Pesquisadores e estudantes do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) desenvolveram um portal com inteligência artificial para auxiliar a Polícia Civil no combate à violência contra a pessoa idosa. O objetivo da ferramenta é modernizar a gestão de denúncias e facilitar o acesso da população a canais de prevenção.
O portal soluciona o desafio de fragmentação de informações, já que atualmente as denúncias à polícia chegam por diferentes canais e são organizadas em planilhas. Alguns deles são Disque 100, Ministério Público e e-mail. A proposta de IA unifica os dados dispersos em um sistema ágil, possibilitando a detecção de casos de reincidência e histórico completo do atendimento.
Em entrevista à rádio CBN Vitória, a professora Marta Amorim, mestre em Ciência da Computação e doutora em Engenharia Elétrica, explicou que a IA foi programada com um modelo de linguagem que entende, processa e gera o texto em português de forma natural, similar às nuances humanas, facilitando o uso pela polícia.
A IA viabiliza dados estratégicos para a polícia. Esses dados permitem monitorar os índices de violência contra a pessoa idosa, identificar padrões de ocorrência, regiões com maior incidência de casos. E formular planejamento de ações e de políticas públicas efetivas e educacionais
Marta Amorim Professora e coordenadora do projeto
Além do suporte estratégico aos policiais, o projeto foi pensado com foco na inclusão digital e na segurança da população. O portal oferece um módulo de prevenção com orientações sobre como agir e notificar as autoridades em casos de maus-tratos.
Para atender às necessidades da terceira idade, a interface conta com recursos de acessibilidade, como a ampliação de fontes e a compatibilidade com leitores de tela.
Todos os dados sensíveis da denúncia são processados apenas na rede interna da Polícia Civil, garantindo total sigilo e proteção às vítimas. Ou seja, a IA atua exclusivamente nos bastidores da delegacia e não interage com o público.
Marta revela que o trabalho teve início em setembro do ano passado e seguirá até agosto deste ano, envolvendo estudantes de bacharelado em Sistemas de Informação e de técnico em Informática para Internet integrado ao ensino médio.
Desdobramentos do projeto
Embora o portal já esteja em fase final de homologação técnica e com previsão de ficar disponível para a população em cerca de um mês, essa é a primeira etapa de uma iniciativa que promete ser maior.
De acordo com a coordenadora, há planos ambiciosos para as próximas fases da ferramenta. "Esse é um projeto que tem uma ampliação enorme, vários desdobramentos. Inclusive, estamoss escrevendo outras partes do projeto que vão contemplar um sistema integrado para receber denúncias de violência de diversos âmbitos. Vale, por exemplo, para direitos humanos, incluindo crianças, adolescentes, mulheres, população negra, pessoas LGBT, pessoas em situação de rua, vários grupos sociais vulneráveis", afirma.
Ela também explica que a futura expansão funcionaria a partir de um painel gerencial de inteligência artificial que poderá cruzar esses dados de forma geográfica e temática e dar subsídios estratégicos de ações de prevenção.
Em relação à possibilidade de falsas denúncias ou trotes, a professora esclarece que esse cenário já é estudado pela equipe.
"Além disso, já existem estudos para que a IA verifique fakes, não só de texto, mas também de imagem. Então, verificar se existem denúncias que não são provenientes do contexto, porque existe um padrão [de denúncias falsas] que a IA consegue identificar”, destaca.