano seguinte, em 2024, a homenagem ganhou um tom ainda mais doloroso. Julieta foi assassinada no Amazonas, em dezembro de 2023, quando retornava para a Venezuela, sua terra natal.>
Além de celebrar mulheres que marcaram a história, o Pela Donas também acende um alerta para a violência contra a mulher. Assim como Julieta, Luz del Fuego também foi assassinada.>
Desde muito jovem, Luz dava sinais de um espírito livre e indomável. Aos 15 anos, fugiu com um circo para o Rio de Janeiro. Quando perguntada se gostava de brincar de bonecas, respondeu: “Gostava, sim, como toda criança, só que as minhas andavam nuas”. Uma história que parecia escrita desde o nascimento: Luz nasceu em uma madrugada de carnaval, em 21 de fevereiro de 1917. >
A paixão pelas serpentes surgiu após visitar um serpentário pela primeira vez. Sua primeira cobra foi uma jiboia, encomendada a um fazendeiro mato-grossense. A partir daí, passou a se apresentar em teatros do Rio de Janeiro, despertando fascínio e escândalo por onde passava. Nos bailes de carnaval, era frequentemente barrada por estar com pouca roupa, ou nenhuma. Apaixonada pela festa, Luz chegou a competir como Rainha do Carnaval e aparecia com frequência ao lado do Rei Momo, em plena década de 1950. >
Seus espetáculos eram constantemente alvo de censura. Em diversas ocasiões, Luz del Fuego foi impedida de se apresentar, acusada de atentado ao pudor e perseguida por autoridades que viam em seu corpo livre uma ameaça à moral vigente. Mas sua luta ia além dos palcos. Naturista, defendia a nudez como algo natural ao ser humano e pregava uma convivência harmônica com a natureza. Em 1948, lançou o livro A Verdade Nua, no qual expôs seus ideais e militou pela causa naturista. >
Além do livro, Luz fundou o Partido Naturalista Brasileiro (PNB) e pretendia se candidatar a deputada durante a ditadura de Getúlio Vargas. A iniciativa, no entanto, não avançou: a lista de assinaturas necessária para a criação do partido desapareceu, e há especulações de sabotagem. Luz seguiu em frente e fundou o primeiro clube naturista do Brasil, na Ilha do Sol, no Rio de Janeiro. >
Registrado na Federação Internacional Naturista da Alemanha, o local chegou a reunir cerca de 240 sócios, entre governadores, ministros, militares de alta patente, milionários, estrelas do cinema e turistas. Parte desses registros está disponível no documentário A Nativa Solitária, no YouTube. >
Em 1967, Luz del Fuego foi assassinada a pauladas na Ilha do Sol pelos pescadores Alfredo Teixeira Dias e Mozart Teixeira Dias. Antes do crime, os dois haviam invadido a ilha ao menos três vezes com a intenção de violentar quem estivesse no local. Em algumas ocasiões, foram rechaçados, inclusive pela própria Luz, que chegou a expulsá-los armada. No dia do assassinato, Luz e o caseiro Edgar Bezerra não tiveram chance de defesa. >
Ao longo dos anos, Luz del Fuego foi homenageada no filme Luz del Fuego (1982), nos documentários Tia Dora e Divina Luz, em livros biográficos, na música homônima de Rita Lee, em exposições e como enredo da escola de samba capixaba Chega Mais, em 2020. Agora, em 2026, será novamente celebrada pelo Bloco Pela Donas, um reconhecimento necessário a uma mulher que ousou viver muito à frente de seu tempo. >
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