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Outubro Rosa

Time de canoa havaiana leva mulheres que venceram o câncer para o mar no ES

Entre cafés compartilhados, medalhas no Campeonato Brasileiro e remadas da chuva ao nascer do sol, o grupo aMar a Vida reúne mais de 250 mulheres todo sábado.

Publicado em 31 de Outubro de 2026 às 17:14

Camila Leão

Publicado em 

31 out 2026 às 17:14

Sábado, 6h30 da manhã. Sobre as cangas na areia, restam os sinais de um café da manhã pré-treino. Quando a canoa vai pra água, ficam ali também a agenda, os exames e o medo. Ana, 64 anos, ajeita o remo, encara o mar e ri: “Se eu não venho, sinto muita falta”. Mas há 18 anos, ela nunca havia praticado esporte.


Ana Maria Martins é uma das mais de 250 mulheres que vivem a campanha do Outubro Rosa o ano inteiro. São as integrantes do aMar a Vida, projeto de canoagem que integra o esporte à rotina de quem enfrenta ou já enfrentou o câncer. Todo sábado o grupo divide um café partilhado e vai para o mar. Para elas, a vida depois do diagnóstico tem treino, competição e medalha. 

Ana em ensaio fotográfico do Outubro Rosa e acompanhada da família em manhã de treino.
Ana em ensaio fotográfico do Outubro Rosa e acompanhada da família em manhã de treino. Créditos: Arquivo Pessoal/ Ana Maria Martins

Em 2008, esporte era coisa de atleta, e Ana não era atleta. Pelo menos é o que ela pensava. “Não tinha essa coisa gostosa de hoje, que todo mundo se anima: você corre, anda de bicicleta, nada. Então eu não tinha hábito, achava que não era pra mim”, lembra. Um diagnóstico de câncer de mama aos 45 anos de idade mudou esse pensamento. 


Ela passou pela retirada total da mama e da axila e depois por quimioterapia, radioterapia e fisioterapia para recuperação do movimento do braço. Foram quase 12 meses de tratamento. O hábito do exercício físico veio com a receita da médica, de forma literal: “Minha médica tem um grupo de atividade física que se chama ‘remedinho’. E é o principal remédio, não tem jeito”, compartilha. 


Hoje, o resultado está na agenda. Ana começou caminhando, aos poucos, e agora se exercita de segunda a sábado; faz zumba, funcional e musculação. Mas foi no mar que ela encontrou o treino de que mais gosta: a canoagem havaiana. 

Um "batismo" no esporte

Foi nas redes sociais e pela indicação de amigas que Ana ouviu falar do Amar a Vida. O projeto social e clube de canoa havaiana foi criado em 2021 para quem enfrenta ou já enfrentou o câncer. O time também abraça familiares, amigos e apoiadores, que também entram pra remar. 


Quando remou pela primeira vez, Ana tinha tanta vontade quanto medo. “A pessoa chega com medo e, depois do café, da turma e do acolhimento, o medo passa”, conta. “Quem estreia na canoa pula na água, no ritual que o grupo chama de batismo. Quando você faz isso, nunca mais deixa de ir.” Faz quase cinco anos desde a primeira vez. Desde então ela rema todo sábado e, às vezes, nas saídas do nascer do sol, às 4h30, ou de lua cheia. 


O esporte, para ela, tem essa outra vantagem. “Como tem contato com a natureza, não é pesado; na verdade, é fácil de lidar”, descreve, contando que entendeu e sentiu o amor pelo esporte.

Entre cafés compartilhados, medalhas no Campeonato Brasileiro e remadas da chuva ao nascer do sol, o grupo aMar a Vida reúne mais de 250 mulheres todo sábado.
Entre cafés compartilhados, medalhas no Campeonato Brasileiro e remadas da chuva ao nascer do sol, o grupo aMar a Vida reúne mais de 250 mulheres todo sábado. Créditos: Arquivo Pessoal/ Ana Maria Martins
De atestado na educação física a atleta

O projeto que fez Ana e tantas outras mulheres se reencontrarem no esporte foi fundado por alguém que, na adolescência, entregava atestado para não fazer aulas de educação física. É o que “dedura” Rodrigo Kiffer, que junto com a amiga Juliana Bassul, fundou o projeto. 


Rodrigo Kiffer, fisioterapeuta e competidor, já treinava canoa havaiana quando reencontrou a amiga de infância Juliana Bassul, médica. Na época ela estava em recuperação de um câncer abdominal. Rodrigo a levou para remar e, em um dia chuvoso, assistiu ao ‘batismo’ dela. 


“Quando você tem a doença, você se fecha muito. Está cercada de gente próxima, mas é diferente, porque você começa a enxergar a vida de outro jeito”, lembra Juliana. “Ali na canoa eu entendi que estava viva, que eu tinha a possibilidade de amar a minha vida independentemente do que estivesse acontecendo com ela.” 


Da pergunta que fizeram em seguida, por que não oferecer isso a outras pessoas com câncer?, nasceu o Amar a Vida, hoje uma ONG.

Registro nos primeiros meses do aMar a Vida.
Registro nos primeiros meses do aMar a Vida. Créditos: Arquivo Pessoal/Juliana Bassul

A primeira aparição do grupo foi em competição: o Campeonato Brasileiro de Canoa Havaiana, em Vitória, com 10 km de prova. A canoa era mista, com três mulheres que enfrentaram o câncer e três apoiadores. A camisa do projeto foi feita na hora. Não subiram no pódio, mas afirmam que isso não tira o frio na barriga do campeonato. 


“Parece maluquice. Eu falo ‘Bora, vamos embora, vamos competir’, conta Rodrigo. “Se chegar em último, tudo bem. Se chegar primeiro, tudo bem! Depois tem churrasco, seja qual for o resultado. Mas todo mundo tem que sentir essa adrenalina de ‘eu vou competir.” 


Ele confecciona uma medalha para todo mundo em toda competição. “Teve gente aqui que ganhou a primeira da vida no Amar a Vida”, conta, orgulhoso. “A gente não tem o mesmo condicionamento das meninas que vivem disso, mas é muito interessante competir como grupo, como projeto”, completa Juliana.


“É um esporte democrático. Cabe todo tipo de corpo, e todo mundo vai na mesma direção, no mesmo ritmo. Mas é esporte de verdade, com técnica”, explica a médica. Os profissionais ajustam a remada de quem perdeu amplitude de movimento no braço depois da cirurgia, e contam que a mobilidade volta com a prática.


“Independente do que você esteja passando, se você não puder remar, a gente vai remar por você”, explicam. “Quando você estiver recuperada, vai remar para uma outra menina que está entrando.”

Time vazio? Bom sinal!

Hoje o grupo reúne mais de 250 integrantes, entre mulheres que enfrentaram câncer e seus familiares e amigos. Quando alguém some num sábado, Rodrigo liga, e o motivo costuma ser visto como bom: trabalho, viagem, visita à mãe. “As pessoas estão voltando a viver e isso é ótimo”, ele explica. 


Segundo ele, quem deixa de ir não deixa o projeto de lado: está preenchendo a rotina com tudo o que a vida pede, inclusive o esporte, como desejamos. 


Diante do diagnóstico, Ana e Juliana contam que as mulheres ouvem uma pergunta: como você quer viver daqui para frente? Rodrigo conta que as vê rebater com interrogações convidativas: “Quanto tempo? Não sei. Mas bora viver?”. 

Serviço

O aMar a Vida se reúne todo sábado, a partir das 7h, ao lado direito da ponte que leva à Ilha do Frade, no início da Guarderia, em Vitória. A remada é gratuita, e quem quiser participar só precisa levar um quitute para o lanche compartilhado, que acontece antes da canoa ir para a água. 


Podem ir pessoas que enfrentam ou enfrentaram o câncer, que convivem com depressão, ansiedade ou outras condições de saúde, além de familiares e amigos. Mais informações em instagram.com/amaravidavaa/.


*Este conteúdo foi produzido por Camila Leão, residente do 29º Curso de Residência em Jornalismo da Rede Gazeta, sob orientação de Sidney Magno Novo.

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