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Sobre vidas

Flamengo é insensível ao negociar com famílias das vítimas de incêndio

Antes de falarmos em negociações, trâmites jurídicos e precedentes, temos que lembrar que estamos falando de pais que perderam seus filhos

Publicado em 08 de Fevereiro de 2020 às 07:00

Públicado em 

08 fev 2020 às 07:00
Filipe Souza

Colunista

Filipe Souza Filipe Souza
Presidente do Flamengo, Rodolfo Landim comanda negociações com as famílias Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil
“Em um país onde milhares de pessoas vivem na pobreza e com poucas esperanças de um futuro, o futebol se apresenta como oportunidade. Desde bem novos, meninos já sonham em viver com a bola nos pés para mudar o futuro de suas famílias. A terrível tragédia que aconteceu no CT do Flamengo interrompeu o sonho de dez jovens. O verde do gramado deu lugar ao preto do luto. O fogo transformou a esperança em cinzas. Sobraram a dor, o lamento e a tristeza de vidas que foram levadas e deixaram um vazio no coração de família e amigos. Triste, muito triste”. 
Escrevi o trecho acima para a edição impressa de A Gazeta que foi publicada no dia 9 de fevereiro de 2019. Um ano se passou e ainda aguardamos respostas contundentes sobre o incêndio no centro de treinamento do Flamengo e deixou dez mortos. Antes de falarmos em negociações, trâmites jurídicos e precedentes, temos que lembrar que estamos falando de pais que perderam seus filhos, para a grande maioria o mais importante componente de suas vidas. 
Diante deste cenário, o Flamengo vem apresentando total insensibilidade nas negociações, tanto que só conseguiu se acertar com três famílias. Enquanto negocia os acordos, o Rubro-Negro decidiu dar uma ajuda de" custo mensal de R$ 5 mil para cada família, o que fez a Defensoria Pública do Rio de Janeiro e o Ministério Público intervirem com uma ação na Justiça, que determinou o pagamento de R$ 10 mil. O clube ficou insatisfeito com o resultado e afirmou recorrer à decisão, o que beira o ridículo para uma diretoria que vive a exaltar uma gestão financeira de sucesso que permite contratações caríssimas e o pagamento de altos salários aos atletas profissionais. 
Chegar a um valor de indenização que deixe famílias e clube satisfeitos é muito difícil e o Flamengo tem o direito de tratar as negociações de maneira profissional, mas não se pode perder a sensibilidade. Sempre deve ser lembrado que os adolescentes estavam sob a responsabilidade do clube quando a tragédia aconteceu. O dano aos que ficaram é sentimentalmente irreparável, mas sob a ótica financeira pode ao menos ser parcialmente compensado. Possivelmente alguns dos que se foram seriam grandes jogadores enquanto outros talvez nem viriam a se tornar profissionais, mas isso não vem mais ao caso. É o que menos interessa. 
Vítimas do incêndio no Ninho do Urubu Crédito: Reprodução
Vítimas do incêndio no Ninho do Urubu Crédito: Reprodução
O fato do clube carioca não se abrir para questionamentos da imprensa também é muito desconfortável. O time insiste em pronunciamentos para se expressar sobre o assunto. Qual é a necessidade e a motivação de tal postura? Por que se fechar assim. Enfim, uma instituição do porte do Flamengo tem totais condições de reduzir esse desgaste e aceitar melhores condições para acertar com os familiares das vítimas. Seria uma atitude gigante.

Filipe Souza

Filipe Souza Filipe Souza

Jornalista da Rede Gazeta desde novembro de 2010, já atuou na CBN Vitória e como editor no site e de Esportes, na edição impressa. Desde 2019, mantém o cargo de editor de Esportes, agora do site A Gazeta, onde é também colunista. Antes trabalhou na Rádio Espírito Santo. É formado em Jornalismo pela Estácio de Sá.

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