Parece muito evidente que o presidente da Assembleia Legislativa, Erick Musso, começou a ser assombrado, de verdade, por um fantasma do passado: a associação de sua manobra política para manter-se no cargo até 2023 – revista por ele mesmo nesta quarta-feira (4) – com a famigerada Era Gratz. Ou, de modo mais específico, com expedientes usados pelo comando da Assembleia durante a famigerada Era Gratz.
Inevitavelmente – pela reedição de um expediente realmente usado pelo próprio Gratz no ano 2000, antecipando a própria reeleição para o biênio seguinte –, a analogia está em toda parte: na imprensa, em declarações do presidente da OAB-ES, José Carlos Rizk Filho, de deputados aliados de Renato Casagrande (PSB) como Dary Pagung (PSB) e Fabrício Gandini (Cidadania)… E está, também, agora com valência contrária, no discurso do próprio Erick, que refuta com veemência esse tipo de associação.
A preocupação de Erick em rechaçar tais comparações salta da própria "Carta ao Povo do Espírito Santo" assinada por ele e divulgada ao referido povo na tarde desta quarta-feira (4). Já nas primeiras linhas se lê: "Desde 2003, a Assembleia Legislativa tem tido papel fundamental na reorganização política e administrativa do Espírito Santo e no restabelecimento da ordem pública que se viu ameaçada por forças obscuras duas décadas atrás". Dois mil e três, para quem não sabe ou não se lembra, é o ano que marca a chegada de Paulo Hartung ao Palácio Anchieta e, na mesma esteira, a derrocada de José Carlos Gratz e do grupo do ex-deputado na Assembleia Legislativa – o mesmo que deixou de joelhos empresários e o Poder Executivo estadual.
Erick chegou, muito jovem, muito longe e muito alto. Aos 25 anos, alcançou seu primeiro mandato eletivo, como vereador de sua cidade, Aracruz. Já "chegou chegando", como presidente da Câmara. Aos 27, saltou para o primeiro mandato na Assembleia, então como caçula entre os 30 deputados em plenário. De imediato, tornou-se vice-líder do então governador, Paulo Hartung. Para muitos deputados da legislatura passada, era Erick, na prática, quem exercia a função de líder, mostrando já ali uma habilidade para costuras políticas de bastidores que faltaria ao líder de fato, Gildevan Fernandes. Essa mesma habilidade – além, logicamente, do fato de ter caído então nas graças de Hartung – contou muito para que, no início de 2017, aos 29 anos, o então mais jovem deputado estadual chegasse à presidência da Assembleia, desbancando o mais velho: Theodorico Ferraço.
Erick, enfim, vem descrevendo uma trajetória ascendente, como a daquele bólido lançado aos céus em "Da Terra à Lua", um dos clássicos de ficção científica do francês Júlio Verne. Não é segredo algum para aliados que ele de fato tem aspirações de chegar, um dia, ao Palácio Anchieta. Esse dia, é claro, pode jamais chegar. Mas, se ele mantiver esse ritmo alucinante do início de sua ascensão, pode chegar antes do que imaginamos.
Para isso, porém, Erick não pode se dar ao luxo de ganhar esse tipo de pecha, por um movimento claramente mal calculado, motivado, talvez, justamente, pela pressa ou precipitação de quem quer chegar logo ainda mais alto e mais longe, levando consigo seu grupo político. Erick não pode se permitir, portanto, dar à sociedade, já no início dessa trajetória, motivos plausíveis para comparações com a Era Gratz, não do ponto de vista ético (não pesa nada contra o atual presidente, muito diferentemente do ex-todo-poderoso da Assembleia), mas de estratégias políticas adotadas.
Hoje com 32 anos, Erick possui o tempo a seu favor, muito chão pela frente e muitos planos de crescimento político no Estado – o próprio Casagrande brincou com Erick outro dia, diante de muitos deputados, que o jovem presidente deve chegar a se sentar na cadeira hoje ocupada por ele. Além do evidente potencial, Erick reúne características para realmente chegar ainda mais longe e mais alto na política estadual.
Mas, se afobando assim e dando dribles a mais sem a menor necessidade, seu "Da Terra a Lua" pode virar "Viagem ao Centro da Terra" ou afundar como o submarino Nautilus, do Capitão Nemo, em "Vinte Mil Léguas Submarinas".
A pressa é inimiga da perfeição. E, em muitos casos, do bom cálculo político. Como se viu, o presidente precisou rasurar a própria conta. E fica, indelevelmente, com uma mancha no boletim e no currículo político que, tudo bem, talvez não seja muito levada em conta pela população em geral no futuro… Mas sempre há de ser recordada por quem vivencia de perto a política capixaba.