De doutores a militares, entre os candidatos do Espírito Santo que buscam conquistar alguma vaga nas eleições deste ano, 136 utilizam as ocupações profissionais como parte do nome de urna. Os que atuam nas áreas da saúde e da segurança são maioria e somam 73, representando 12,6% do total de 580 concorrentes.
Em 2022, quando foram realizadas as últimas eleições gerais, médicos, enfermeiros, policiais, militares do Exército e outros agentes somavam 94 entre os 758 candidatos, representando 12,4% do todo. Já em 2018, 9,3% dos 833 candidatos expuseram a relação com a saúde ou a segurança no nome de urna, somando 78.
Neste ano, a área da saúde é a que tem o maior número de representantes (38). A ocupação mais utilizada pelos candidatos é a de “doutor”. São 27 profissionais que se identificam como “Dr.” ou “Dra.” e atuam como médicos, fisioterapeutas, dentistas, biomédicos ou médicos-veterinários.
A relação também é mobilizada por concorrentes que utilizam, no nome de urna, os termos “da Saúde”, “do hospital” e “enfermeira”.
Há outros “doutores” que atuam como advogados.
Na última eleição geral, quando médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde eram 45, havia dois anos desde o início da pandemia da Covid-19. Naquele momento, a categoria ganhou destaque e cresceu em número de candidaturas, sendo quase 6% dos postulantes. Agora, a proporção é ainda maior: 6,5%.
A estratégia indica que a profissão, para o postulante que a adota, é uma informação relevante para ele ser conhecido e se legitimar, como explica a doutora em estudos linguísticos e professora da Universidade Federal de Viçosa (UFV), Mariana Procópio.
“É uma maneira de demarcar uma posição de poder, de autoridade. Quando se coloca esse estatuto em um candidato, quando se apresenta a partir da sua profissão, ele está sinalizando a importância dessa informação.”
Outros termos comuns entre aqueles que buscam os votos dos capixabas se relacionam com cargos militares: são sargentos, coronéis, cabos e capitães no nome de urna. Na lista constam ainda delegados e policiais, somando 35 profissionais da segurança.
A área tem se fortalecido no ambiente político desde 2014, com a chamada “bancada da bala” no Congresso Nacional, até a eleição de Jair Bolsonaro (PL) como presidente da República. De 2018 para 2022, o número desses profissionais nas urnas passou de 30 para 49.
Do último pleito para cá, no entanto, a proporção diminuiu. Agentes das polícias Militar, Civil, Federal e do Exército eram quase 6,5% dos candidatos há quatro anos. Agora, a segurança engloba 6% das candidaturas.
Para Pedro Barbabela, doutor em Ciência Política, essa queda, mesmo que ligeira, pode indicar "uma perda de centralidade da área da segurança pública, que durante a ascensão do bolsonarismo e da extrema direita, era central."
"Acho que a área foi perdendo força. Talvez até diminua o número de candidaturas (nas próximas eleições) ou então as pessoas deixem de usar, porque não é mais uma coisa que move, que ganha tantos pontos, tantos votos", afirma o especialista.
Também é expressiva a parcela de pessoas que trabalham na área da educação. Entre os candidatos do Espírito Santo, 25 se identificam como “professor”, “prof.”, “professora”, "diretora" ou "educadora".
Religiosos também utilizam suas posições dentro dos grupos para se destacar entre os demais. Os postulantes que usam “pastor”, “missionária”, “bispo”, “bispa” e “pastora” acompanhados do nome somam 14 candidatos.
Profissionais de outras áreas também utilizam suas ocupações ou o ambiente de trabalho como maneira de identificação. Entre os concorrentes das Eleições 2026, há “pescador”, “motorista”, “locutor”, “diretora”, “da academia”, “da padaria" e “da feira”.
Segundo Procópio, nos estudos discursivos, a estratégia de utilizar o estatuto profissional é usada para garantir legitimidade. “Significa que você quer tentar convencer o outro a partir da apresentação de um certo estatuto social. No caso da profissão, desperta no público-alvo do político algumas representações.”
A legitimidade proporcionada pela ocupação não precisa necessariamente ser comprovada, explica a professora, visto que faz parte da própria profissão em si. “Então, basta que diga que é delegado, doutor, que tem uma profissão de prestígio social, que mobiliza um capital cultural ou econômico, para atestar a legitimidade para o cargo”.
Isso, no entanto, nem sempre é feito de maneira consciente e intencional. Às vezes, o uso é resultado de “uma visão sociocultural histórica compartilhada”. Ou seja, há funções que são vistas como de maior prestígio e poder e, por isso, já são mobilizadas.
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