Imagine estar passeando pelos Lençóis Maranhenses e ser parado por um turista francês por um motivo tão inusitado quanto específico: uma tatuagem de anime. Isso aconteceu com o capixaba Danilo Bento, de 37 anos, que recentemente fez uma tatuagem do personagem Itachi Uchiha, da série de anime e mangá Naruto.
Danilo conta que quando fez a tatuagem já esperava o reconhecimento, por ser um personagem de uma série famosa, mas que se surpreendeu de maneira positiva com essa experiência durante sua viagem.
"Quem gosta de anime sempre reconhece", frisa.
Em muitos casos, tatuagens vão muito além da estética. Revelar na sua pele algo que você gosta pode ter um significado muito grande, é uma forma de expressar identidade e reconhecer, à primeira vista, quem compartilha da mesma paixão.
E, dentro desse universo, um fenômeno se destaca: as tatuagens de anime, que segundo tatuadores especializados no estilo, dominam a procura e vêm crescendo cada vez mais.
Matheus Álvares Ribeiro, tatuador há nove anos no estúdio Âncora, na Praia da Costa, é só um exemplo. Especializado em personagens, ele começou a atender esse nicho por gostar do universo geek e acabou virando referência no assunto.
"Eu acredito que tem um nicho bem grande e que a tendência é crescer cada vez mais. Acho que essa geração agora se sente mais à vontade em poder dizer que gosta desse tipo de coisa. O pessoal não tem mais vergonha de se identificar com os personagens", conta o tatuador.
Entre os animes mais procurados pelos clientes de Matheus estão Naruto, Demon Slayer, Jujutsu Kaisen, Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco e Attack on Titan. Thiago Rodrigo Barbosa, colega de Matheus no estúdio Âncora , na Praia da Costa, percebe uma tendência parecida, mas nota que os personagens secundários costumam ter mais saída do que os protagonistas, como Itachi e Kakashi, de Naruto, e Zoro, de One Piece.
"Provavelmente as pessoas se identificam mais com eles do que com os protagonistas", avalia Thiago, que também já tatuou personagens de quadrinhos, como o Homem-Aranha, mas reforça: "Acho que a tatuagem de anime ainda seja mais popular."
A escolha do estilo e dos traços é uma parte fundamental de como a tatuagem geek vai ficar pronta e cada anime pede uma abordagem diferente.
"Tem uns animes, tipo Berserk, que é um negócio mais sombrio. Eu acho que um pouco mais de traço grosso e preto vai ficar mais legal", explica Thiago, que costuma adaptar o traço ao tom da obra: algo mais delicado para mangás, mais bold para histórias mais pesadas.
Matheus concorda que o estilo pode transformar totalmente uma mesma referência: "Independente, o pessoal pode escolher, por exemplo, um fã de Demon Slayer que quer fazer uma máscara do anime, ele pode escolher aquela máscara tanto num blackwork quanto num full color, e elas vão ficar com cores completamente diferentes, mesmo sendo a mesma referência."
E é nesse processo que a inteligência artificial tem entrado na rotina dos tatuadores, muitas vezes como um fator desafiador. "Com o crescimento da IA, o pessoal costuma vir com referências feitas na IA que às vezes não funcionam muito bem na pele", diz Matheus. Cabe ao profissional explicar o que vai envelhecer bem e o que não vai cicatrizar direito com o passar dos anos e, junto com o cliente, chegar a um resultado que funcione tanto como desejo quanto como tatuagem."
Às vezes, o desejo por trás da escolha de uma tatuagem vem de forma mais sutil. Para alguns fãs, a graça está em criar uma referência que só quem realmente conhece a obra vai identificar, como um easter egg na pele.
Thiago já viveu isso na prática: "Eu já fiz um dragão oriental que, num pedacinho, tinha a cabecinha de um personagem de One Piece. Só quem conhece, iria entender que aquele ali seria uma referência do anime." Segundo ele, porém, esse tipo de pedido ainda é mais raro, a maioria dos clientes prefere mostrar abertamente o que gosta.
Já Matheus vê esse tipo de escolha como algo que cria camadas de identificação: um cliente que tatua um símbolo de clã de Naruto, em vez do personagem, por exemplo. "Isso acaba gerando uma filtragem entre quem é fã de verdade e quem só viu de longe", diz.
Escolher quem vai fazer a tatuagem pode ser tão importante quanto escolher a referência. Foi o que aconteceu com um cliente de Thiago que veio de outra cidade especialmente para tatuar com ele.
"Ele tinha a ideia de fechar um braço com personagens de Solo Leveling, mas os tatuadores com quem ele conversou antes não conheciam os personagens que ele queria fazer, eram personagens que aparecem mais para frente na história", conta Thiago. "Por eu já ter assistido, consegui fazer a ideia do jeito que ele queria."
Para Matheus, o conhecimento técnico não é suficiente: entender a história por trás do personagem também importa. "O conhecimento sobre a arte contribui com a parte técnica. Isso faz com que fique mais fácil passar o sentimento que aquilo carrega", explica.
Para Danilo, a tatuagem de Itachi não nasceu de um impulso recente. Ele conta que desde criança acompanha animes e sempre quis fazer aquele tributo ao personagem, e que a espera só tornou o momento mais especial quando, aos 37 anos, finalmente concretizou o desejo.
Mais do que uma marca na pele, a escolha carrega um significado pessoal: Danilo vê na trajetória de Itachi (um dilema entre o dever com o clã e o país onde vive) um reflexo da própria superação, o que tornou a tatuagem também uma forma de marcar essa conquista.
*Kamila Rossi é aluna do 29º Curso de Residência em Jornalismo. Este conteúdo teve orientação e edição do editor de HZ, Felipe Khoury.