Humanitarismo: organizar seres humanos para reduzir o sofrimento de desconhecidos.
Guerra: organizar seres humanos para produzir sofrimento em desconhecidos.
Passei boa parte da minha vida profissional entre esses dois extremos.
De um lado, pessoas organizando logística, informação, alimentos e medicamentos para manter vivos seres humanos que nunca haviam visto. Do outro, pessoas empregando capacidades semelhantes — planejamento, liderança, tecnologia, comunicação e inteligência — para destruir e matar outros desconhecidos.
Mesmo Sapiens.
Yuval Noah Harari encontrou na capacidade de cooperar flexivelmente em grande escala uma das características extraordinárias do Homo sapiens. Talvez exista aí uma consequência menos confortável: cooperar não significa necessariamente fazer o bem.
A extraordinária capacidade humana de cooperação não escolhe a finalidade. Nós escolhemos. Eu tinha pouco mais de trinta anos quando, depois de um grande desastre, tentávamos fazer chegar ajuda a comunidades isoladas e já em situação nutricional crítica.
Numa conversa com uma liderança comunitária surgiu um paradoxo que nunca esqueci. Aquele homem queria que os alimentos chegassem. Mas determinadas regras culturais daquela comunidade deveriam ser rigorosamente respeitadas. Caso contrário, advertiu, ele próprio envenenaria os alimentos distribuídos.
O homem que queria alimentos para sua comunidade era também o homem que admitia a possibilidade de envenená-los.
Os dois Sapiens estavam diante de mim na mesma pessoa.
Era a capacidade humana de decidir quem pertence ao círculo do cuidado e quem fica de fora. Essa fronteira muda de nome: fé, tribo, ideologia, bandeira.
Minha jovem cabeça de engenheiro de sistemas tinha dificuldade para processar aquilo. Se havia pessoas em situação crítica, alimento disponível e conseguíamos fazê-lo chegar, a equação parecia simples: precisávamos alimentar as pessoas.
Eu ainda não compreendia suficientemente que seres humanos não vivem apenas de equações. Vivem de identidades, crenças, pertencimentos, medos, símbolos, memórias e lealdades.
Mas primeiro eu as encontrei em pessoas.
Talvez aquela tenha sido uma das minhas primeiras grandes aulas sobre humanware: a racionalidade técnica, sozinha, era incapaz de explicar o ser humano diante de mim.
Razão e crença. Técnica e política. Solidariedade e violência. Pânico e serenidade. Vida e morte.
Às vezes dentro do mesmo Sapiens.
Há outro brasileiro cuja história sempre me provoca. Alberto Santos Dumont ajudou a realizar o sonho de voar. Poucos anos depois, aquela conquista carregava metralhadoras e bombas. Em 1926, apelou à Liga das Nações contra o uso dos aviões como armas de guerra.
A tecnologia amplia aquilo que o Sapiens decide fazer com ela.
Um avião pode transportar medicamentos ou bombas. A inteligência que constrói a ferramenta não determina a sabedoria de quem decidirá como utilizá-la.
Mas nem toda tecnologia começa igualmente em branco. Uma faca pode matar ou passar manteiga no pão. Uma colher também passa manteiga. As chances de matar alguém com ela são bem menores. O design abre possibilidades e restringe outras. A tecnologia não decide por nós, mas também não é indiferente ao que conseguimos fazer com ela.
A escolha continua sendo do Sapiens.
E existe uma assimetria cruel. Destruir pode levar segundos. Reconstruir pode levar anos.
Meus anos em guerras e desastres me ensinaram a desconfiar de explicações simples sobre a natureza humana. Carregamos capacidades para extremos assustadoramente distantes. O Sapiens que cuida e o Sapiens que destrói talvez não sejam duas criaturas diferentes.
Somos nós.
Hoje, enquanto desenvolvemos tecnologias que ampliam aquilo que somos capazes de fazer, fica a pergunta:
Que escolhas estamos fazendo hoje com tecnologias cujas consequências talvez só conheceremos amanhã?